Macau, China, 03 mai 2020 (Lusa) – Os alunos de língua materna não portuguesa que ingressam na Escola Portuguesa de Macau “têm vindo a aumentar significativamente”, atingindo este ano 75% do total dos estudantes, disse à Lusa o diretor da instituição.

Há três anos, foram cerca de 40%, frisou Manuel Machado. Há dois, cresceu para 60%. E este ano letivo, em cada quatro alunos que entram na Escola Portuguesa de Macau, três não têm o português como língua materna.

Uma realidade que exige agora “por parte dos professores todo um desenhar de novas estratégias capazes de responder às necessidades linguísticas destes alunos”, salientou.

Para isso tem-se privilegiado “o ensino do português relativamente a outras áreas do currículo, o que não significa que essas áreas não venham a ser exploradas mais tarde”, ressalvou o responsável da escola que, em 1998, foi constituída como herdeira de três instituições de ensino em língua portuguesa a Escola Primária Oficial, a Escola Comercial e o Liceu de Macau.

“É um grande desafio que a escola enfrenta”, enfatizou.

Entre as estratégias delineadas, avançou-se para a criação de um clube de filosofia, no qual o desenvolvimento das competências passa pelo uso obrigatório da língua portuguesa para todos os estudantes do primeiro ao quarto ano de escolaridade.

Há também uma oficina de escrita, mas a escola teve igualmente a ‘arte’ de conceber um espaço que parece feito à medida para dar resposta a estes desafios e que é destacado por Manuel Machado: uma sala de leitura, cujo projeto arquitetónico foi vencedor na categoria “Inovação” do Prémio de Conservação da Herança Cultural Ásia-Pacífico da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

A mesma organização que declarou, em novembro do ano passado, o dia 05 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, mediante proposta de todos os países lusófonos apoiada por mais 24 Estados, incluindo países como a Argentina, Chile, Geórgia, Luxemburgo ou Uruguai.

Em Macau, a maioria daqueles que ingressam no primeiro ciclo na Escola Portuguesa tem o cantonense como idioma nativo. O estabelecimento de ensino tem 70 professores, a tempo inteiro e parcial, e 623 alunos do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, divididos por 14 turmas. Quase 50% dos alunos frequentam o 1.º ciclo.

“O único espaço onde falam português é de facto na escola. O acompanhamento dos pais da língua é praticamente nulo, o que implica por parte dos professores e educadores trabalho acrescido”, explicou Manuel Machado, que fez questão em assinalar “a resposta favorável” e “o esforço dos professores”, na definição de estratégias e na formação necessária para melhor ministrarem o português enquanto língua estrangeira.

“Esse trabalho traduz-se também pela frequência das aulas de português de língua não materna que nós oferecemos” e no apoio garantido pelos professores da área para suprir as dificuldades que apresentam no domínio da língua, acrescentou.

Um desafio que se cruza com um outro, traduzido em 150 horas anuais, em horário pós-letivo, durante três anos, três vezes por semana, duas horas de cada vez: o ensino do português como língua estrangeira a alunos de escolas secundárias chinesas.

“Tem havido de facto uma procura cada vez maior da escola e do nosso currículo, todo ele, excetuando as disciplinas de línguas, lecionado em português”, salientou o diretor.

Num momento em que o mundo sofre o impacto da pandemia da covid-19, o Dia Mundial da Língua Portuguesa vai ser assinalado em Macau de forma discreta. “A possível, dadas as circunstâncias”, disse o diretor da Escola Portuguesa, que em 05 de maio vai também reiniciar, de forma faseada, as aulas presenciais.

A data vai ser assinalada por uma pequena cerimónia durante a qual será fixada uma placa alusiva ao Dia Mundial da Língua Portuguesa e haverá tempo para uma leitura do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, que chegará às diferentes turmas através do sistema de som da escola.

A UNESCO escolheu para a efeméride a data em que há uma década se celebrava o dia da língua portuguesa e da cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, 3,7% da população mundial.

É língua oficial dos nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e Macau, bem como língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, União Africana ou o Mercosul.

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