Quarentena. Uma história de Amor, terceiro romance de José Gardeazabal (JG), prossegue as particularidades da escrita do autor: linguagem culta, mas não apresentada eruditamente; fragmentos textuais (41), não propriamente capítulos, desenhando um romance-palimpsesto; capacidade metafórica brilhante (é, porventura o escritor português que mais longe leva esta capacidade imaginativa, interseccionando  planos ou campos semânticos radicalmente diferentes); minimização instrumental do espaço diegético e sobrevalorização do tempo. 

É, de facto, a prática da categoria de tempo que singulariza a escrita de JG. De certo modo, esta prática assemelha-se à de Saramago quando reivindica para a construção dos seus romances a ideia de Benedetto Croce “Toda a história é a história contemporânea”. Também para JG o é, o que lhe permite numa frase relacionar tempos diferentes, como se cada fragmento textual fosse uma colagem de imagens soltas produzidas em tempos e/ou culturas radicalmente diferentes. Neste sentido temporalmente conspirativo é como se tudo estivesse em tudo segundo proporções diferentes. Por isso, cada romance de JG é como uma súmula crítica do tempo todo, sobretudo do passado europeu e norte-americano. 

Um casal prestes a separar-se (Mariana, professora de Matemática, e o narrador, que estuda “argumentos”, “especialista em cenas de sexo entre atores”, p. 171) é apanhado pela pandemia e forçado a ficar em casa por ter contactado com alguém infetado pelo coronavírus. Entre conflitos vários, mas sem violência doméstica, apenas picardias orais, o narrador rememora os tempos de aparente felicidade do casal, que o “efeito preguiçoso do tempo” (p. 16) foi desmoronando, cruzando as suas memórias com o que acontece no mundo pandémico, de que toma conhecimento sobretudo através da televisão. É neste mini-tempo de 41 dias de quarentena que o grande-tempo da História entronca, evidenciando a chegada do homem à Lua, o primeiro voo de um homem no espaço, o retrato da segregação de um homem em Ellis Island, o retiro de Nietzsche em Sillas Maria, os primeiros fotogramas de um espirro, a pintura de Goya e Hopper, imagens de outras pandemias, o cantor norte-americano John Prine, a catedral de Chartres, o valor da matemática… – tudo isto permitido pelo conceito de tempo como unidade perspetivada  a partir dos momentos da pandemia.

Os romances de JG são alimentados tanto pela vasta cultura do autor como por uma utilização integrado do tempo como sendo um conjunto unitivo em que se pode convocar, sem atropelo, várias dimensões do passado como se fizessem parte integrante do presente. Naquele primeiro sentido, raro é o fragmento textual em que não são citados autores (escritores, cineastas, músicos, pintores…) ou figurações da cultura (catedrais, épocas históricas, costumes), acontecimentos históricos, filmes, peças de teatro…, provando assim que, mais do que a realidade social (mas também esta), o elemento cultural é o verdadeiro alimento dos textos de JG, o que exige um leitor com grau de cultura semelhante.

Ao longo do romance, debate-se todos os efeitos da pandemia: a distância social, a máscara, a lavagem das mãos, o “novo normal”, o medo, a claustrofobia de se ficar retido em casa, ã compra volumosa de papel-higiénico, a necessidade de construção de muros (Mariana faz em casa um muro de papel-higiénico), a questão da saúde mental, a informação martelada do número de mortos e infetados, as multidões e o seu desaparecimento das ruas, o novo valor atribuídos às varandas e às janelas, a relação dos velhos com as suas famílias, o valor comunicativo da televisão, por vezes com perversão, seguindo ora as palavras dos “famosos”, ora dos políticos (p. 113).

Palavra mais importante: do romance – o medo, que paralisa, que assusta, que é desconhecido, que desorienta, que é claustrofóbico e segregador, que atribui valor inigualável ao antigo “normal”, que obriga a chorar devida à solidão das duas personagens, em permanente conflito. Frase-síntese: “Emergência, alerta, calamidade e contingência. A palavra muda para o medo não mudar (…) o medo já nos entrou pelos olhos dentro (…) O medo está em toda a parte, tornámo-nos uma democracia de assustados” (p. 94), revelando que, em situação pandémica, se dá maior valor à segurança do que ao exercício da liberdade: “Os substantivos da pandemia: medo, medo, medo” (p. 153). Importante o texto de natureza filosófica das pp. 148 – 149 sobre a “verdade da natureza”. Para entrar no espírito do romance e do modo como o narrador encara a pandemia, aconselhamos o leitor a começar a leitura por estas duas pp.

Cansados pelo confinamento e forçadas as personagens a conviverem entre si, como terminará romance? Ainda em conflito aberto? Lembre-se o leitor do subtítulo, “Uma história de amor” e, de facto o amor tem muitas facetas, entre as quais a da reconciliação. Afinal, isolando-os e destacando-os, a máscara permitiu que o narrador percebesse a beleza dos olhos de Mariana. 

Quarentena. Uma história de Amor sintetiza tudo o que o leitor tem vindo a viver desde o primeiro confinamento, e – estamos seguros – pela sua qualidade literária e originalidade estrutural, e também, pelo testemunho que as páginas sumariam, cristalizará este tempo estranho transfigurado na memória estética da Literatura. Doravante, escrever-se-á muito sobre este livro. 

Quarentena, Uma História de Amor, Companhia das Letras, 205 pp. 16,60 euros.
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Miguel Real

Miguel Real, investigador do CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Europeias e Lusófonas da Universidade de Lisboa, publicou os romances Memórias de Branca Dias (2003), A Voz da Terra (2005), O Último Negreiro (2006), O Último Minuto na Vida de S. (2007), O Sal da Terra (2008), A Ministra (2009), As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia (2010), A Guerra dos Mascates (2011), O Feitiço da Índia (2012), A Cidade do Fim (2014), O Último Europeu (2015), O Deputado da Nação (em co-autoria com Manuel da Silva Ramos – 2016), Cadáveres às Costas (2018), e (em co-autoria com Filomena Oliveira) as peças de teatro Uma Família Portuguesa e Europa, Europa! (2016), e os ensaios Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em “Memorial do Convento” de José Saramago (1998), O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (2005), O Último Eça (2006), Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa (2007), Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (2008) e Padre António Vieira e a Cultura Portuguesa (2008), A Morte de Portugal (2007), Matias Aires. As Máscaras da Vaidade (2008), José Enes. Filosofia, Açores e Poesia (2009), Introdução à Cultura Portuguesa (2011), O Pensamento Português Contemporâneo. 1890 – 2010 (2011), Nova Teoria do Mal (2012), Romance Português Contemporâneo. 1950 – 2010 (2012), Nova Teoria da Felicidade (2013), Comentário a "Mensagem" de F. Pessoa (2013), Nova Teoria do Sebastianismo (2014), O Futuro da Religião (2014), Manifesto em Defesa de uma Morte Livre (2015), Portugal – Um País Parado no Meio do Caminho. 2000 – 2015 (2015), O Teatro na Cultura Portuguesa do Século XX (2016), Nova Teoria do Pecado (2017), Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (2017) e Fátima e a Cultura Portuguesa (2018). Recebeu o Prémio Revelação Ficção da As. Port. de Escritores; Prémio revelação de Ensaio da As. Port. de Escritores; Prémio Fernando Namora de Literatura; Prémio Ficção Ler/Círculo de Leitores; Prémio Ficção da Sociedade Portuguesa de Autores, Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Portuguesa de Críticos Literários e, em conjunto com Filomena Oliveira, o Grande Prémio de Teatro do Teatro Aberto e SPA.

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