Foi neste ambiente, verdadeiramente insular, que vivi até aos dezoito anos: o mar parece o Atlântico e o canal faz-me lembrar o do Faial; a baía, por sua vez, está rodeada de paisagens que se assemelham às das ilhas do Pico (Açores) e Santa Catarina (Brasil).Passei os meus primeiros anos correndo, nadando, jogando volei e estudando inglês. De casa à escola, levava quarenta minutos de bicicleta. Por esta altura, fui descobrindo a minha inclinação para línguas, ajudado pela minha personalidade persistente. Foi a ler jornais em inglês que me dei conta das perversidades do Mundo, como as guerras nas ilhas Folkland e no Golfo e o despoletar do terrorismo.

Ouvi falar de Portugal ainda na escola primária: um português foi o primeiro europeu a chegar ao Japão, em 1543. Talvez tenha sido esta informação que, poucos anos mais tarde, me fez matricular no Departamento de Estudos Luso-brasileiros da Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto. Foi lá que li Eça de Queirós e Júlio Diniz, os quais me fizeram aderir, esteticamente, ao realismo literário português.

O saudoso Leitor de Português, Jorge Dias, numa das aulas do Curso de Mestrado, mostrou-me a revista do jornal «Expresso» para que lesse uma entrevista feita por Joaquim Vieira ao escritor açoriano João de Melo. A entrevista referia, particularmente, a publicação de Os Anos da Guerra – antologia organizada por aquele escritor. Como complemento informativo, o doutor Jorge Dias disse-me que ele era professor na Faculdade de Letras e que, nos Açores, havia fontes térmicas como no Japão. Disse-me também que, caso o desejasse, era fácil contactar com João de Melo. Além disso, relevou-me a sua inteligência e o seu estilo literário, acrescentando que se tratava de um escritor de esquerda.

Embarquei para Lisboa como bolseiro da Gulbenkian. Na Faculdade de Letras, foi meu professor de Literatura Portuguesa outro açoriano – Eduíno de Jesus –, que logo me sugeriu frequentasse a Casa dos Açores em Lisboa, pois, lá, poderia encontrar-me com os escritores açorianos. O que aconteceu. Por essa altura, o romance Gente Feliz com Lágrimas recebera o prémio APE. E foi, então, que conheci o João Melo, bem como a Tita – sua esposa – e os seus filhos, Joana e Miguel. Aprendi muito com ele.

Entretanto, fui à ilha de S. Miguel durante uma semana. Andei por Ponta Delgada – a principal cidade da ilha. Lá, a Editora Signo ofereceu-me o livro Açores, Açorianos, Açorianidade, de Onésimo Teotónio Almeida. Do mesmo autor, obtive Da Literatura Açoriana. Nesta visita, adquiri ainda a Antologia Panorâmica do Conto Açoriano, organizada por João de Melo.

Regressei ao Japão para completar o Mestrado, apresentando uma tese sobre a obra de João de Melo, os Açores e a literatura da guerra colonial.

Como no Japão não há doutoramento em línguas estrangeiras, os meus professores aconselharam-me a voltar a estudar em Portugal. Foi o que fiz. Só que, desta vez, pude ser professor de língua japonesa em Lisboa.

Tive, então, a oportunidade de visitar a ilha Terceira e a sua histórica cidade – Angra do Heroísmo. João B. Martins, do Gabinete de Apoio à Emigração (actual Direcção Regional das Comunidades do Governo Autónomo dos Açores), ofereceu-me A Questão da Literatura Açoriana – compilação de textos organizada por Onésimo T. Almeida. Falei com Álamo Oliveira, escritor que conheci na Casa dos Açores em Lisboa, por ocasião da apresentação do seu livro Pátio d’Alfândega Meia-noite.

Por sugestão de João de Melo, encontrei-me com outros escritores açorianos: Dias de Melo, Urbano Bettencourt, José de Almeida Pavão, Vamberto Freitas – este num jantar em casa do Urbano. Nessa ocasião, ofereceram-me A Profile of the Azorean, de Onésimo Almeida – professor na Brown University, em Providence (USA) e escritor que desejava conhecer urgentemente. (Conheci-o em Lisboa – cidade que ele visita frequentemente em missões intelectuais). Eu era leitor assíduo dos seus textos publicados no «Diário de Notícias» e no «Jornal de Letras» – textos que, depois, compilou em O Rio Atlântico.

Visitei outras ilhas dos Açores (Faial, Pico e S. Jorge) viajando de barco. Apanhei mar bravo. Enjoei. Receei naufragar. Foi uma experiência estranha, vivida sob um medo estranho.

Comecei a publicar alguns artigos, nomeadamente na revista «Vértice», os quais reuni em A Instabilidade Estruturada, livro catalogado na Biblioteca Nacional de Lisboa. E quando me aventurei a traduzir, para japonês, escritos de autores açorianos, já a minha biblioteca pessoal fora enriquecida com muitos livros de autores e temática açorianos. Ao lado destes, estão também livros oferecidos por escritores brasileiros como Assis Brasil, de Porto Alegre – Rio Grande do Sul.

Até à presente data, traduzi e foram publicados, no Japão, Pedras Negras, de Dias de Melo e Já não gosto de chocolates, de Álamo Oliveira. (Está traduzido, sem publicação, Mar pela Proa, de Dias de Melo). Fiz uma lista de livros, depois de ler Escritos Açorianos, de Assis Brasil. Mau Tempo no Canal e Gente Feliz com Lágrimas são demasiado grandes para poder traduzi-los. E nesta prática de tradução, fui conhecendo mais escritores, como Daniel de Sá (Açores) e Walter Piazza (Santa Catarina).

Importa referir que, na internet, há uma opinião sobre a versão japonesa de Pedras Negras: «Descrição muito dinâmica sobre a pesca à baleia nos Açores, onde a vida é difícil». E há outra sobre Já não gosto de chocolates: «Uma obra extremamente impressionante e comovente especialmente nos derradeiros capítulos».

Foi com este material e com a publicação do meu livro sobre a emigração açoriana para Santa Catarina no século XVIII, que consegui fosse instituída, na Universidade de Musashi, no Japão, uma Cadeira de Estudos Açorianos no âmbito dos Descobrimentos Portugueses. Os meus alunos não sabiam nada sobre os Açores nem sobre a sua ousada e problemática emigração.

Mau Tempo no Canal, Gente Feliz com Lágrimas e Já não gosto de chocolates vão ficar na história da Literatura de Língua Portuguesa. São três livros que reflectem a vida das famílias que partem das ilhas para outros lugares. O dinamismo e impressionismo da descrição são bastante aliciantes em Gente Feliz com Lágrimas. Mas, sabendo da polémica que poderei gerar com a franqueza da opinião que expressa o meu gosto pessoal, Já não gosto de chocolates supera tudo. A sensibilidade poética do autor e a sua experiência de ver morrer na guerra colonial da Guiné-Bissau; a tranquilidade e a solidão misturadas com a beleza e a tristeza extrema da perda de vidas em terras estrangeiras após a emigração, é incomparável com livros de outros autores de língua portuguesa. Já não gosto de chocolates foi o livro de autor açoriano que mais gostei de ler.

No Japão, estão traduzidos e publicados vários autores de língua portuguesa, como Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Saramago, Ferreira de Castro, Jorge Amado, José Lins do Rego, José de Alenquer, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Paulo Coelho, Pepetela. No entanto, para mim, são nomes que nem sempre me sensibilizam emocionalmente.

Álamo Oliveira, com Já não gosto de chocolates, mostra possuir grande qualidade literária, enquanto que Dias de Melo, com Pedras Negras, se diferencia pela narrativa de um tema singular, como é o da caça à baleia. Foi isso que me levou a escolher estes dois livros açorianos para traduzir e publicar. Desde a minha juventude que me dedico ao estudo e divulgação, no Japão, da cultura açoriana.
Não sei bem como consegui tanto sobre os Açores. Possivelmente, foi a minha insistência académica, orientada quase exclusivamente para a ilha e para o mar, que correspondeu às ajudas açorianas espalhadas pelo Mundo. A insularidade japonesa que, na minha infância, entrou no meu coração, facilitou também a minha aproximação afectiva aos Açores. Mas, há que salientar quanto foi admirável a orientação recebida da parte do saudoso Leitor de Português Jorge Dias, dos escritores Eduíno de Jesus, João de Melo, Urbano Bettencourt, Onésimo Teotónio Almeida, Assis Brasil, Lélia Nunes e tantos outros.
Kiwamu Hamaoka

(*) O artigo foi originalmente publicado na Revista AndarILHAgem (2009), uma publicação semestral da Direção Regional das Comunidades, Governo dos Açores.

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Sobre o Autor: Kiwamu Hamaoka, um amigo dos Açores, pesquisador dedicado e um escritor de grande mérito.Um professor a ensinar Literatura Açoriana, a história e português em Tóquio. Gosta de seus amigos açorianos Onésimo Teotónio Almeida, Urbano Bettencourt, Álamo Oliveira e, evidentemente, da comunidade açoriana espalhada no mundo.Traduziu para o Japonês:Pedras Negras de Dias de Melo (2005) e Já Não Gosto de Chocolates” de Álamo de Oliveira(2007).É autor de ” O Achamento do Brasil e outras Épocas”(2006)que traz uma parte dedicada história de Santa Catarina e a presença açoriana. 
Nota: Quando há duas semanas seu País foi terrivelmente atingido por terremoto e tsunami que desvastaram parte do nordeste do Japão e que os níveis de radiação em algumas áreas colocam em risco a vida de seu povo – este valioso capital humano dá ao mundo exemplo de dignidade diante da tragédia.Cada um se empenha pelo bem de todos numa grande corrente de cooperação mútua -tasukeai. Assim, dos escombros e da dor começam a reconstruir e falar em esperança no amanhã. O abraço solidário ao Hamaoka e sua gente.

 

Por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

 

FONTE: RTP

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