6 March 2021

Livros & Livrarias online

Annabela Rita 
Foto: Vista do interior da Biblioteca Pública

Pensemos nesse análogo do homem, da sua história e dos seus limites (em particular, do conhecimento que o distingue e lhe constitui o antropos, factor de cultura e de imaginação), obra de humanos Prometeus: o livro, imagem, símbolo e espelho! Da ambição de representação do mundo (os velhos espelhos da natureza/Speculum Naturale da Antiguidade) à da representação do eu, deslizando para a função de espelho quebrado e com outro lado, superfície transformadora…

Implicados e derivados do livro, temos os seus mundos: Bibliotecas e Livrarias, em especial, concretizações de projectos inacabados, incompletos, e versões eruditas do velho labirinto, mas onde o novo Dédalo concebe fios de Ariadne para partilhar itinerários.

A ideia de Biblioteca plasma a da representação da Humanidade e do seu conhecimento. É lugar de descoberta de livros (Umberto Eco) e um modelo do Universo (J.L.Borges). Sonho de escopo universal (Kurt Lasswitz, nos fins do século XIX, imaginou uma que com o registo de todas as variações dos vinte e tal símbolos ortográficos em todas as línguas)! Onde se desenham outram à medida de quem a percorre ou habita: leitores e autores. Justificando Um Diário de Leituras No Bosque do Espelho (Alberto Manguel).

A bíblica Biblioteca de Babel. A lendária e clássica Biblioteca da Alexandria!…

Bibliotecas famosas pelo acervo ou pela história e/ou que convidam pela beleza[2], estando a do Palácio de Mafra português considerada a mais bela do mundo.

Bibliotecas imaginárias/imaginadas cujas referências povoam a literatura, ambiciosa de universalidade: a do Mundo de papel (Pirandello), d’O Nome da Rosa, de Umberto Eco, a do Capitão Nemo (Julio Verne), a de Alonso Quijano (Cervantes), a de San Víctor (Rabelais)…

A escrita passou a relacionar texto e hipertexto, encarando possibilidades praticamente “infinitas” de elaboração, processamento, combinação e interação, à rebours da linearidade discursiva e de leitura: consagra links com diversos documentos, combinando várias media (imagem digitalizada e áudio), favorecendo uma velocidade e uma nexologia inéditas, potenciando a virtualidade do impossível e do ilimitado…

Ao lado das tradicionais Bibliotecas, lugares de leitura e de consulta, desenvolveram-se as suas duplas comerciais, Livrarias presenciais, belíssimas e atraentes, atraindo leitores e bibliófilos, humanistas[3].

Agora, porém, ao lado das Livrarias onde as obras se oferecem, em papel, alinhadas em expositores verticais, horizontais, ‘ilhas’ ou pirâmides… eis que surgem novas montras para o que se escreve e publica: as livrarias online. O charme ambiental e arquitectónico cede ao pragmatismo das novas tecnologias…

Grande angular.

Os catálogos das livrarias online constituem Bibliotecas apetecíveis. Percorra-se essa nova Biblioteca: entre o papel e o ebook, o projeto livre e o pedagógico, o antigo, o em segunda mão, a novidade e o pré-lançamento, promoções e tops de venda… dezenas de temas e centenas de editores organizam os seus corredores virtuais e a pesquisa permite rápida localização… de quase um milhão de obras (a Wook tem mais de 800 000 registos).

Que fios de Ariadne nos oferecem estas livrarias?

Novos Fios de Ariadne.

Vejamos o óbvio, constatando o modo como a orientação é completamente descoincidente da Classificação Decimal Universal (CDU) que organiza as tradicionais bibliotecas, mas igualmente descoincidente entre as diferentes livrarias, cada uma optando por estratégias diferentes, como podemos verificar confrontando 3 exemplos: Amazon[4], a Wook[5] e a FNAC de Portugal[6].

Ora, nestes labirintos de oferta, como/onde se situa o leitor e a obra?

A escrita constrói e propõe uma realidade ao lado do real mais óbvio: essa ficção é, por excelência, estimulante da imaginação e da reflexão, implica a manipulação do (re)conhecimento e do irreconhecimento da comunidade, de autores e de leitores.

Em jeito de letras com(n)vida, consagrarei algumas pinceladas de itinerários sinuosos por estas bibliotecas metamórficas que nos distraem, informam e fazem refletir… A cultura é, afinal, uma never ending conversation (Wendy Steiner).

Deixando, p.v., cair as autorias em benefício dos títulos, observemos alguns companheiros de estantes ou de corredores virtuais que nos interpelam em inesperada proximidade:

Ao lado de O que é a Bíblia (Carreira das Neves) ou a Bíblia em Citações (Anselmo Borges), caminha-se para a alternativa (O Livro dos Livros. Uma Bíblia Humanista, de A.C. Grayling), a exploração da letra (Bíblia Sagrada – Sensacional Descoberta, de António Manuel Rodrigues), a hipótese “E se…?” (O Testamento Final da Bíblia Sagrada, de James Frey, O Enigma do Mar Morto, de A. Blake)… mas também Islão (de Mancini & Ricciardelli), Novo Dicionário do Islão (de Margarida Santos Lopes) e Portugal e o Islão (de Adalberto Alves)…

Junto do retrato de Einstein (de P. D. Smith), a montagem de citações Einstein e Buda ou o romance A Fórmula do Amor sobre suposta e secreta equação

Breve História da Europa está próxima de Conversas Sobre a Crise. Portugal, a Europa e o Mundo, por sua vez, perto de Coração Sem Abrigo

Grandes Chefes da História de Portugal estão contíguos a Histórias Secretas de Reis Portugueses e a Portugal Vale a Pena!  ou O Julgamento, mas também aos romances 1494, Meu Portugal Brasileiro

Uma Viagem à Índia, O Feitiço da Índia e Lendas da Índia oferecem-nos outras e diferentes Índias, entre a prosa e a poesia, a letra e o gráfico, a tradição literária e hipóteses reais…

A Poesia Reunida fraterniza na prateleira Fernando Pinto do Amaral Nuno Júdice e Maria Teresa Horta. As Obras Completas alinham também Jorge Luís Borges, Nuno Bragança e Urbano Tavares Rodrigues. Citações & Pensamentos cirurgicamente selecionadas enfileiram  Pessoa,  Nietzsche, Florbela Espanca, Sigmund Freud, Padre Antonio Vieira, Camilo Castelo Branco,  Bocage, Eça, Agostinho da Silva e os seus antologiadores…

Alice apresenta retratos contrastivos: Alice no País das Maravilhas  e “10 anos depois” (de Carrol e de Sutherland), O Livro da Avó Alice, O Inferno de Alice, Alice ao Espelho, Ainda Alice, Perguntem à Alice

Ficcionando hipóteses em diferentes registos: O Que Darwin Escreveu a Deus e A Última Valsa De Chopin (de J.J.Letria).

Etc.

E, ao lado da perspectiva centrada na obra (temática, perspéctica e de qualidade) evidenciam-se sugestões de outro tipo, em função das circunstâncias do leitor e da leitura.

Os destaques por prémio, tops ou… P. ex., na Amazon, encontramos a já clássica lista de selecção dos 100 (100 Books to Read in a Lifetime, 100 Biographies & Memoirs to Read in a Lifetime, 100 Children’s Books to Read in a Lifetime, 100 Leadership & Success Books to Read in a Lifetime, 100 Sci-Fi & Fantasy Books to Read in a Lifetime, etc.).

As também clássicas sugestões de leituras de verão.

Curiosamente, relacionando Literatura e Leitura e parecendo responder à pergunta de Antoine Compagnon  (Para que Serve a Literatura?), eis-nos a encontrar obras que constituem autênticos catálogos de sugestões, conjugando os critérios centrados no leitor, na obra e na circunstância de leitura e na utilidade da mesma: 90 Livros Clássicos Para Pessoas Com Pressa, de Thomas Wengelewski e Henrik Lange, Vidas extrañas y otra literatura para perros, Miguel Mihura, Diccionario de literatura para esnobs Yy, Fabrice Gaignault, Personagens Ou Pacientes? Clássicos Da Literatura Mundial Para Refletir Sobre A Natureza Humana, Taki A. Cordas, Canon heterodoxo Manual de literatura española para el lector irrevere, Antonio Luis Rodríguez Martínez, Literatura para principiantes con sed (Spanish Edition), de Hermes Mora e Mayra García, Historias para aguantar un lunes por la manana, de Santiago Hoyos, Um livro para todos os dias, de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho, etc.. Remédios Literários, de Ella Berthoud e Susan Elderkin, na senda de uma biblioterapia emergente[7]. Os Livros das Nossas Vidas, de Mendo de Castro Henriques e Nazaré Barros, sugere em função das circunstâncias, apetências e tipos de leitores[8]

“guiando-nos pelos vastos oceanos do conhecimento que nos abriram mundos, interiores e exteriores, e fizeram de todos nós exploradores intrépidos da incrível aventura da Humanidade” e afirmando a leitura como escolha e “acto de liberdade”[9].

… os desafios às nossas cultura, curiosidade, imaginação, credulidade ou memória sucedem-se com efeito de caleidoscópio onde os padrões do desenho não se recompõem…

[1] http://www.congressoespiritosanto.net/ptg/index.html#programa .

[2] http://www.momondo.pt/inspiracao/as-10-bibliotecas-mais-bonitas-do-mundo/#vxs2lAi0EUuzo5TD.97.

[3] Alguns exemplos que costumam ser listados: Atlantis Books, Santorini, Grécia, Bart’s Books, Ojai, Califórnia, Estados Unidos, Barter Books, Alnwick, Reino Unido, Bookworm, Pequim, China, Brentano’s, Paris, Cafebreria Pendulo, Cidade do México, México, Cook & Book, Bruxelas, Bélgica, Corso Como Bookshop, Milão, Itália, Daikanyama T-Site, Tóquio, Japão, El Ateneo, Buenos Aires, Argentina, El Péndulo, México, Galignani (primeira livraria inglesa na Europa fora das ilhas britânicas), Paris, Selexyz Bookstore, Maastricht, Livraria da Vila, S. Paulo, Lello e Irmão, Porto, Portugal, Ler Devagar, Lisboa, Portugal, Livraria da Vila, S. Paulo, Brasil, Plural Bookshop, Bratislava, Slovakia, Poplar’s Kid Republic, Pequim, China, Rizzoli, Nova York, Estados Unidos, Selexyz Dominicanen, Maastricht, na Holanda, Shakespeare & Company, Paris, França, The American Book Center, Amsterdam, the Netherlands, The Bookàbar Bookshop, Roma, Itália, The Last Bookstore, Los Angeles, Estados Unidos, VVG Something, Taipei, Taiwan. A Selexyz Dominicanen, montada numa antiga igreja dominicana, tem (ou tinha, pois creio que todas as livrarias da antiga cadeia Selexyz fecharam por razões financeiras) à entrada uma porta de quase 6 toneladas com inscrições em 27 línguas para a palavra livro.

[4] As secções (mantendo, por curiosidade, o número de obras registadas agora): Arts & Photography (1, 633, 740)Biographies & Memoirs (560, 562), Business & Money (1, 836, 315), Calendars (253, 815), Children’s Books (1, 430, 231), Christian Books & Bibles (762, 258), Comics & Graphic Novels (455, 295), Computers & Technology (428, 840), Cookbooks, Food & Wine (209, 383), Crafts, Hobbies & Home (472, 575), Education & Teaching (965, 205), Engineering & Transportation (807, 191), Gay & Lesbian (109, 792), Health, Fitness & Dieting (698, 571), History (3, 669, 404), Humor & Entertainment (708, 339), Law (590, 400), Literature & Fiction (3, 459, 866), Medical Books (797, 155), Mystery, Thriller & Suspense (365, 553), Parenting & Relationships (238, 515), Politics & Social Sciences (1, 858, 408), Reference (4, 353, 245), Religion & Spirituality (1, 417, 586), Romance (770, 137), Science & Math (1, 525, 002), Science Fiction & Fantasy (423, 707), Self-Help (413, 198), Sports & Outdoors (268, 450), Teen & Young Adult (313, 503), Test Preparation (110, 965), Travel (459, 659). Os suportes: Paperback (31, 152, 180), Hardcover (11, 292, 363), Kindle Edition (3, 242, 244), Audible Audio Edition (94, 335), Printed Access Code (29, 723), Digital Access Code (2), Loose Leaf (109, 458), Audio CD (428, 749), Board Book (172, 054), Kindle Unlimited/Eligible (1, 075, 151). Os premiados: Caldecott Medal (42), Man Booker Prize (22), National Book Award (33), Newbery Medal (49), The Pulitzer Prize (14), Hugo & Nebula Awards (12), Eisner Award (39).

[5] portuguesa, a estratégia inicial é outra: por língua, ebook, escolares e seu apoio. Depois, outras secções, cada uma delas com subsecções numerosas: LIVROS EM PORTUGUÊS, ARTE, BANDA DESENHADA, CIÊNCIAS EXATAS E NATURAIS, CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS, DESENVOLVIMENTO PESSOAL E ESPIRITUAL, DESPORTO E LAZER, DICIONÁRIOS E ENCICLOPÉDIAS, DIREITO, ECONOMIA, FINANÇAS E CONTABILIDADE, ENGENHARIA, ENSINO E EDUCAÇÃO, GASTRONOMIA E VINHOS, GESTÃO, GUIAS TURÍSTICOS E MAPAS, HISTÓRIA, INFANTOJUVENIL, INFORMÁTICA, LITERATURA, MEDICINA, POLÍTICA, RELIGIÃO E MORAL, SAÚDE E BEM ESTAR, PLANO NACIONAL DE LEITURA, VIDA PRÁTICA.

[6] Aqui, as entradas já são outras: FESTA DO LIVRO ONLINE, PROFISSIONAIS E ESTUDANTES, FNAC SUGERE, EM CAMPANHA, LITERATURA, CULTURA E SOCIEDADE, LAZER E VIAGENS, SAÚDE E BEM-ESTAR, GASTRONOMIA, LIVRO TÉCNICO, GUIAS DE ESTUDO, BD E MANGA, INFANTIL E JUVENIL, LIVROS EM LÍNGUA ESTRANGEIRA, PAPELARIA FNAC.

[7] Expressivamente, apresenta-se assim:

“De A a Z, desde «Abandono» até «Zangar-se com o melhor amigo» – centenas de livros para a cura de todos os seus males. O seu amor não é correspondido? Sofre de depressão? Está com uma crise identidade? Constipada? Tem falhas de memória? Acha que sofre de reumatismo? É hipertenso? Tem falta de sono? Corre risco de ter diabetes? Para este livro, o remédio está na leitura dos grandes romances que imortalizaram autores como Saul Bellow ou Stefan Zweig, passando por Goethe, Tolstoi, Kafka, Isabel Allende, Mia Couto, Salinger, Jane Austen, Melville, Nabokov, Eça de Queirós, Saramago e muitos outros.

A experiência de biblioterapia que aqui se propõe baseia-se na experiência das autoras com pacientes — e é apoiada por uma avalanche de provas empíricas. Para cada crise, doença, situação de sofrimento físico ou de comoção espiritual, há um livro indicado que pode servir de cura. Por vezes, é a história que encanta, outras vezes é o ritmo da prosa que trabalha na psique, aquietando ou estimulando, ou é uma ideia ou uma atitude sugerida por uma personagem que está num dilema ou num sarilho semelhantes. Os romances recomendados neste livro – mais de 750 – têm o poder de curar e de aliviarem todos as maleitas. Inclui um vasto número de listas que vai entusiasmar qualquer leitor ou amante de livros: os melhores romances para abafar o ressonar, para baixar a tensão arterial, para ler na sanita, para combater os pesadelos, para ler no comboio, para ler durante uma constipação, para superar um divórcio, para quem não pode viajar, para ler durante a gravidez, etc. — incluindo uma lista dos melhores romances ‘para parecer um bom leitor’” [http://www.quetzaleditores.pt/livros/ficha/remedios-literarios?id=16790070].

[8] Enuncia objectivos formativos fundamentais: “Para nos ajudar a distinguir a fina linha que separa o importante do urgente, o essencial do acessório, os autores propõem-nos Os livros das nossas vidas, guiando-nos pelos vastos oceanos do conhecimento que nos abriram mundos, interiores e exteriores, e fizeram de todos nós exploradores intrépidos da incrível aventura da Humanidade. Um livro para despertar consciências e fazer da leitura um acto de liberdade.” [https://www.wook.pt/livro/os-livros-das-nossas-vidas-nazare-barros/17946728]

[9] Cito da apresentação da obra [https://www.wook.pt/livro/os-livros-das-nossas-vidas-nazare-barros/17946728].

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