Coimbra, 11 nov (Lusa) – A obra “Papéis da Prisão”, de Luandino Vieira, é apresentada este mês, reunindo num livro de 1.200 páginas apontamentos, correspondência e diário do escritor durante os anos de cárcere enquanto preso político, durante o Estado Novo.

O livro compila cerca de duas mil “débeis folhas” escritas num ambiente “de grande precariedade, de grande censura e extremamente violento”, primeiro nas cadeias de Luanda (onde deu entrada em 1961) e depois no Tarrafal (de onde saiu em 1972), em Cabo Verde, disse à agência Lusa a investigadora Margarida Calafate Ribeiro, uma das coordenadoras do projeto do Centro de Estudos Sociais (CES) que trouxe este espólio de Luandino Vieira a público.

O projeto, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, começou em 2013 e termina agora com a apresentação do livro “Papéis de Prisão”, que decorre a 24 de novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a 26 de novembro na livraria Almedina, em Coimbra, e a 10 de dezembro em Angola.

Segundo Margarida Calafate Ribeiro, o autor foi responsável pelo processo de seleção dos textos, enquanto o projeto criou “as condições de organização e fixação” dos escritos.

“O livro fala de tudo”, afirmou a investigadora. A articulação entre “o projeto literário e o projeto político, as angústias pessoais, os problemas inerentes à prisão, a situação que estava a viver”, as suas angústias e sonhos pessoais ou a sua visão sobre Angola estão presentes na obra.

Para Margarida Calafate Ribeiro, este é um projeto “único na língua portuguesa”.

O livro é também “uma denúncia muito clara da violência brutal daquelas prisões, daquela política e daquele regime, altamente agressivo e altamente penalizador”, acrescentou, referindo que vai contra o lusotropicalismo, que suporta a ideia de uma colonização benigna ou leve por parte dos portugueses.

A obra, editada pela Caminho, conta com a reprodução de “alguns dos materiais” utilizados por Luandino Vieira, bem como desenhos feitos na prisão, uma introdução por parte dos investigadores do projeto, uma cronologia da vida e obra do escritor e uma entrevista ao autor de “Luuanda”, sobre “o cárcere, os escritos, a obra ficcional” e os diários da prisão.

A apresentação deste livro de Luandino Vieira está inserida num série de iniciativas que o CES, através do programa de doutoramento “Patrimónios de Influência Portuguesa”, e a reitoria da Universidade de Coimbra (UC) levam a cabo para assinalar os 40 anos de independência de Angola.

 

Hoje, há um ciclo de cinema e documentário angolano a decorrer na Casa das Caldeiras da UC e a 13 de novembro é apresentado o terceiro volume da obra “Angola, o nascimento de uma nação: o cinema da independência”.

Nesse mesmo dia, realiza-se o espetáculo “Mpemba Nyi Mukundu”, da Companhia de Dança Contemporânea Angolana, no Teatro Académico de Gil Vicente.

Este é um espetáculo com coreografia “moderna e contemporânea”, “mas que tem que ver com adaptações de danças e de culturas angolanas, que não de língua portuguesa”, aclarou Margarida Calafate Ribeiro.

A companhia foi fundada em 1991, por Ana Clara Guerra Marques, e é membro do Conselho Internacional da Dança da UNESCO.

JYGA // VM – Lusa/FimLuandino Vieira