…a linguagem que, como nenúfar…

E ali se vê o brilho vivo que navega no interior da sombra. Ali se ouve a linguagem que, como nenúfar, aflora à tona das águas paradas do silêncio. /…/ Ali o ar, em frente dos espelhos, oscila e parece arder /…/.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

Das Literaturas Lusófonas

…Ali

o ar,

em frente dos espelhos,

oscila e parece arder…

Falar de Literatura implicaria evocar acordos e desacordos e reflectir sobre matéria eminentemente metamórfica.

Todos concordamos com o facto de que a Literatura é linguagem e comunicação. Mas a ordem dos factores em referência não é arbitrária e aí começa o problema: na diferença e na especificidade que a constituem.

As sucessivas tentativas de definição e de caracterização dessa linguagem e comunicação estéticas seriam, só por si, susceptíveis de formar Bibliotecas.[1] Aqui, seria excesso imperdoável! Aceitemos, pois, que é uma cristalização cultural [2] e um sistema hipercodificado[3] por convenções específicas cujas insígnias os iniciados tendem a reconhecer e que influem na criação e na leitura: pluralidade e mutabilidade semântica[4], assimetria comunicativa (presença vs. ausência)[5], de géneros, de programas estéticos (escolas, movimentos, etc.), de referências que lhe (re)compõem o cânone e a memória (autores e obras)[6], de funções[7], etc..

Sereia, feiticeira e estrela, atrai e faz-nos segui-la a seu modo… desde o título, passando pelos limiares iniciadores (epígrafes, prefácios, advertências de leitura, etc.), até ao último traço no papel, cria (con)sequentes horizontes de expectativas que confirma, infirma ou concretiza, criando uma vivência além, aquém e ao lado da quotidiana, compensando-a, completando-a, analisando-a, (re)flectindo-a e/ou alienando-a.

Sigamo-la, então, contrariando a lição de Ulisses e deixemo-nos seduzir por ela, que…

…aflora

à tona das

águas paradas do silêncio…

Nas águas lusas, os nenúfares assumem tonalidades específicas…

Se a Literatura for “Lira /…/ da Consciência”[8] (Gomes Leal), então, ela terá o timbre do imaginário colectivo, como reconhece Manuel Alegre, ao ouvi-la:

Era um país ainda por dizer

e uma flauta cantava. Nos salgueiros pendurada

ou na palavra. Uma flauta

a tanger

a língua apenas começada. Subia

pelo nervo e pelo músculo

como quem assobia no acento agudo

e no esdrúxulo. Algures por dentro

do país mudo. Uma flauta floria

sobolos nomes que vão

para nenhures. Algures

contra o vento. Com seus cântaros

e alegrias suas câmaras

da memória. Uma flauta ainda

sem história. Chamavam por ela

os antigos e os apelos ecoavam.[9]

E a sua dimensão patrimonial [10], justifica instituições que a cartografem no âmbito de uma territorialidade alargada designada por mundo lusófono[11]: as academias[12], as associações culturais[13] e de escritores, certas instituições[14], prémios[15], museu[16], estudos linguísticos (da lexicologia à morfologia, sintaxe e história da língua), Bibliotecas (das tradicionais às digitais), assim como este observatório. Nesse mundo lusófono, como nos outros, a identidade nacional literária define-se no quadro da “literatura como sistema comunicativo segundo, intrinsecamente ligado ao esquema comunicativo primeiro da linguagem”, associando a consciência da comunidade nacional[17], podendo alguns autores reivindicar a sua pertença a duas literaturas nacionais ou a de uma nacionalidade que não é a sua de facto, mas por afectos, ou a uma nacionalidade ferida na sua autonomia e politicamente dominada por outra.

  1. 1. Da Literatura Portuguesa

Perscrutemos o som da “flauta” portuguesa.

No início, era… eis-nos no campo da história e da mitologia portuguesas.

Tudo começa com a independência, autonomia e legitimação comunitárias: a constituição de um povo como comunidade que se (faz) reconhece(r) autónoma, singular, diferente: Portugal.

Esse auto-acto político está consagrado em documentos próprios que o nomeiam e constituem a sua ‘cédula’, mas foi reforçado por uma construção imaginária progressivamente alimentada que lhe confere identidade, mais do que apenas nome.

No ADN nacional que lhe informa a cultura e as suas cristalizações literárias (e artísticas, em geral), destacaria a conjugação inicial de três componentes orientadoras da tessitura ‘penelopiana’: a bélica, a religiosa e a viator (no mais lato sentido, contemplando a relação dialéctica de quem parte com quem e com o que fica).

A elaboração de uma mitologia consagratória e messiânica que coloca a comunidade “sob o signo de…” reiterado nas suas insígnias (bandeira, hino, museologia, etc.) e na sua canção mais identitária, o fado (“Foi por vontade de Deus…”, na voz de Amália), assumirá como seu eixo mais central o imaginário cristão, mas, na verdade, quer a espiritualidade pagã, telúrica, quer a islâmica, quer a oriental, embebem-lhe o verbo relacional, o sentimento da transcendência, de um além marcante da teleologia da história e da existência comunitárias (uma vieirina História do Futuro[18], 1718).

Por esse sentimento e com ele se marcou e expandiu a territorialidade, se lutou e navegou, se fundaram comunidades que hoje se reivindicam de uma mesma família (a CPLP), se geraram sebastianismos ortodoxos e heterodoxos. A essas experiências se mescla a da diáspora e da miscigenação: anterior, simultânea e consequente.

Tudo contribuiu para que a ânsia de ser, eminentemente identitária, se tornasse um dos vectores centrais das suas manifestações culturais: não será apenas por programas estéticos que ela é considerada pela maioria dos seus clássicos (Camões, António Vieira, Garrett, Pessoa, etc.) como factor decisivo da definição dos protocolos da comunicação literária: na cultura do livro em que se inscreve, a relação de “adequação” (para usar garrettiana expressão) entre o verbo artístico e o povo-nação e/ou o seu representante é preocupação poiética, e a sua capacidade de “exacerbar” (a palavra, agora, é de Cesário) releva da capacidade de melhor a configurar, de mais se vincular a uma pátria-mátria.

Tudo favoreceu uma escrita interrompida pela vida e desejosa de cerzi-la, expectante do acontecer: o fragmentarismo complexo da escrita bernardiniana, como a musicalidade e brevidade das vocalizações galaico-portuguesas, tecidas de lirismo, tragicidade e narrativo, atravessam os tempos e os textos, no diálogo que lhes faz a história.

Tudo contribuiu, igualmente, para que o sentimento da ocidentalidade (que Cesário assumiu como um título), com todas as suas matrizes (greco-romana, judaico-cristã, mas também islâmica, e, noutra vertente, de vocação intimamente ‘ecuménica’, cavaleiresca, até, oriental, etc.) e fraternidades (europeias, com destaque para as peninsulares[19]) se fosse tingindo de outros sentimentos ditados pela vivência da ausência e da distância (no plano individual, familiar e colectivo) que lhe foram modalizando o verbo poético e ficcional entre canto e contracanto, registos simbolicamente expressos n’Os Lusíadas (1572) e na História Trágico-Marítima (1735-36).

Na ausência e na distância, a perda vibra de angústia, nostalgia, fatalidade (a lírica galaico-portuguesa, a cronística, a novelística bernardiniana, etc.). Nos que partem, como nos olhos descritos por João Roiz Castell-Branco, e chorados à guitarra, depois, por Adriano Correia de Oliveira:

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,

que nunca
tam tristes vistes
outros nenh
us por ninguem.

 

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,

tam cansado
s, tam chorosos,
da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida.

Partem tam tr
istes os tristes,
tam fora d’esperar bem
que nunca tam tristes vistes
outros nenh
us por ninguem.[20]

E nos que ficam, como no-lo canta Martín Codax (“Ondas do mar levado, / se vistes meu amado ?/ E aiy Deus, se verrá cedo! //Se vistes meu amigo, / o por que eu sospiro?/ E aiy Deus, se verrá cedo !”[21]) ou D. Dinis (“Ai flores, ai flores do verde pino, / Se sabedes novas do meu amigo!/ Ai Deus, e u é?[22]) em interpelação continuada por Manuel Alegre (“Se sabeis novas de meu amigo/ novas dizei-me que desespero/ por meu amigo que longe espera”[23]).

Ou ausência e distância onde a conquista vibra de estranheza e/ou de emaravilhamento (a narrativa de viagens ou radicada na sua simbólica), como observamos na Carta de Pêro Vaz de Caminha[24] (1500).

Ausência e distância, portanto, combinam e oscilam nas suas diversas e sucessivas representações entre o lírico, o narrativo e o trágico que os programas estéticos foram afeiçoando à realidade portuguesa.

  1. 2. Das outras Literaturas Lusófonas

Falei de lusas águas, que nas portuguesas não se esgotam

Do adjectivo e da sua genealogia, já reza muita crónica, mas passemos-lhe à frente: às outras Literaturas Lusófonas.

Língua de comunicação na territorialidade além peninsular, o português transportou consigo a dimensão artística que lhe confirmou e reforçou a identidade cultural.

Viajando no espaço e no tempo, a língua portuguesa desenvolveu intercâmbios: deu e recebeu, transformou-se. Nos territórios de maior permanência, foi-se miscigenando com as suas congéneres locais, estabelecendo nexos de aproximação e de distância, de afectos e de desafectos, revitalizando-se com as novas e diferentes seivas, incorporando léxico expressivo de outras paisagens (onde os sentidos são estimulados pela surpresa e estranheza de terras, mares e ares), ductilizando estruturas, assumindo cada vez mais a mudança inerente à (sua) vida.

Na sua diáspora, a língua transportou a cultura portuguesa, que exprimia, e confrontou-se com as outras culturas, que assimilou e que influenciou.

Nessa relação, destaco a diferença entre os paradigmas de espaço e de tempo, matriciais no plano da elaboração cultural, gerados na diferente relação com a natureza, radicados na mundividência e na mundivivência, configuradores de correspondentes imagísticas e simbólicas, sensibilidades e imaginários: da perspectiva eurocêntrica de um real ordenado por uma transcendência espiritualizada e institucionalizada (da Igreja, Estado, Arte, etc., e suas hierarquias) definidor de fronteiras de diversa natureza às perspectivas africana e ameríndia de uma imanência telúrica ilimitada (cujos aqui e agora se absolutizam no quotidiano da tribo e se interpretam e exprimem nas vozes dos feiticeiros, dos velhos e dos reis/rainhas, dos régulos, e na memória cristalizada nas sagas repousando em matrilinearidades, de feminino sacralizado pela terra-mater), à perspectiva oriental, conjugando imanência e transcendência na percepção espiritualizada da vida e dos seres, aparentemente suspensos na intemporalidade. Encontro de diferentes paradigmas que se assinala em motivos simbólicos como, p. ex., o do “velho colono” (“Ali sentado só, àquela hora da tardinha, / ele e o tempo.”[25], Rui Knopfli). E, em certos lugares (como Moçambique), a interculturalidade era mais profundamente inerente à vida e à sua inteligibilidade, de modo a tratar em futura crónica…

Trata-se de aventura cartografando uma teia comunicativa em que se gerou uma identidade-mosaico hoje designada por lusofonia (contrapontíisticamente à anglofonia, à francofonia ou à ‘hispanofonia’[26]) cuja Língua-“Rainha-mãe /…/ desafia a morte e o silêncio/  mãe em mim, que interroga o silêncio e o tempo /  razão e instinto face à traição dos ventos, /  língua, mãe-imperial, por excelência, nobre o rosto./ E o porte”[27] (Virgílio de Lemos). Língua elevando-se em “Oração ao Índico”[28] (Virgílio de Lemos) e a outras águas, como à “Mãe África”[29] (José Craveirinha). Língua que também canta mítica(s) ilha(s) original(is), configurada(s) na utopia afectiva e emocional da génese (contrastando com a das utopias intelectualizadas cristalizadas em lendárias Atlântidas e platónicas Repúblicas), ou “ilhas douradas” ou “de Próspero” (Rui Knopfli) ou “inventadas” com “corpo de bruma”[30] (Virgílio de Lemos) de icónica referência:

A fortaleza mergulha no mar

os cansados flancos

e sonha com impossíveis

naves moiras.

Tudo mais são ruas prisioneiras

e casas velhas a mirar o tédio.

As gentes calam na

voz

uma vontade antiga de lágrimas

e um riquexó de sono

desce a Travessa da “Amizade.

Em pleno dia claro

vejo-te adormecer na distância,

Ilha de Moçambique,

e faço-te estes versos

de sal e esquecimento.[31]

Dessas culturas resultaram, naturalmente, as suas manifestações artísticas, interessando-nos, aqui, em especial, as literárias.

A literatura oral, eminentemente simbólica e ritualística, e, em especial, em África e no Brasil, radicalmente telúrica, das diferentes comunidades (tribos, etnias, famílias, reinos, etc.) e a literatura portuguesa, já grafada, encontraram-se e desenvolveram diálogo mais ou menos íntimo, mais ou menos deslumbrado, mais ou menos marcado pela tentação de impor e/ou de consagrar diferenças e semelhanças, às vezes, até, de se oporem. Oscilando ou hesitando nos passos dessa dança de diferentes naturezas onde o “tambor” ritmou a “flauta” com pulsão corporal e onde se beija a terra-mãe-amante (“Meus lábios procuram-te avidamente/ e no delírio do meu amor por ti/ beijo-te inteira África”[32] (1963), Duarte Galvão[33]): musicalidade, sentimento, sistema linguístico, referências, etc.; axialidade social das literaturas locais vs. desinscrição, nesses mesmos locais, da portuguesa; a vinculação à terra-mãe de umas, humanamente cartografada, e à terra-pátria da outra, com cartografia política, etc..

Quando as oralidades se disciplinaram na grafia e esta vibrou com o sopro daquelas, quando os diferentes imaginários (o de matriz europeia e os dos locais onde a diáspora conduziu o viajante português, múltiplos e heterogéneos) se mesclaram e reconfiguraram simbólicas, quando os ‘brasões’ assumiram diferentes ‘timbres’, novas identidades literárias nasceram, assumindo um quadro de referências onde a esteticidade europeia se mesclou com a axialidade social da vocalização africana, americana, oriental, cada uma delas polifónica…

Essas diferentes literaturas, corpus textual resultante desses casamentos entre os povos que hoje se consideram lusófonos, estão marcadas pelas suas histórias: da experiência dos primeiros encontros aos afectos e desafectos em Casa-Grande e Senzala[34] (1933, Gilberto Freyre), dos casamentos e dos divórcios políticos que as ligações humanas e o tempo verteram em ligações indissolúveis, reconfiguradas em comunidades alargadas de uma mesma língua (CPLP) onde Cada Homem é uma Raça[35] (1990, Mia Couto), dissolvendo fronteiras étnicas na instância individual e na fraternidade comunicativa, no amor à terra-mãe (Timor-Amor[36], 1974, de Rui Cinatti), à “pátria [que] é terra sedenta/ E praia branca; /…/ o grande rio secular/ Que bebe nuvem, come terra/ E urina mar”[37] (Vinicius de Moraes)…

São literaturas de “palavra mágica”, “senha da vida”, “senha do mundo”[38] (Carlos Drummond de Andrade), em que muitos se sentiram/sentem clivados entre duas ou mais identidades, tematizando esse dilaceramento da divisão matricial no sentimento de que Nós [os que o vivem] Não Somos Deste Mundo[39] (1941, Ruy Cinatti), por a nenhum aqui e agora pertencerem inteiramente, ou que tentam resolvê-lo através da assumpção de que “pátria é só a língua em que [se] di[zem]”[40] (Rui Knopfli), ou, ainda, buscando recuar a um tempo original e mítico, d’A Arca: Ode Didáctica na Primeira Pessoa – Tradução do sânskrito ptolomaico e versão contida[41], (1971, João Pedro Grabato Dias), ou, enfim, antologiando-as, irmanadas, em No Reino de Caliban[42] em Hora di Bai[43] (1975 e 1962, Manuel Ferreira).

Em qualquer delas, o ADN da legitimação identitária, bebendo na experiência autonómica e aspirando à construção nacional, vincou a escrita de cidadania. Literaturas que evocam a tradição e se interrogam sobre “Em que língua escrever / Na kal lingu ke n na skirbi nel”[44] (Odete Semedo) a vida, os padrões da história do indivíduo e da comunidade, hesitando entre a língua saboreada com o leite materno e a “língua lusa”[45] (Odete Semedo), de infantil e escolar emoção, ou entre esta e a filha de ambas (crioulo), ponderando a dimensão patrimonial, de legado mnésico, e o desejo de mais comunicar.

São literaturas que desejam trazer “para o palco da vida/ pedaços da[s] [suas] gente[s], / a fluência quente /…/ dos trópicos”[46] (Alda Espírito Santo). Literaturas exprimindo o encontro e o casamento linguístico e de sensibilidades, as sagas (Yaka[47], 1984, de Pepetela), as utopias sonhadas e denunciadas (A Geração de Utopia[48], 1992, de Pepetela), as “estórias contadas[49] (1994, Germano de Almeida). O exotismo discursivo e o neologismo radical ou fusional (Macandumba[50], 1978, de Luandino Vieira, Pensatempos[51], 2005, ou Estórias Abensonhadas[52], 1994, de Mia Couto), a reescrita, a paródia (Quybyrycas[53], 1972, assinadas por Frey Ioannes Grabatus, na verdade, António Quadros, glosando Os Lusíadas[54], 1572, o Jaime Bunda[55], 2001-03, de Pepetela, reinventando o icónico James Bond, etc.) e a recriação, por um lado. O ritmo da oralidade “falinventada” das “vozes anoitecidas[56] (1986, Mia Couto), por outro. O simbolismo emblemático da sua heráldica reconfigurada, sinalizando a trajectória comunitária da “terra sonâmbula[57] (1992, Mia Couto), preservando e codificando e (des)memória individual e colectiva, a miscigenação cultural em corações de terras de outros tons e de outros deuses: (Enterrem Meu Coração No Ramelau[58], (1982), :da União dos Escritores Angolanos, Mayombe[59] (1980), de Pepetela, Luuanda[60] (1963), de Luandino Vieira, O Meu Poeta[61] (1989), de Germano de Almeida), Chiquinho[62] (1947), de Baltasar Lopes), Karingana ua karingana[63] (1974), de José Craveirinha).

Delas, poliedro complexo, outras crónicas rezarão, pois…

…ali se vê o brilho vivo

que navega no interior da sombra…

 

 

 

Annabela Rita

5 de Julho de 2010


[1] Literatura, matéria de perspectivação disciplinar diversificada e complementar. A História, a Crítica e a Teoria da Literatura ponderam-na diacrónica, sincrónica e acronicamente, oferecendo-no-la em função de quadros de referências complementares e de conceitos operatórios que a última elabora no seu intercâmbio com as outras, que os vão testando e ‘afinando’. Outras disciplinas (a Hermenêutica, a História da Língua, etc.) colaboram no esclarecimento dos textos que mais se iluminam ainda no diálogo que mantêm uns com os outros, através do tempo, do espaço, das nacionalidades (matéria dos estudos comparatistas e, expandindo o conceito de texto à Arte, em geral, assunto dos estudos intermediais, por excelência).

[2] No texto literário, concentra-se de modo estruturalmente depurado e elaborado essa polifonia difusa e complexa: a cultura. Cultura, cuja heterogeneidade tende a ser inteligida por perspectivações sistematizantes que evidenciam e fazem reconhecer linhas de força identitárias assinalando continuidades na descontinuidade. Cultura, onde se mesclam identidade e alteridade, forças centrífugas e centrípetas relevando da vida das comunidades, da sua experiência, da sua memória, do seu esquecimento, do seu sentimento de pertença e de ser, da sua capacidade e vontade de o preservar e de o reforçar.

[3] Além das convenções linguísticas (combinadas com as sociais, morais, etc.), é uma comunicação mediada por convenções próprias que lhe conferem dimensão artística e historicidade: os géneros, a memória dos seus clássicos e dos seus marginais, do cânone e do contra-canto, da consciência estética de um devir do signo literário, de matrizes e de prospectiva, de ensaística e de concretizações, de processos. E é uma comunicação mediada também pela legitimação intrínseca e extrínseca: a da reflexão da palavra sobre si, narcísica e anelante de outra; a da inscrição da palavra no real de que se contamina; a das instituições que a (re)conhecem e que a fazem (re)conhecer (associações de escritores, academias, programas escolares, prémios, editoras, etc.).

[4] É linguisticamente ensaística. Experimenta até aos limites do irreconhecimento a ductilidade da linguagem, a sua plasticidade, a sua potencialidade fonética, semântica e sugestiva, a sua capacidade concentracionária e expansiva, as suas possibilidades combinatórias. Explora a opacidade e a transparência do signo, desafia o nosso imaginário, revoluciona e/ou sistematiza os sistemas conceptuais, vectoria e/ou exprime o pensamento.

[5] É comunicação in absentia, com tudo o que tal implica. A escrita e a leitura desenvolvem-se em face de um lugar vazio imaginariamente configurado de modo a influir na comunicação. Quem escreve concebe um destinatário em género, número e ‘grau’ (nível de competência) ou pode conciliá-los num registo que os conjuga (irónico, simbólico, paródico, etc.). Quem lê, imagina-se a ser imaginado e… Cada palavra vive da polissemia acrescentada pela sua autonomia (descontextualização) que o tempo e as circunstâncias vão expandindo na leitura. Com isso, torna-se protagonista de Histórias da Literatura e de Histórias da Leitura.

[6] É eminentemente metamórfica: as suas fronteiras estão em permanente mutação, quer no plano teórico (da sua conceptualização), quer no plano criativo. Reconfigura-se e é reconfigurada diversamente, em função de factores intrínsecos e extrínsecos legitimadores. É território movediço, onde os valores e as sensibilidades se confrontam e onde o que hoje é considerado literário pode ser relegado para as suas margens amanhã.

Vive a dupla vocação de querer ser diferente (original, singular, surpreendente) e de desejar, (in)confessadamente, assemelhar-se ao(s) modelo(s) que elege, à tradição e linhagem com que se identifica. Nessa tensão, revela-se subtil, mas profundamente paródica e tabular: a memória estética e cultural informa-a. Da alusão à assumida citação, do pastiche à reescrita, todas as variantes lhe modulam o verbo, suspenso de pregnância, vibrante de suspeição.

E a palavra impõe-se iconicamente: é imagem em trânsito, dominada pela arte da fuga, em que se transforma, medusante e encantatória na sua (re)configuração e na das imagens que promove na nossa imaginação. Nesse trânsito, inscreve-se e grafa-se enlutada pela perda experimentada, eufórica pela novidade que incorpora, tranquilizada pela memória preservada: constitui-se como detalhe ou sinal de programas estéticos que codifica e cristaliza, que atravessa e em que se metamorfoseia.

Releva de protocolos de escrita e promove pactos de leitura: sugere, impede ou dificulta itinerários analíticos, insinua a sua inesgotabilidade, seduz e fascina pelo modo como se impõe como alfa e ómega de si própria.

[7] É plurifuncional. Assume diversas funções, desde a de representar ou reflectir sobre o real até à de promover a alienação dele, questionando a existência ou questionando-se a si mesma, denunciando ou assinalando, observando ou observando-se, etc.. E a escrita desenvolve-se oscilando entre elas, jogando com elas, deixando sinais mais ou menos dominantes ou hesitando em comprometer-se decididamente com uma delas, estética, social, ética, filosófica ou outra. Ao longo dos tempos e das histórias literárias, poderemos detectar predominâncias, mas é a pluralidade que a caracteriza.

[8] Gomes Leal, A fome de Camões, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p.47.

[9] Manuel Alegre, Com Que Pena. Vinte poemas para Camões, Lisboa, Dom Quixote, 1992, p.11.

[10] Até as literaturas de tradição oral pertencem ao domínio do património imaterial da humanidade que a Unesco reconhece.

[11] O Dicionário Temático da Lusofonia (2005) consagrou definitivamente esse bloco de diversidade cultural. Fernando Cristóvão (Dir. e Coord.) et al., Dicionário Temático da Lusofonia, Lisboa, Luanda, Praia e Maputo, Texto Editores, 2007.

[12] A Academia de Ciências de Lisboa [http://www.acad-ciencias.pt/], com a sua Secção de Letras [http://www.acad-ciencias.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=62&Itemid=74], a Academia Brasileira de Letras [http://www.academia.org.br/].

[13] P. ex., a ACLUS (Associação de Cultura Lusófona) [http://www.fl.ul.pt/aclus/].

[14] Instituto Internacional da Língua Portuguesa: [http://www.iilp-cplp.cv/], Sociedade da Língua Portuguesa [http://www.slp.pt/], etc.

[15] O prémio Camões.

[16] Museu da Língua Portuguesa: [http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/].

[17] Cf. Fernando Cristóvão. Cruzeiro do Sul a Norte. Estudos Luso-Brasileiros, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda; “A literatura como sistema nacional”, pp. 13-34.

[18] António Vieira, História do futuro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992.

[19] Cf. 3EL (Três Espaços Linguísticos) [http://www.3el.org/] e o espaço das Línguas Ibéricas [http://network.idrc.ca/en/ev-77353-201-1-DO_TOPIC.html].

[20] Garcia de Resende, Cancioneiro geral de Garcia de Resende, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Vol. II, 1990, p.324.

[21] Martín Codax, Cantigas, Vigo, Editorial Galáxia, S.A., 1996, p.53.

[22] D. Dinis, Cancioneiro, Lisboa, Editorial Teorema, 1997, p.61.

[23] Manuel Alegre, Praça da Canção, Lisboa, Dom Quixote, 2005, p.97.

[24] Pêro Vaz de Caminha, A carta de Pêro Vaz de Caminha, Lisboa, Comité Executivo das Comemorações do V Centenário do Nascimento de Pêro Vaz de Caminha, 1968.

[25] Rui Knopfli, Obra poética, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2003, p.151.

[26] Note-se que o reconhecimento mútuo dos diferentes blocos linguísticos faz-se em diferentes instâncias, incluindo no 3EL (Três Espaços Linguísticos) [http://www.3el.org/]. Ao lado da Commonwealth of Nations, a CPLP também reúne o bloco dos países de língua portuguesa.

[27] Virgílio de Lemos, Para fazer um mar, Lisboa, Instituto Camões, 2001, p.15.

[28] Idem, Ibidem, p.40.

[29] José Craveirinha, Xigubo, Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980, pp.15-17

[30] V. A Invenção das Ilhas (2009), antologia de (Virgílio de Lemos), organizada por António Cabrita, ou a Ilha de Moçambique. A Língua é o Exílio do que Sonhas (1999).

[31] Rui Knopfli, Obra poética, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2003, p.76.

[32] Reproduzido de http://ma-schamba.com/literatura-mocambique/virgilio-de-lemos/a-invencao-das-ilhas-de-virgilio-de-lemos/.

[33] Pseudónimo de Virgílio de Lemos.

[34] Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, Rio de Janeiro, José Olympio, 1964.

[35] Mia Couto, Cada homem é uma raça, Lisboa, Caminho, 2002.

[36] Ruy Cinatti, Timor-amor, Lisboa, Edição do Autor, 1974.

[37] Vinicius de Moraes, Antologia poética, Rio de Janeiro, Editôra do Autor, 1960, p.204.

[38] Carlos Drummond de Andrade, Discurso de primavera e algumas sombras, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1979, p.99.

[39] Ruy Cinatti, Nós não somos deste mundo, Lisboa, Ática, 1960.

[40] Rui Knopfli, Obra poética, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2003, p.378.

[41] João Pedro Grabato Dias, A Arca: Ode Didáctica na Primeira Pessoa – Tradução do sânskrito ptolomaico e versão contida, Lourenço Marques, Edição do Autor, 1971.

[42] Manuel Ferreira, No Reino de Caliban, Lisboa, Seara Nova, 1975.

[43] Manuel Ferreira, Hora di Bai, Lisboa, Plátano, 1980.

[44] Odete Semedo, Entre o Ser e o Amar, Bissau, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, 1996, p.10-11, citado em Odete Costa Semedo, Histórias e Passadas que ouvi contar, Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2003, p.17.

[45] Idem, Ibidem, p.17.

[46] Alda Espírito Santo, É nosso o solo sagrado da terra. Poesia de protesto e luta, Lisboa, Ulmeiro, 1978, p.63.

[47] Pepetela, Yaka, Lisboa, Dom Quixote, 1992.

[48] Pepetela, A Geração da utopia, Lisboa, Dom Quixote, 1992.

[49] Germano de Almeida, Estórias contadas, Lisboa, Caminho, 1998.

[50] José Luandino Vieira, Macandumba, Lisboa, Edições 70, 1997.

[51] Mia Couto, Pensatempos, Lisboa, Caminho, 2005.

[52] Mia Couto, Estórias abensonhadas, Lisboa, Caminho, 2003.

[53] Frey Ioannes Grabatus, Quybyricas, Lourenço Marques, J. P. Grabato D., 1972.

[54] Luís de Camões, Os Lusíadas, Lisboa, Instituto Camões, 1992.

[55] Pepetela, Jaime Bunda, Lisboa, Caminho, 2001.

[56] Mia Couto, Vozes anoitecidas, Lisboa, Caminho, 1999.

[57] Mia Couto, Terra sonâmbula, Lisboa, Caminho, 1992.

[58] União dos Escritores Angolanos, Enterrem meu coração no Ramelau – Poesia de Timor-Leste, Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1982.

[59] Pepetela, Mayombe, Lisboa, Visão, 2003.

[60] Pepetela, Luuanda, Lisboa, Edições 70, 1989.

[61] Germano de Almeida, O meu poeta, Lisboa, Caminho, 1992.

[62] Baltasar Lopes, Chiquinho, Linda-a-Velha, África, 1984.

[63] José Craveirinha, Karingana ua karingana, Lisboa, Edições 70, 1982.

 

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