Conhecida desde os primórdios da geologia, guarda páginas do livro da Terra.

Texto: Carlos Neto de Carvalho

Se os penedos de aspecto estranho, acamados e regulares lembram as lombadas de livros numa “biblioteca geológica” construída há cerca de 300 milhões de anos, esta bem poderia ser a mais antiga livraria do mundo. Cada estrato vertical que preenche a Livraria do Mondego é um livro, ou uma página, deste recuado período da história da Terra, conhecido como Ordovícico, que se iniciou há 488 milhões de anos e se prolongou por quase 45 milhões de voltas em torno do Sol.

Na região do Buçaco, tiveram origem alguns dos primeiros estudos sobre o Ordovícico em Portugal, com os pioneiros da geologia portuguesa Carlos Ribeiro e Nery Delgado. Estes primeiros trabalhos de cartografia geológica e paleontológicos tornaram a Livraria do Mondego referencial para a comparação da sua formação quartzítica, com formações presentes em Portugal desde Esperança, em Arronches, até à serra de Barreiras Brancas, em Bragança. Como qualquer boa biblioteca, também a Livraria do Mondego é um repositório de conhecimento científico, que continua a ser revisto e ampliado.

Depois de desenhar magníficos meandros até ao Porto da Raiva, o Mondego lança-se através da serra do Buçaco, instalando-se à régua na grande falha geológica que se estende desde Penacova a Verín, na Galiza. Na verdade, aerosão do rio Mondego desenvolveu sucessivos cabris, desde o Cabeço da Morada à Rebordosa, a jusante de Penacova. Do Penedo do Castro ou do mirante Emídio da Silva, a escala dos processos geológicos que se vislumbra é avassaladora: a légua linear da garganta do Mondego na falha que parte em duas a serra do Buçaco; o Santuário de Mont’Alto, a 326 metros de altitude, marcando a magnitude do desvio das cristas quartzíticas pelo movimento da falha; a espantosa dobra em U conhecida como Sinclinal de Buçaco, estendendo-se por 38km entre o Luso e os penedos de Góis e compondo-se os seus flancos das rochas mais antigas; e, já na margem sul, Entre Penedos atravessados pela panorâmica Estrada Nacional 2, num alcantilado que atinge mais de 200 metros quase verticais.

É necessário percorrer todos estes locais para compreender a formação da Livraria do Mondego e sentir a força do relevo pormenorizando cada página da história da Terra a partir do percurso pedestre PR5, ou tão confortavelmente, realizar a meia légua do percurso interpretativo, com vista privilegiada de caras ao escaparate geológico.

O escritor Vitorino Nemésio disse que “Penacova é luz e penedia, com o quer que seja de pirenaico, trazido às proporções da ternura e da rusticidade portuguesa”. O milhafre-negro paira sobre a garganta fluvial e o guarda-rios descansa num pilriteiro de alvas flores estreladas. Do Mondego advém uma das riquezas da biodiversidade de Penacova, a célebre lampreia, que define o roteiro gastronómico de qualquer geólogo que se preze.

Encontra-se à guarda do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra uma página rasgada à Livraria do Mondego. Em 1915, no decurso das obras de alargamento da Estrada Real 48, resgatou-se em pedaços uma “Pedra Curiosa”, repleta de formas serpentiformes de configuração bilobada e ornamentação em espinha de peixe. O maior destes pedaços, com cerca de 3 metros, foi embutido numa parede deste museu e ali permaneceu ao olhar de todos, mas esquecido pela ciência. Recentemente, a “Pedra Curiosa” e os seus icnofósseis de trilobites receberam finalmente o estudo merecido coordenado pelo paleontólogo Ricardo Paredes.

A escrita paleobiológica da “Pedra Curiosa” e a valorização no local do património geológico podem ser o desejado virar de página na Livraria do Mondego.

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