Macau, China, 13 dez (Lusa) – Depois de “Cartas da Guerra”, o realizador Ivo Ferreira centra as atenções em Macau, cidade que considera a sua casa e que servirá de palco para “Hotel Império”, um filme onde um casino flutuante espera conquistar o grande ecrã.

“Hotel Império”, um filme “com muito sabor a Macau”, conta a história de uma portuguesa nascida na cidade – interpretada por Margarida Vila Nova – que, juntamente com outras pessoas, habita um antigo hotel de Macau, em vias de ser destruído para dar lugar a um edifício moderno.

Durante a apresentação do filme, no âmbito do I Festival Internacional de Cinema de Macau, Ivo Ferreira explicou que o filme tem como pano de fundo um tema recorrente e muito presente na vida da cidade: a mudança acelerada do espaço, impulsionada pelo desenvolvimento económico.

“O hotel evidentemente que tem uma carga simbólica sobre Macau, vai ser destruído para ser construído um hotel-casino. Tem que ver com (…) a erosão da cidade [que] poderá criar uma identidade, a erosão poderá unir-nos, unir vizinhos que não se falavam. Acho que o filme gravita muito à volta desse ambiente, de que a destruição pode unir para proteger a cidade”, explicou o realizador.

Ivo Ferreira sublinha que esta abordagem “nada tem que ver com saudosismo”. “Antes pelo contrário, sou muito mais feliz nesta Macau de hoje. Mas é uma coisa contracorrente, a modificação tão rápida da sociedade”, apontou.

Além do hotel – que Ivo Ferreira não quis ainda identificar – habitado por antigos hóspedes, outro edifício icónico de Macau vai competir por protagonismo: o casino flutuante, um dos mais antigos da cidade, do início dos anos 1960, um edifício à imagem de um palácio chinês, localizado no rio.

“O casino flutuante é uma parte muito importante do filme. Faz parte do local onde trabalha a personagem principal, é uma espécie de salão de baile onde a comunidade de Macau vai frequentemente. Eu costumava viver no Porto Interior e era o único casino por onde passava. Havia uma atmosfera estranha, é interessante o quão frágil e sólido pode ser, algo que flutua e que é tão estável. Como Macau é agora”, indicou, acrescentando que além do simbolismo o edifício é “lindíssimo e fotogénico”.

A personagem que percorre estes edifícios é Maria, “uma rapariga portuguesa que nasceu em Macau mas aprendeu a falar cantonês, vive entre o mundo português e macaense, não se sente portuguesa, chinesa ou macaense, está um pouco perdida”, descreveu Margarida Vila Nova, alertando que o cantonês que vai falar terá “sotaque português”.

O elenco de “Hotel Império” é diverso e inclui vários atores de Macau. A personagem principal masculina, Chu, é interpretada por Rhydian Vaughan, um ator taiwanês de ascendência britânica.

Para Ivo Ferreira, Macau é casa há 22 anos, e por isso não tem sobre a cidade um olhar “exótico”. “Já tive dois filhos que nasceram cá, tive uma discussão ao telefone naquela rua, já me apaixonei. Tenho uma relação com a cidade que é diferente e por isso falo desse ‘não exotismo’. Agora, a cidade com certeza que tem o seu exotismo e reparo que há imensa curiosidade. Acho que [o filme] vai pôr Macau no mundo de forma mais apetitosa que o jogo”, defendeu.

Filmar em Macau tem-se demonstrado difícil “porque há uma sensibilidade na sociedade em relação a filmar, parece que é uma espécie de intrusão, parece que há um receio, uma resistência que as coisas aconteçam no geral”, descreveu o realizador.

O filme estará pronto em 2017 e segundo o produtor Luís Urbano a “ambição é estar num festival de classe A”. “Se será Veneza ou Berlim, não sabemos (…) As filmagens vão estar terminadas a 21 de março e vamos ter um longo processo de edição. Vamos ter de lidar com a questão das diferentes línguas, mas acredito que isso vai surgir normalmente porque não é um filme de ‘blá blá blá’, é um filme de atmosfera”, explicou o produtor.

ISG//APN – Lusa/fim

 

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