5 March 2021
Em Toronto, na província canadiana de Ontário, a zona entre as ruas Bathurst e Dufferin é conhecida desde os anos 1970 como ‘Little Portugal

‘Little Portugal’, em Toronto.

Fernando Abreu, 52 anos, um dos proprietários da Churrasqueira do Sardinha, localizada no 1130 da Dundas St W, mesmo no centro de ‘Little Portugal’, disse à agência Lusa que atualmente há menos portugueses do que se verificava “há uns anos atrás.

“Muitos mudaram-se para o norte de Toronto, e mais recentemente abriram alguns estabelecimentos canadianos e de outras nacionalidades aqui no ‘Little Portugal’, mas a Dundas continua a ser o nosso Pequeno Portugal”, afirmou o emigrante, natural do distrito de Viseu e desde 1991 no Canadá.

Uma parte de ‘Little Portugal’ está incluída no círculo eleitoral da Davenport, que reelegeu recentemente a vereadora Ana Bailão (Bairro 18) e que nas eleições provinciais do passado verão elegeu então a deputada Cristina Martins.

Calcula-se que existam atualmente no Canadá cerca de 550 mil portugueses e lusodescendentes, estando a grande maioria localizada na província do Ontário.

E é em ‘Little Portugal’ que os que procuram ou têm saudades de produtos portugueses saciam o desejo.

Fernando Abreu reconhece, orgulhoso que a zona “é praticamente uma cidade portuguesa no centro de Toronto”.

“Não há de tudo, mas é quase como se estivesse em Portugal”, justificou, explicando que no seu estabelecimento de ‘take out’ aberto há 11 anos, a grande especialidade é o tradicional frango assado.

Praticamente ao lado, no 1209 da Dundas St W, fica a Caldense Bakery, umas das primeiras padarias e pastelarias na área.

A empregada mais antiga, com 24 anos de serviço, Isabel da Silva, 39 anos, disse que os canadianos gostam muito dos doces portugueses, nomeadamente o bolo-rei.

“Ainda hoje vendi três ou quatro bolos-rei a canadianos que são casados ou têm familiares portugueses”, exemplificou.

A emigrante, natural de Braga, também nota a progressiva diminuição da presença portuguesa, considerando que a zona “está mudada”, constatando o envelhecimento da população, com os mais novos a afastarem-se da zona, devido aos elevados valores imobiliários: uma casa pode custar, em média, 1 milhão de dólares canadianos (700 mil euros).

No ‘Little Portugal’, pode-se também encontrar os tradicionais enchidos portugueses, embora fabricados no Canadá devido à legislação em vigor.

Trata-se do “Pavão Meats and Deli”, no 1435 da Dundas St W, de que Luís Pavão, 38 anos, é um dos proprietários.

“Quem aqui entra, sabe que estamos num Pequeno Portugal. Oferecemos à comunidade um pouco que todo o nosso país oferece, tentamos ir às diferentes regiões, passando pelos Açores, Madeira e continente”, explicou, acrescentando que, entre várias especialidades, apresenta o chouriço micaelense, as tripas à moda do Porto, o pé de torresmo caseiro, a morcela e a farinhota (pequena farinheira).

Uma historiadora e um sociólogo, ambos luso-descendentes, explicaram à Lusa as origens do ‘Little Portugal’.

“Foi criado por necessidade, porque os portugueses não falavam nem sabiam ler inglês. Queriam os produtos a que estavam habituados em Portugal”, disse Susana Miranda, 40 anos, uma das responsáveis do Projeto de História Luso-canadiana, e filha de emigrantes naturais da Lourinhã, distrito de Lisboa.

“Podiam comprar o tradicional bacalhau ou outros produtos importados, ou então podiam ir ao salão do bilhar à procura de trabalho, tinham necessidades do dia-a-dia, e o ‘Little Portugal’ cresceu por esses motivos”, afirmou

Após a emigração oficial para o Canadá, em 1953, os portugueses “começaram por se fixar na rua Augusta, no Kensington Market, acrescentou.

“Foi nessa área que abriu o primeiro restaurante português, uma papelaria, um supermercado, e a primeira pensão onde os ficavam algumas noites até encontrarem um local para viverem”, explicou Susana Miranda.

Por sua vez, o sociólogo Emanuel da Silva, de 36 anos, e que é também diretor do Projeto de História Luso-canadiana, acrescentou que a interseção da Dundas Street West com a Ossington Avenue tem sido o “coração” da comunidade portuguesa em Toronto, desde o início dos anos 70, mas com o passar do tempo “podem-se verificar algumas alterações” como a diminuição da presença lusa na área.

Os dois lusodescendentes reconhecem que a própria Câmara Municipal de Toronto tem vindo a apostar na multiculturalidade da cidade numa questão de ‘marketing’ para “atrair mais turistas”.

O Projeto de História Luso-canadiana foi criado em 2008 e pretende sensibilizar a comunidade, preservando e documentando a presença dos imigrantes portugueses no Canadá.

SEYM // EL – Lusa/fim

Foto: – A luso-canadiana, nascida em Alenquer, Ana Bailão, alcançou a vereação de Toronto, no círculo 18 do bairro de Davenport, conseguindo 43, 7 por cento da votação (com um total de 6.277 votos), em Toronto, 26 de outubro de 2010. LUSA


 

Também poderá gostar

Sem comentários