Aqui em casa há diferenças que nada têm a ver com género, mas com o facto de cada um ser como cada qual. Assinamos o New York Times, no entanto a Leonor prefere lê-lo em versão impressa, e eu  no ecrã do computador. Até porque chega mais cedo. Na véspera. E sempre que surge um acontecimento de relevo recebe-se imediatamente as notícias.
Todavia ela lê-o mais cuidadosamente do que eu. No fim-de-semana, mergulha e perde-se nele e eu acabo deixando que seja ela a dizer-me: Não percas aquele e aqueloutro artigo!
Ontem, perguntou-me se eu sabia que a Islândia tem o maior índice de publicação de livros per capita no mundo. Até têm um prémio Nobel.
Sim – respondi-lhe. Sabia. Veio depois a pergunta sacramental: – E como é que sabes?
– Olha, tenho lido vários artigos sobre isso, mas a primeira vez foi na Antologia da Poesia Açoriana organizada pelo Florentino Pedro da Silveira e publicada pela Sá da Costa em 1977. E sim, sei do Nobel – aí demorei um pouco a atinar com o nome do autor e do seu grande clássico… Saiu–me Island People, embora não me soasse correto.
A Leonor manifestou interesse em lê-lo e então fui ao andar de baixo à estante de um corredor onde tenho ficção estrangeira. Lá estava. Afinal era Independent People, como a Leonor me tinha dito, informada pelo artigo na New York Times Book Review que desencadeara esta história.
Fora comprado em Reykjavik em Agosto de 2000 (naquela altura, eu assinalava nos livros o local e data de aquisição). Do autor Halldór Laxness, com sinais de que eu o lera até à página 105. Não foi por falta de interesse (mas de tempo disponível) que não completei a leitura, porque lembro-me perfeitamente de ter voltado obsessivamente para as sagas islandesas. Comprei tudo quanto pude e pus-me a devorá-las. Queria saber até que ponto havia dados concretos sobre as viagens dos Vikings até à América por alturas do ano 1000. Mas isso é outro assunto.
Faltava agora mais um documento, o tal do Pedro da Silveira. O livro estava no meu gabinete no Departamento e então, quando hoje por lá passei,  agarrei-o para reler o que dizia o Pedro exatamente.
Procurei no prefácio e  lancei-me em cata da referência à Islândia. Não encontrava nada. Apostava comigo próprio que tinha sido ali. Por isso teimei e prossegui avançando páginas fora até que finalmente, na página 41, a encerrar, deparei com a afirmação do Pedro da Silveira:
“Espero que o leitor, seja ou não seja açoriano, tire do conjunto de composições poéticas que vai ler, considerando-as em bloco e atendendo ao que representam da vitalidade duma literatura marginal, de vida sempre difícil, contrariada, a conclusão que me apetece tirar: que nenhum outro povo europeu tão minúsculo como o Açoriano, excepção feita do Islandês, aliás bem mais antigo e sempre mais livre, deu na poesia tão boa nota de si.” E progredia na sua tese: “Que Antero é de facto um grande poeta açoriano, como também o são Roberto de Mesquita ou Vitorino Nemésio, já se sabia. Agora, para quem só isso ou pouco mais alcançava, penso ficará esclarecido que eles não são ilhas isoladas, únicas, no mar da literatura açoriana.

Na verdade, até ao 25 de abril a produção literária açoriana foi sobretudo poética, embora haja muitos contos. Não havia editores e os escrevinhadores publicavam nos jornais, nem sempre em páginas literárias. Volta e meia, algum com mais posses ou Mecenas, reunia o seu material em livro. O romance, porém, era bem mais complicado.

Tudo isto veio a propósito do artigo “Take a bookish stroll through Iceland’s capital”, do New York Times Book Review de domingo passado. Confirmo que assim é. Reykjavick (e a Islândia é quase só a sua capital ) é um poderio de livros. Mas um dia destes hei-de partilhar aqui fotos de estantes de obras publicadas em Ponta Delgada pela editora Letras Lavadas. Só à sua conta são mais de 2000. Juro e provarei com fotos quando tiver tempo.



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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providemce, Rhode Island (EUA). Nessa mesma universidade é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, e O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão, na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown, Pessoa Plural e e-Journal of Portuguese History bem como a uma série de livros sobre temática lusófona na Sussex Academic Press, no Reino Unido. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.
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