Os 14 dirigentes de jornais de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste e Brasil participantes no debate sobre “O Futuro da Língua Portuguesa”, que decorreu no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, foram unânimes na resposta ao repto do moderador, Nuno Pacheco, diretor-adjunto do Público: a língua portuguesa não pode ser um problema, tem de ser uma oportunidade.

Ao longo de cerca de duas horas de debate, realizado no âmbito das comemorações do primeiro Dia Internacional da Língua Portuguesa, essa ideia ficou clara quando todos os intervenientes traçaram os retratos dos respetivos países em matéria de implantação do português e suas dificuldades.

Delfina Mugabe, chefe de redação do moçambicano Jornal de Notícias, salientou que “a língua portuguesa é a sétima mais falada das 6.000 que existem no mundo”, o que não é um problema, mas um trunfo, e que, no caso de Moçambique, funciona como um fator aglutinador, devido à quantidade de línguas maternas existentes no país.

“O português é, para nós, um veículo de comunicação adotado pelo Governo em 1975 para unir os moçambicanos”, explicou, acrescentando, contudo, que atualmente “o ensino da língua portuguesa não é uma prioridade” no país.

Por isso, concluiu, “o problema não é a língua, o problema é, de facto, a falta de investimento no ensino da língua”.

Francisco Carmona, do jornal moçambicano Savana, concordou com o diagnóstico da colega, sustentando que “o português vive um paradoxo: é a língua oficial, mas é falada por uma minoria; ainda é uma língua estranha que não entra na casa de muitos moçambicanos”.

Na sua opinião, a solução para este problema está no bilinguismo, ou seja, “é preciso potenciar as línguas locais para, a partir delas, se aprender o português”.

“Defendo um ensino bilingue, porque o português é a língua da política, da economia, que dá acesso ao emprego, é a língua de colocação mais ampla, é a língua que abre portas – o português é o caminho, mas acompanhado das línguas maternas”, argumentou.

Jaime Langa, diretor do Jornal de Notícias moçambicano, foi mais longe, advogando que “Portugal, como dono da língua, entre aspas, tem de fazer o seu trabalho de casa” de investir no ensino do português, não só no espaço lusófono, como também nos países de língua estrangeira.

Salas Neto, do Semanário Angolense, discordou, afirmando: “Não percebo porque é que esse ónus deve recair sobre Portugal”.

Quanto ao Acordo Ortográfico, ainda por ratificar em alguns dos países lusófonos, continua a gerar controvérsia: a maioria defendeu que só faria sentido se realmente uniformizasse a língua; já que não o faz, então, talvez devessem, em vez disso, consagrar-se todas as variantes do português, com as respetivas ortografias, à semelhança do que acontece nas línguas inglesa, francesa e espanhola.

Ascânio Seleme, diretor de O Globo, jornal carioca que pertence à Globo, gigante das telenovelas, concluiu que não seriam elas a propagar a língua portuguesa nos países estrangeiros, já que na maioria deles eram dobradas na língua local (deu como exemplo a primeira novela, “Escrava Isaura”, transmitida na China, com Lucélia Santos falando mandarim), mas que poderiam, contudo, ser um veículo de aprendizagem da variante brasileira do português para o universo de língua portuguesa.

Na sua opinião, a disseminação da língua portuguesa será alcançada pela música.

“A música é o caminho para a língua entrar diretamente em nossas veias, em nossos corações: na União Soviética, os adolescentes não aprendiam inglês na escola, mas conheciam a língua porque ouviam rock; no Japão, atualmente, ouve-se mais Bossa Nova que no Brasil; e um dia escutei um músico australiano tocando e cantando um samba de enredo – sem sotaque!”, sublinhou.

O 15.º elemento do painel, e o único não-jornalista no debate, o brasileiro Ruy Rubio Rocha, responsável da área do acervo e das exposições do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, falou de uma sala do museu, a Sala da Linha do Tempo, “que conta um pouco a história da língua”.

“No final da exposição, não há um texto, há um espelho, porque o futuro da língua somos nós”, frisou.

ANC // JPS – Lusa/Fim


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