Redação, 15 jul 2022 (Lusa) – O escritor angolano Boaventura Cardoso, com o romance “Margens e Travessias”, é o vencedor da 4.ª edição do Prémio de Literatura dstAngola/Camões, anunciaram hoje os promotores do galardão, o dstgroupcom e o Camões Instituto.

Boaventura Cardoso, “um dos melhores prosadores da História da Literatura Angolana (…), constrói um romance que se constitui fundamental para quem queira conhecer a Angola do último meio século”, declarou o júri, sobre a escolha.

O júri desta edição do prémio foi presidido pela professora Irene Guerra Marques e constituído pelo professor Manuel Muanza e pelo o jornalista Carlos Ferreira.

“A atribuição do prémio ao autor Boaventura Cardoso fundamenta-se essencialmente no facto de se tratar de uma obra que reflete, melhor do que nunca, um escritor que nos habituou, ao longo dos anos, a um trabalho exaustivo que balança constantemente entre uma criatividade muito rica, mas também muito disciplinada”, sublinhou o júri.

“Entre o imaginário, o realista, o religioso, o musical (o refrão que percorre uma das principais figuras do seu romance, da sua vida!), Boaventura Cardoso recorre aos mesmos métodos que fizeram dele um dos melhores prosadores da História da Literatura Angolana: uma disciplina férrea, um profundo conhecimento da realidade, uma observação lúcida e inteligente de tudo quanto se vai passando à sua (à nossa…) volta, e constrói um romance que se constitui fundamental para quem queira conhecer a Angola do último meio século”, acrescentou o júri.

Editado em Portugal pela Guerra & Paz, “Margens e Travessias” é destacado pela editora como “um romance político, corajoso, mas sobretudo de grande valor literário, de um grande contador com um imaginário que vai ao mais fundo e mais mitológico de África”.

Licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade de São Tomaz de Aquino – “Angelicum”, em Roma, Boaventura Cardoso estreou-se na edição em 1977 com o livro de contos “Dizanga dya Muenhu, a que se seguiram novas coletâneas como “O Fogo da Fala” (1980) e “A Morte do Velho Kipacaça” (1987), e os romances “O Signo do Fogo” (1992), “Maio, Mês de Maria” (1997) e “Mãe, Materno Mar”, a que foi atribuído o Prémio Nacional de Cultura e Artes (2001), na área de Literatura.

“Noites de Vigília” (2012) e “Margens e Travessias” (2021) estão entre as obras mais recentes do autor.

Atual deputado à Assembleia Nacional de Angola pelo MPLA, Boaventura Cardoso é membro honorário da Academia Palmense de Letras, do Estado brasileiro de Tocatins, e recebeu a Ordem do Mérito Cultural, do Brasil, em 2006.

De 2016 a 2020, foi o primeiro presidente da Academia Angolana de Letras de que é membro fundador.

UCCLA acolheu lançamento do livro “Margens e Travessias” de Boaventura Cardoso

O Prémio de Literatura dstangola/Camões, dedicado a livros editados em poesia e prosa, de artistas nascidos em Angola, distinguiu, nas edições anteriores, Zetho Cunha Gonçalves, em 2019, Pepetela, em 2020, e Benjamim M’Bakassy, no ano passado.

Criado numa parceria entre o grupo empresarial e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em 2019, o prémio tem por objetivo distinguir trabalhos de poesia e prosa de escritores angolanos, em edições alternadas, quanto ao género literário, à semelhança do prémio dst de literatura, dedicado a autores portugueses.

No âmbito do protocolo com o instituto Camões, foi também criada a sala de leitura dstangola, no Centro Cultural Português de Luanda, que já recebeu do grupo empresarial livros num valor superior a 12.500 euros, de autores de língua portuguesa, em livros técnicos e de literatura, “entre muitos outros géneros”.

O projeto da sala de leitura será “reforçado em seis mil euros, em cada um dos três anos subsequentes”, como anunciou hoje o grupo dst.

O prémio desta edição do Prémio De Literatura dstAngola/Camões, com o valor de 15 mil euros, será entregue ao vencedor, em Luanda, durante o mês de outubro.

MAG // MLS – Lusa/Fim

 

Sinopse:
Marco Lucchesi, escritor e presidente da Academia Brasileira de Letras:
«Boaventura Cardoso produziu um alto romance. Indelével o sentido poético difuso que o atravessa. Ouve-se a música do pensamento, a expressão de uma língua serena e vibrátil.»

Mensagem de Rita da Silva Cardoso, mãe do autor:
«Nas bordas deste romance inscrevi parte do que fui escrevendo em pagelas. A história da minha amargura é longa; não posso contá-la toda, nem convém, para além de que não tenho já vida para guardar tantas memórias. Pronto, fica assim. Que um dia se escreva a história das mães sofredoras como eu fui. De qualquer modo, meu filho, a ti que és escritor, confio estes papéis. Publica-os no momento oportuno; talvez seja melhor esperares que um dia acabe este caduco regime de ditadura democrática revolucionária…; faz tento nisso, Boaventura. De qualquer modo, levo comigo a dor das mães sofredoras, embora a dor delas seja maior; Fátima trouxe-me de volta o meu filho. Elas não tiveram essa sorte; elas choram até hoje a morte prematura de seus filhos. Levo comigo a dor delas − escreve isso, meu filho, na minha lápide onde repousar para sempre. Agora, para não atrapalhar a vossa leitura, caro leitor, migro e transvoo para outras margens.»

Cármen Lúcia Tindó Secco, autora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro:
«É um romance histórico em que a geografia também protagoniza a construção romanesca, cujas inúmeras travessias penetram margens submersas da história de Angola, ao mesmo tempo que, pela linguagem da poesia, tecem uma “terceira margem” da estória.»

 

Biografia:
Boaventura Cardoso, licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino (Angelicum), é escritor e diplomata de carreira, tendo sido Secretário de Estado da Cultura, Ministro da Cultura, Ministro da Informação, Governador de Província e Embaixador em França, Itália, Malta e junto aos organismos das Nações Unidas.
Membro-fundador da União dos Escritores Angolanos e da Academia Angolana de Letras, de que foi o 1.º presidente, é autor dos livros de contos Dizanga dya Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1980) e A Morte do Velho Kipacaça (1987) e dos romances O Signo do Fogo (1992), Maio, Mês de Maria (1997), Mãe, Materno Mar (2001), agraciado com o Prémio Nacional de Cultura e Artes – Literatura, e Noites de Vigília (2012).
É membro honorário da Academia Palmense de Letras e Comendador da Ordem do Mérito Cultural desde 2006.
Atualmente é Deputado à Assembleia Nacional do Parlamento angolano, sendo presidente da Comissão para a Cultura, Assuntos Religiosos, Comunicação Social, Juventude e Desportos.

Fonte: UCCLA

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