28 February 2021
O drama sociocultural é um dos dilemas com que se confronta o escritor africano. Este dilema traduz-se no facto de o escritor africano ter de escrever, regra geral, numa língua europeia, estranha à maior parte da comunidade em que está inserido e que se acha representar.

Literatura e expressão linguística

Bem entendido, o escritor angolano não poderia ficar de fora deste dilema, quanto mais não seja porque o português vernáculo não atende às solicitações que o seu variegado contexto sociocultural e plurilinguístico lhe oferece.
Queremos crer que é justamente em atenção a essa expectativa que o percursor da literatura angolana Cordeiro da Mata, para além de filólogo e autor do primeiro dicionário quimbundo-português, curou de responder a essa inquietação ontológica, escrevendo um poema bilingue (quimbundo-português), intitulado “Kicôla”.
Esta tradição literária parece ter-se mantido com o dicionarista e romancista Assis Júnior, ao publicar nos meados do Séc. XX um outro dicionário quimbundo-português, inspirado no pai espiritual da literatura angolana, Cordeiro da Mata.
É interessante notar que, no longo percurso rasgado pela literatura angolana, foi o próprio Assis Júnior quem interessou e introduziu o poeta e nacionalista Mário de Andrade no estudo do quimbundo, língua com que falava com a madrasta e o criado no quintal – segundo seu próprio testemunho.
Neste sentido, cumpre assinalar que Mário de Andrade procede a uma profunda ruptura ao “stablishment” literário então dominante na época – estamos nas décadas de 1940-50 – ao escrever um poema em quimbundo, sugestivamente intitulado “Muimbu ua Sabalu” (canção para Sabalu), que é um autêntico libelo acusatório à engrenagem infra-humana do contrato ou do trabalho forçado (autêntica reedição da escravatura em pleno século XX), por sinal um dos temas privilegiados e recorrentes da literatura da fase de pré-independência.

Paradoxo linguístico
Ainda à volta da problemática sociolinguística referida à literatura, os poetas da “Geração da Mensagem” procuraram também romper com o paradoxo linguístico de escrever para um público restrito, fazendo apelo à língua kimbundu, invocando e recriando o pregão da quitandeira, eivado de empréstimos: “ji Ferrerê…”, “Malimongê…” (António Jacinto), “Estão a dizer que é civrização”, “Ó ió kalunga uá mubanguelê” (este a morte é que o fez – Agostinho Neto), etc.

 

 

Ler artigo completo (Jornal de Angola)

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