Sal Rei, Cabo Verde, 18 jul 2022 (Lusa) – A história da Boa Vista no Atlântico durante 500 anos, dos naufrágios e ataques piratas à abolição da escravatura, vai dar origem a um museu naquela ilha, revelou à Lusa o presidente do Instituto do Património Cultural cabo-verdiano.

“O que estamos a fazer é repor uma certa justiça à ilha da Boa Vista, porque o grosso do espólio que temos aqui no Museu de Arqueologia da Praia é proveniente dos trabalhos de investigação subaquática realizados entre finais de 1990 e até 2004, 2005, na ilha da Boa Vista”, começou por explicar, em entrevista à Lusa, o presidente do Instituto do Património Cultural (IPC), Jair Fernandes.

De acordo com o responsável, o futuro Núcleo Museológico de Arqueologia da Boa Vista, a segunda ilha de Cabo Verde mais procurada pelos turistas, incluirá uma vertente dedicada à área subaquática e será instalado no antigo edifício da Alfândega, em Sal Rei, formalmente cedido ao Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas.

“Tivemos ali um encontro com os empreiteiros, com a Câmara Municipal e visitámos o espaço. Já estamos na fase de montagem do projeto de reabilitação do edifício, mas também de toda a narrativa expositiva que será introduzida ali no edifício. Mais uma vez, dotando a ilha de um equipamento cultural de visitação não só da comunidade, mas também dos turistas que reclamam, com uma certa dose de razão, que a ilha da Boa Vista é muito limitada em termos de espaço e de atrativo turístico”, reconheceu o presidente do IPC.

Segundo Jair Fernandes, a “narrativa expositiva” a colocar no museu “não será somente à volta dos naufrágios, dos barcos, das suas rotas e da sua carga”, mas “também da própria ilha da Boa Vista, no contexto geoestratégico, a partir do século XVI”.

“Ou seja, a ilha teve um papel cimeiro, por um lado por ser a mais ocidental do arquipélago. E, não menos importante, funcionou enquanto espaço de vigia após a abolição da escravatura (…), de vigilância do tráfico ilícito escravo. É toda esta narrativa e esta relativa importância que a ilha teve no contexto do Atlântico que será espelhado no futuro Núcleo Museológico da Boa Vista”, explicou.

Segundo o IPC, a construção do futuro museu será financiada no quadro do Plano Operacional do Turismo e terá uma comparticipação através do projeto “Margullar2”, financiado pela União Europeia e concebido para a salvaguarda e valorização, sobretudo turística, do Património Cultural Subaquático na Macaronésia (Cabo Verde, Açores e Madeira, Canárias e Senegal).

Receberá parte do espólio do atual Museu de Arqueologia, com sede na Praia, atualmente formado por coleções de instrumentos de navegação, estruturas de navios, canhões e outros materiais bélicos, além de moedas variadas, ânforas e formas de açúcar, marfim ou acessórios de uso pessoal como relógios de bolso, contas, botões de punho ou cachimbos, muitos dos quais encontrados em escavações subaquáticas precisamente ao largo da Boa Vista.

Descoberta em 1480 por navegadores portugueses, a ilha da Boa Vista dista cerca de 450 quilómetros da costa africana e conheceu o seu desenvolvimento a partir do século XVII quando se percebeu a qualidade do sal ali existente, que se tornou na sua maior fonte de rendimento, atraindo empresários de vários pontos, incluindo estrangeiros.

Assim, a costa da Boa Vista ficou também conhecida por ter sido palco de históricos naufrágios e ataques de piratas e corsários, uma vez que assumiu papel crucial na exportação de sal a partir de Cabo Verde. Só na segunda metade do século XIX há registo de pelo menos 50 naufrágios ocorridos ao largo da Boa Vista, de navios de várias nacionalidades.

Fotos: ELTON MONTEIRO/LUSA

Foi esta história de 500 anos que levou igualmente o arqueólogo italiano Maurizio Rossi a dar vida ao sonho de construir na Boa Vista um museu dedicado aos náufragos, que retrata a evolução e as dificuldades do povo crioulo, que o IPC pretende também envolver neste projeto.

Levou cerca de 20 anos a ser construído e só praticamente este ano, após o interregno devido à pandemia de covid-19, começou a funcionar em pleno em 2022 e vai ser acompanhada pelo IPC.

“É uma iniciativa privada com que nos congratulamos. Assim como as outras iniciativas privadas, estamos num processo de certificação desta estrutura, segundo a própria Direção Nacional, para a sua inclusão na Rede Nacional de Museus, neste programa ‘Museus de Cabo Verde’. E claramente que, estando dentro da rede, terá de ter aqui um papel de ‘linkagem’, digamos assim, não só como um Núcleo Museológico da Boa Vista, mas com todos os outros museus que temos aqui em Cabo Verde, mormente cuja temática se assemelha. Refiro-me, por exemplo, aqui ao Museu Arqueológico da Praia”, explicou, a propósito, o presidente do IPC.

Arqueólogo formado na Universidade de Florença, em Itália, Maurizio Rossi, 59 anos, chegou à Boa Vista há mais 20 anos e construiu em Sal Rei, literalmente com as próprias mãos, o Museu dos Náufragos, com os seus três andares.

Nele é contada a história do Homem, a partir dos 500 anos de Cabo Verde, do período dos descobrimentos, envolvendo várias nações, da escravidão, do isolamento e da sobrevivência ou da seca histórica.

“Assim que o projeto estiver totalmente instalado, passaríamos claramente, desde logo do protocolo de parceria até à gestão partilhada de algumas atividades. E penso que estaremos perante duas estruturas que irão alavancar e de que maneira a própria ilha da Boa Vista no quesito da oferta cultural”, reconheceu Jair Fernandes.

PVJ // VM – Lusa/Fim

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