O tema é discutido no Congresso Nacional desde 1999, quando o deputado Aldo Rebelo apresentou o projeto, que ainda não tem data para ser votado.

Em que pese a boa vontade dos parlamentares e dos demais defensores e cultores do vernáculo, somos obrigados a levar em consideração a grande dificuldade para fazer valer uma providência dessa ordem num País que durante toda a sua história conviveu com estrangeiros em seu território. Eles aqui estão desde 1530, quando os portugueses iniciaram a organização da ocupação territorial e reforçaram-se com as invasões – francesa e holandesa – e mais permanentemente com o tráfico de escravos, que colocou no País de 5 a 6 milhões de cativos de diferentes etnias africanas, e a entrada dos imigrantes italianos, espanhóis, alemães, japoneses e outros, que vieram desde a fase de substituição da mão-de-obra escrava até a industrialização.

Por conta desse movimento imigratório, a população e a cultura brasileira constituíram-se com base nos conhecimentos, crenças e costumes desses povos, somados ao que já trouxeram os portugueses descobridores e ao índio nativo. É a miscigenação não só de indivíduos, mas de tudo o que fazem ou pensam. Daí temos tradicionalmente os nomes de lugares, cidades e acidentes geográficos derivados de idiomas indígenas e nomes e citações calcados em costumes e prática dos estrangeiros que, ao longo da história, constituíram o habitante brasileiro. Mudar isso nos parece uma tarefa quase impossível e desnecessária.

São inúmeras as razões que nos trouxeram ao atual estado de coisas. Vão desde o pedante desejo dos outrora ricos interlocutores estrangeiros nos impor seu idioma até o também estúpido desejo de muitos dos brasileiros sobressaírem-se socialmente invocando termos alienígenas. Ao longo da história nacional, tivemos os tempos de guerra, em que os estrangeiros foram perseguidos por falar sua língua de origem e épocas em que a própria prática nacional importou e tropicalizou termos estrangeiros. Exemplos clássicos são o “speaker” (locutor de rádio), o “footing” (passeio no jardim) e até o “football” com que conviveram nossos avós e bisavós na primeira metade do século passado. Agora vieram os modernos software, recall, flat, home-theater e muitos outros embutidos na cultura industrial, que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Preocupar-se com o jeito que o povo fala é mais para as academias do que para o parlamento. Deputados, senadores, vereadores e governo como um todo deveriam ter como prioridade garantir educação, saúde, moradia, trabalho e segurança pública ao cidadão. Com tudo isso resolvido, ninguém vai reclamar se o português aqui falado está (ou não) poluído por termos de outros idiomas. Até porque, vivemos a plena globalização…

 

 

Dirceu Cardoso Gonçalves,  Tenente PM, dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de SP

 

FONTE: Jornal Agora

 

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