Díli, 03 maio (Lusa) – Um especialista timorense defendeu hoje que os dirigentes de Timor-Leste, especialmente no Ministério da Educação, não têm mostrado “consistência política” no que toca à língua portuguesa, contribuindo assim para a tensão linguística no país.

“Vivemos um problema de consistência política. Não há consistência política da nossa parte, do Governo timorense, nomeadamente do Ministério da Educação no que toca ao fortalecimento da língua portuguesa”, disse Vicente Paulino, do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL).

Paulino, que analisou os desafios da consolidação da língua portuguesa em Timor-Leste, falava na abertura de um seminário subordinado ao tema “Criar, educar e inovar em língua portuguesa” que se insere nas atividades da Semana da Língua Portuguesa, promovida pela Embaixada de Portugal em Díli, em parceria com várias entidades do país.

O professor timorense referiu-se ao que disse serem as tensões que se vivem dentro e fora do espaço escolar no que toca ao uso da língua portuguesa, que começaram logo no momento da decisão constitucional de colocar o português como língua oficial em Timor-Leste (a par do tétum).

E que se agravaram, destacou, quando a lei de base da educação deu aos professores a opção de escolherem entre as duas línguas como língua de instrução algo que, insistiu, “deve ser revisto para colocar o português como única língua de instrução”.

Paulino culpou ainda o que diz ser a tentativa “de anglosaxonizar Timor-Leste com políticas de imposição” adotadas por organizações internacionais e defende o fim do projeto de uso da língua materna nas escolas “para que a língua portuguesa seja bem consolida”.

Em concreto, criticou um programa anglo-saxónico conhecido como S.O.S. que realizou cursos de inglês nas zonas rurais em Timor-Leste quando “se devia trabalhar mais na criação de projetos de língua portuguesa nos bairros e nas aldeias”.

O especialista timorense apontou igualmente o dedo à cooperação na área educativa especialmente desde 2008 em que diz se passou para uma cooperação “menos colaborativa”.

E criticou os diplomas do Governo sobre o currículo escolar que reduziram, desde o início de 2015, o número de horas de português no ensino pré-escolar e básico.

A falta de professores timorenses com capacidade para ensinar em português e as fraquezas do currículo timorense, disse, são outros dos “fatores de tensão” na questão linguística em Timor-Leste.

Vicente Paulino defende a criação de um laboratório linguístico, a aposta numa “consciência de paciência estratégica” e de uma “pedagogia da cidadania, como ponto central para ultrapassar tensões na educação”.

“Temos que ser criativos em língua portuguesa, na partilha do conhecimento. Temos que ser mais criativos na cooperação, no intercâmbio cultural e na realização de atividades conjuntas em parceria”, defendeu.

“E desafio também os investigadores portugueses a deixarem de ver os timorenses como objeto de estudo, passando a considerá-los sujeitos de estudo, podendo assim ver publicados mais trabalhos em coautoria”, notou ainda.

ASP // VM – Lusa/Fim
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