1 March 2021
Escola de referência em Dili, Timor Leste, 25 de julho de 2014. PAULO NOVAIS/LUSA A partir de 2015, as Escolas de Referência transformaram-se nos atuais Centros de Aprendizagem e Formação Escolar (CAFE).

Línguas maternas em Timor-Leste

Ramos-Horta defendeu que as línguas maternas em Timor-Leste sejam disciplinas opcionais nas escolas, mas apenas quando o país tiver condições, com o Governo a concentrar-se, para já, noutras questões prioritárias.

“Não temos professores qualificados suficientes. Embarcar neste processo de fazer uso das línguas tradicionais vai ser mais um enorme encargo”, afirmou.

O ex-chefe de Estado falava à Lusa nas vésperas de o parlamento Nacional retomar, na segunda-feira, o debate da Apreciação Parlamentar sobre dois polémicos decretos curriculares do Governo para o ensino pré-escolar e ensino básico.

A Apreciação Parlamentar pretende cessar a vigência de dois diplomas, que colocam o português como língua principal apenas no 3.º ciclo e introduzem o uso de outras línguas maternas timorenses, não oficiais, no ensino.

Os currículos preparados para acompanhar os decretos explicam, por exemplo, que o português só terá 25 minutos de aula por semana na 1ª classe, algo que Ramos-Horta considera “perfeitamente ridículo”.

“Não sei a quem ocorreu essa brilhante ideia”, disse.

A pensar no debate, Ramos-Horta recomendou aos partidos com assento parlamentar e ao Governo que “enquanto pessoas responsáveis e que se preocupam com o futuro do país (…) se sentem, dialoguem e revejam toda essa política”.

Na ausência de consenso, disse, é preferível adiar esta decisão, até porque este Governo tem apenas mais dois anos e meio de vida, sendo “preferível que se concentre em coisas absolutamente prioritárias”.

“Melhorar as condições das escolas, água potável, saneamento, refeições escolares, bibliotecas. Porque são coisas físicas e de mais fácil solução, deixando esta questão de fundo para 2017.

“E até lá aprofundar o debate, com civilidade, com especialistas e ver qual seria a melhor forma. Mas sempre sabendo que Timor tomou esta opção do português e do tétum em 1999 e não vale a pena estar a reabrir o assunto constantemente ou a questionar esta decisão, que já está enraizada”, afirmou.

Ramos-Horta reconheceu que há estudos sobre outros países, incluindo alguns da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que sugerem o uso da língua materna pode facilitar a apreensão de outras línguas, mas insistiu que “um estudo que é verdade num país, não tem que ser verdade noutro”.

E questionou, ao mesmo tempo, o que ocorre num momento em que em Timor-Leste há “grande circulação de pessoas”, com muitos “de uma região, de um grupo étnico-linguístico” a viver em zonas diferentes do país.

“Como é que se vai fazer isso? Separa-se as classes? Dividem-se os alunos? Se calhar é melhor ter línguas maternas opcionais onde quem quiser tem acesso, mas reconhecendo que há uma grande mistura de todos”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o ex-presidente insistiu que estes processos “não se podem fazer a corta-mato” e que uma das maiores deficiências continua a ser a falta de formação dos professores timorenses, incluindo o facto de não dominarem as línguas nas quais deve comunicar com os alunos.

ASP // VM – Lusa/Fim


Fotos:

– Ramos Horta, conversa com alunos de uma escola primaria, terca-feira 16 Maio 2006. MANUEL DE ALMEIDA /LUSA

– Criancas numa escola nos arredores de Dili em Timor-Leste. 01/05/2007. ANTONIO COTRIM/LUSA

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