7 March 2021
"O pastel de nata já foi aqui tão alterado que já não o conhecemos, já é mais pudim, mas perdemos o barco para dar a conhecer o verdadeiro", disse, salientando que "Portugal ainda vende sol e mar, quando os chineses detestam sol e devíamos antes estar a vender a gastronomia, os museus, a cultura e até casinos".

“Incapacidade de Portugal de afirmar o que é português” no estrangeiro

O ‘chef’ Fausto Airoldi mudou-se para Macau para liderar o novo departamento de Pesquisa e Desenvolvimento na área de comidas e bebidas do empreendimento de jogo Galaxy, com 50 restaurantes e 2.250 quartos de hotel.

“Estive [no Galaxy] em novembro do ano passado a fazer um jantar gastronómico, que correu muito bem, e convidaram-me para voltar em janeiro para fazer uma auditoria aos processos e às cozinhas e, um mês ou dois depois, fizeram-me uma proposta de trabalho”, explicou o ‘chef’ português em entrevista à agência Lusa.

Fausto Airoldi sublinhou que a mudança para Macau não se deveu à crise em Portugal, mas a uma oportunidade que lhe interessou.

“Este é um projeto muito grande e estive sempre ligado a grandes projetos, abri o CCB, o Casino Lisboa, trabalhei na Bica do Sapato, e francamente nos dias de hoje não há grandes projetos em Portugal e este enquadra-se naquilo que quero fazer. O grupo também é muito sólido e foi isso que me atraiu”, sustentou.

O grupo Galaxy, sediado em Hong Kong, chegou a considerar contratá-lo como consultor, mas acabou por lhe “oferecer” um novo departamento para liderar.

“Com a minha apresentação em janeiro, perceberam a necessidade de terem um departamento de R&D [Research & Development – Pesquisa e Desenvolvimento] e, por isso, criaram-no e, como o projeto é de vários anos e há muito trabalho a fazer, decidiram contratar-me a tempo inteiro”, explicou.

Com mais de 30 anos de experiência no setor das comidas e bebidas, Fausto Airoldi vai acompanhar toda a produção do complexo turístico Galaxy Macau, que abriu portas em 2011 com três hotéis, estando outros dois em construção, que, até 2015, aumentarão o número total de quartos para cerca de 3.500.

“Cabe-me procurar novas tecnologias, novos processos, novas maneiras de fazer, mais eficientes e também ajudar os chefes de cozinha a desenvolverem ao máximo os seus menus, de acordo com as novas tendências e tecnologias da cozinha”, indicou, salientando que pretende transformar o Galaxy Macau em “líder de mercado na área das comidas e bebidas”.

Como em Macau todos os empreendimentos turísticos têm de ter, pelo menos, um restaurante com sabores portugueses, Airoldi vai contribuir com a sua experiência para também melhorar “a parte tecnológica e de receituário” do “Gosto”, o estabelecimento de comida portuguesa e macaense (cozinha de fusão de base portuguesa) do Galaxy Macau, que tem agora, pela primeira vez, um ‘chef’ português, Mário Gil.

 

Ao reconhecer que “qualquer restaurante fora de Portugal se tem de adaptar ao seu público”, que, no caso de Macau, é essencialmente chinês, Fausto Airoldi disse que o objetivo do Galaxy é, portanto, conseguir um “gosto bastante português” que agrade também aos chineses, que “comem menos sal, menos doce e vários pratos ao mesmo tempo”.

“Temos de olhar para essas maneiras de estar e ir ao encontro disso, algumas receitas têm de ser revistas, porque não podemos fazer aqui cozinha portuguesa exatamente como se faz em Portugal”, apontou.

Ao constatar, porém, que já chegou a comer em restaurantes portugueses dos grandes complexos turísticos de Macau “rissóis de camarão com gengibre”, por exemplo, este ‘chef’ defende que “deveria haver [no território] uma Confraria da Gastronomia Portuguesa e um trabalho do Turismo de Portugal para ajudar estes empreendimentos a terem uma cozinha portuguesa de excelência, embora com adaptações”.

Ao olhar para o pastel de nata, que foi dado a conhecer à Ásia por um inglês a partir de Macau, Airoldi lamentou a “incapacidade de Portugal de afirmar o que é português” no estrangeiro.

“O pastel de nata já foi aqui tão alterado que já não o conhecemos, já é mais pudim, mas perdemos o barco para dar a conhecer o verdadeiro”, disse, salientando que “Portugal ainda vende sol e mar, quando os chineses detestam sol e devíamos antes estar a vender a gastronomia, os museus, a cultura e até casinos”.

Apesar de os portugueses estarem em Macau há mais de quatro séculos, Fausto Airoldi considerou que não conseguiram dar a conhecer à China muito da sua cultura nem aproveitar as potencialidades do território.

“Os portugueses tinham aqui um diamante fabuloso, mas somos muito de capelinhas, por isso, os chineses pegaram nisto e, ao fim de dez anos, Macau faturou seis vezes mais do que Las Vegas, o potencial estava cá, nós é que não soubemos aproveitar”, disse.

Ao prever que a “Ásia é uma região que vai estar a crescer nos próximos 30 anos e, em termos de hotelaria, é das mais avançadas em termos de qualidade”, Fausto Airoldi não hesitou em afirmar que não irá regressar a Portugal “tão cedo”.

PNE // VM – Lusa/Fim

Foto: O ‘chef’ Fausto Airoldi mudou-se para Macau para liderar o novo departamento de Pesquisa e Desenvolvimento na área de comidas e bebidas do empreendimento de jogo Galaxy, com 50 restaurantes e 2.250 quartos de hotel, Macau, 21 de Julho de 2013. CARMO CORREIA/LUSA

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