1 March 2021
Foto LUSA - Mulheres muçulmanas em Kashmiri. EPA/FAROOQ KHAN

Índia tem “interesse” em juntar-se à CPLP

“Os indianos têm praticamente aproveitado, e procurado entrar, em qualquer organização multilateral de significância. Tem procurado ser observadores no maior número de instituições, e portanto, parece-me que é daí que vem esse interesse”, disse Constantino Xavier, em declarações à agência Lusa.

“São todos países que, por uma razão ou outra, são acima de tudo importantes para os interesses económicos indianos, dos recursos energéticos ao comércio, mas também em questões de segurança no Oceano Índico”, exemplificou o investigador.

Não obstante as “fortíssimas” relações bilaterais existentes, “as instituições multilaterais oferecem diálogos regulares com grande vantagem para a Índia que pode, em vez de se esforçar para gerir relações individuais com oito países, encontrá-los numa plataforma”, como a CPLP, realçou.

Os dois níveis (bilateral e multilateral) “não são incompatíveis”.

Na perspetiva de Constantino Xavier, existirá “uma preferência óbvia com o Brasil, mas também interesse em países como Timor-Leste, cuja relação é ainda muito incipiente – não existindo sequer embaixadas nas respetivas capitais -, embora haja, “há muitos anos, um enorme interesse dos timorenses em envolver os indianos” no seu país.

Nesse caso concreto, “parece-me proveitoso criar laços regulares com outros diplomatas, como portugueses e brasileiros, que conhecem bastante bem Timor-Leste. Acho que é essa a lógica indiana de se procurar associar a este fórum”, anotou.

“Falou-se muito que Portugal ia servir de plataforma para a Índia entrar no espaço lusófono, mas demorámos algum tempo a perceber que isso não faz sentido”, disse Constantino Xavier.

A Índia “tem relações ótimas com o Brasil – melhores iniciativas do que com Portugal – e não precisa de qualquer ajuda portuguesa para entrar em Moçambique, onde é fortíssima e Angola é o seu segundo maior fornecedor africano de petróleo”.

No entanto, “isso não dispensa que países como Portugal possam ter um papel facilitador e os indianos percebem isso” e “está-se a assistir um pouco a uma redescoberta da lusofonia por parte dos indianos”, universo com o qual travaram “fortíssimos laços” durante séculos e que não se cingiu a Portugal, recordou.

“Vamos ver como é que corre do lado indiano – se há essa formalização do interesse”, disse o doutorando, para quem, apesar de haver “várias estrelas alinhadas”, existem também pelo menos dois fatores a equacionar relativamente ao ?timing’.

A favor dessa eventual formalização joga o facto de a presidência da CPLP ser assumida, a partir de julho, por Timor-Leste, que “tem muito interesse em que isto aconteça, por várias razões, a começar pela [própria relação] bilateral.

“Os timorenses aguardam com muito interesse e expectativa esse sinal oficial ou semioficial indiano de interesse em juntar-se a CPLP”, advogou.

Por outro lado, a Índia realiza eleições gerais entre abril e maio. Embora “tudo aponte para uma mudança partidária”, Constantino Xavier sustenta que tal pode não ser “necessariamente muito complicado”.

Isto porque os dois principais partidos – o do Congresso (centro-esquerda, no poder) e o BJP (Bharatiya Janata Party, conservador de direita) – “partilham muito mais do que se pensa” em questões de política externa e, além disso, o BJP – apontado como favorito – “tende a ser muito mais pragmático” no que toca à lusofonia.

DM // PJA – Lusa/Fim

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Foto LUSA: O Presidente do Brasil,  Luiz Inacio Lula da Silva, O Presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, o Presidente da China Hu Jintao e o Primeiro Ministro da Índia Manmohan Singh. 16 de junho de 2009. Brasil, Rússia, Índia e China constituem o designado grupo BRIC. EPA/SERGEI ILNITSKY

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