18“Nós temos um grande plano. Podemos ter classes de português aqui, mas temos um problema com a falta de professores”, disse à agência Lusa o regente das Flores Oriental, Joseph Lagadoni Herin, acrescentando que pretende cooperar com a embaixada portuguesa na Indonésia ou com as autoridades de Timor-Leste para encontrar a pessoa certa.

Assim que tiver um professor, o regente das Flores Oriental quer iniciar as aulas de modo consistente e regular. “Não nos é dificil iniciar o português aqui, porque o português tem a mesma estrutura que o Indonésio. Logo, nós esperamos que as crianças, a confraria e o Mama Muju possam aprender”, salientou Joseph Lagadoni Herin.

O Mama Muji (“Louvor de Mãe”), iniciado no século XVIII, é um grupo de 125 mulheres casadas que reza em português obrigatoriamente durante a Semana Santa, mas todos os sábados cerca de 80 elementos do grupo e outras pessoas que não fazem parte do mesmo deslocam-se à “Gereja Tuan Ma” ou Capela da Senhora Mãe para rezar o rosário na língua de Camões.

Mulheres e crianças de diferentes idades e até alguns homens rezam e cantam em português, por vezes intercalado com indonésio, com o auxílio de livros, onde o português aparece escrito na forma mais conveniente para os indonésios, substituindo, por exemplo, “nosso” por “noso”.

Algumas pessoas vão acendendo velas durante a reza do terço, mas no final todos se deslocam junto aos santos da igreja para oferecer velas e para beijá-los, numa cultura onde os beijos como saudação apenas estão reservados aos familiares e amigos mais próximos.

O Mama Muji faz parte da confraria “Rainha do Rosário”, que, segundo o seu presidente, o rei de Larantuca, D. Martinus Dias Vieira de Godinho, foi formada em 1642 e é provavelmente a mais antiga organização da Indonésia.

Aos sábados de manhã, depois da oração das mulheres, é tempo de os homens também o fazerem, igualmente na Capela da Senhora Mãe, embora o número de participantes seja menor, rondando as duas dezenas.

O rei de Larantuca, que apenas governa durante a Semana Santa dado que o papel do reino foi entregue ao governo indonésio, explica que “o Mama Muji e a confraria rezam sempre em Português por causa dos seus antecessores” e aprenderam a fazê-lo pela via oral e não através de livros.

D. Martinus Dias Vieira de Godinho acredita que será difícil envolver “as senhoras idosas” nas aulas de Português, “por causa da mentalidade”, dado que “mudar os hábitos é difícil”, mas mostra-se disponível para tentar e confiante de que “as gerações mais jovens” irão participar nas aulas.

Clara Kung tem 50 anos, aprendeu a rezar na língua portuguesa através da mãe e da avó, que “rezavam sempre em português”, daí que hoje em dia todos os sábados se desloque à capela da Senhora Mãe, ao lado da sua casa, para “rezar pelas crianças e pela felicidade na vida”.

Clara Kung mostra-se interessada em participar nas classes de português e frisa que, apesar de no início ter sido “difícil” aprender a rezar na língua portuguesa, com o tempo e com a ajuda de um livro, já consegue fazê-lo sem dificuldade.

Ainda que por agora não saiba o significado das palavras em português, Clara Kung consegue identificar o nome da oração e, logo, perceber o que está a pedir a Deus.

Há centenas de palavras em indonésio derivadas do português, como “bola”, “boneka”, “Keju”, “sekolah”, mas nas regiões de Flores Oriental e Sica os vestígios estão ainda mais presentes, não só nas orações, que também acontecem na regência de Sica, mas também nas palavras usadas no quotidiano, como por exemplo os dias da semana.

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à Indonésia, em 1512, na mira de especiarias e, embora não tenham colonizado o país, procederam a uma forte evangelização católica até 1859, ano em que assinaram um tratado com a Holanda.

AYN // PJA – Lusa/Fim

Fotos: Indonésias de diferentes idades e até alguns homens rezam e cantam em português, por vezes intercalado com Indonésio, com o auxílio de livros, onde o português aparece escrito na forma mais conveniente para os indonésios, substituindo, por exemplo, “nosso” por “noso”, Flores, Indonésia, 23 de fevereiro de 2014. ANDREIA NOGUEIRA/LUSA

 

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