2 March 2021
Há cerca de 40 anos, a quase totalidade dos Estados africanos, que hoje integram os Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), alcançaram a independência de Portugal através de conflito armado. Com a proclamação da independência, todos os países decidiram usar o português como língua oficial.

Homenagem aos associados da Casa dos Estudantes do Império

A adoção do português como língua oficial nas ex-colónias africanas portuguesas “era a solução mais prática” e “surgiu naturalmente”, disseram hoje à Lusa ex-membros da Casa dos Estudantes do Império, atualmente dirigentes políticos naqueles países.

Questionado hoje pela Lusa sobre a opção seguida pelos países africanos, o ex-primeiro-ministro de Angola Fernando França Van-Dúnem disse que “nunca houve concertação” entre os antigos associados da Casa dos Estudantes do Império que, posteriormente, exerceram funções políticas naqueles países, para a adoção do português como língua oficial.

Esta preferência “surgiu naturalmente”, disse Van-Dúnem, secundado pelo ex-presidente cabo-verdiano Pedro Pires, que afirmou ter sido uma “solução mais prática” para os novos Estados africanos.

“Era o único instrumento (…) entre mãos e tínhamos que o utilizar. A língua serviu como meio de comunicação, de difusão e cultura, portanto, teria de ser assim, não tínhamos outra língua. Era a solução mais prática, porque é língua escrita, de comunicação, em que nós aprendemos (…) e fizemos os estudos”, disse.

Durante os anos em que funcionou (1944-1965), a Casa dos Estudantes do Império teve um papel importante no despertar de consciências críticas entre a juventude oriunda das colónias, na contestação ao regime e ao domínio colonial, na redescoberta das suas identidades culturais (das múltiplas Áfricas de origem, de Goa, Macau ou Timor), na conceção de novos projetos políticos.

Segundo a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), aquele local “cedo subverteu as expectativas oficiais de um corpo obediente e alinhado com a ideologia imperial”.

Em declarações à Lusa, Pedro Pires, depois de visitar a ex-cadeia do Aljube, atual Museu da Resistência e Liberdade, e o local onde funcionou a Casa dos Estudantes de Império, em Lisboa, defendeu, contudo, a necessidade de “se valorizarem” as línguas africanas.

Durante horas, cinco antigos chefes de Estado e de Governo de Angola (Fernando França Van-Dúnem), Moçambique (Pascoal Mocumbi e Mário Machungo) São Tomé e Príncipe (Miguel Trovoada) e Cabo Verde (Pedro Pires) percorreram a ex-cadeia do Aljube e o Instituto Superior da Agronomia, em Lisboa, onde estudou o fundador do PAICG, Amílcar Cabral.

Em declarações à Lusa, o secretário-geral da UCCLA, Vítor Ramalho, considerou que “foi imenso” o papel desempenhado pela sua instituição na introdução do português como língua de trabalho nos PALOP, após a independência, uma vez que parte dos protagonistas dos movimentos de libertação passaram por Portugal.

“Desde logo, os então jovens publicaram três antologias poéticas, de Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Publicaram também 22 pequenos livros de poesia e aprofundamento das identidades dos países de onde eram originários e essa poesia e os próprios autores são personalidade absolutamente inultrapassáveis do ponto de vista cultural dos nossos países”, disse Vitor Ramalho.

Exemplificando, o responsável destacou nomes de vários poetas, desde José Craveirinha, “que escreveu muito para a Casa dos Estudantes do Império”, ao Rui Monteiro, autor do Hino de Angola, bem como Amílcar Cabral.

MMT // JLG – Lusa/Fim


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