Numa entrevista à agência Lusa, por ocasião dos 40 anos de independência de Cabo Verde, a celebrar a 05 de julho próximo, Mário Lúcio Sousa, negou que haja qualquer tensões entre as duas línguas, salientando que, pelo contrário, a convivência de há muito provocou “um processo químico de gestos que moldam feições e hábitos”.

“Estamos a introduzir o crioulo no português e o português no crioulo todos os dias. É o período da descrioulização. Ouve-se alguém a falar em crioulo e, no fundo, só usam algumas palavras em crioulo. Os tempos verbais já são todos em português e o léxico é basicamente o português. Descrioulizou-se, por causa do contacto”, sustentou.

“No mundo de hoje, ter diversidades e ter línguas é ter património e temos de cuidar das duas línguas, mas não existe tensão: O que existe são decessos nos defensores, entre os da oficialização e os da não oficialização”, acrescentou, salientando, porém, que o crioulo já devia estar reconhecido na Constituição há muito.

“Devia ser dos primeiros gestos pós independência, porque é uma língua que se conquistou, que se inventou, que se criou e é um património da identidade crioula no mundo todo”, sublinhou, lembrando que, em casa, o povo cabo-verdiano, bilingue por natureza, não fala português.

Questionado sobre as dificuldades de consenso quanto a um único crioulo – o de Santo Antão é diferente do da Brava, o de Santiago tem duas ou três versões, etc -, inviabilizando uma gramática própria, Mário Lúcio considerou-a uma ”questão técnica”, frisando que o que existe são “variantes”, pois a língua é a mesma.

“Felizmente, temos uma única língua que, por vivermos num arquipélago, foi ganhando características próprias, de ilha em ilha. Há decisões técnicas e políticas a serem tomadas. O crioulo tem regras, porque se não tivesse não nos entendíamos. Essas regras já estão nos livros de Napoleão Fernandes, Baltazar Lopes, Manuel Veiga, Eduardo Cardoso e vários outros linguistas”, argumentou.

Instado sobre o fracasso da institucionalização do ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana), Mário Lúcio admitiu a “desarmonia”, salientando que há linguistas pró e contra a convenção e que “da discussão faz-se a luz”, pelo é necessário encontrar formas de escrita que permitam consensos.

“Isso é possível e está em aberto. Mas esta discussão é boa, porque estamos a viver um momento de transição no mundo e a nova geração, a que chamo de ‘Geração Polegar’, já está numa outra língua. O que se discutiu em relação à língua, há 20 anos, não é o que se está a discutir hoje. E o que se vai discutir durante 20 anos será outra coisa, porque o próprio fenómeno da Internet é uma revolução humana incomensurável”, sustentou.

Nesse sentido, exemplificou, um jovem de Santo Antão comunica com o amigo na Brava e “entendem-se perfeitamente na escrita ‘sms’”. Quando “outra geração tomar o lugar, a discussão será outra e a oficialização é uma questão constitucional e com muitas consequências positivas”, terminou.

JSD // PJA- Lusa/Fim


O ministro da Cultura de Cabo Verde, o também compositor, músico, cantor, escritor, dramaturgo e poeta, Mário Lúcio Sousa, 50 anos, natural do Tarrafal de Santiago, para quem o cabo-verdiano “sempre foi muito recetivo à cultura do outro” e acabou por criar a sua própria identidade cultural, na Cidade da Praia, Cabo Verde, 01 de julho de 2015. ANTÓNIO GOMES/LUSA


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