Lisboa, 05 mai (Lusa) – O escritor angolano João Melo disse hoje, em Lisboa, que as autoridades de Angola não se mostram contrárias ao Acordo Ortográfico, mas apontam insuficiências à norma ortográfica, sobretudo em relação ao vocabulário de origem africana.

“Na verdade há uma confusão, o Governo de Angola não é contra o Acordo Ortográfico, ainda não se manifestou contra. Pensa que tem algumas insuficiências, fez um estudo sobre isso e submeteu um documento com essas insuficiências para um debate alargado entre todos os países da CPLP. Em geral, a posição é essa”, disse o também jornalista João Melo.

O escritor angolano fez estas declarações aos jornalistas durante as comemorações do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – que se comemora hoje -, na sede da organização, em Lisboa.

“Angola pretende que alguns aspetos do acordo sejam melhor elaborados, sobretudo em relação à utilização no contexto da língua portuguesa de termos, expressões e nomes de origem africana”, sublinhou.

Segundo o escritor, que se diz um “ferrenho defensor do Acordo Ortográfico, “o Governo angolano não avançou ainda para a ratificação porque pretende que esses aspetos de vocabulário sejam revistos”.

O Acordo Ortográfico já foi ratificado pelos parlamentos nacionais do Brasil, Portugal, Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.

Em Moçambique, a norma aguarda ratificação pelo parlamento e em Angola não foi regulamentado a nenhum nível governamental.

O escritor também sublinhou que Angola ainda não entregou o seu Vocabulário Ortográfico Nacional (VON), no qual poderiam incluir esses termos nacionais mais específicos, que terá de ser incorporado ao Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) e que está a ser coordenado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).

“Na minha opinião pessoal, isso é uma coisa que tem que ser feita por nós (referindo-se ao VON de Angola). Não há mais ninguém que o possa fazer”, disse.

“Também acho que isso não impediria a observância do Acordo enquanto o VOC estivesse a ser elaborado”, sublinhou.

Até agora, foi feita a cedência ao IILP para integração no VOC os Vocabulários Ortográficos Nacionais de Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.

João Melo Referiu ainda que os adversários da nova norma ortográfica usam o facto de Angola ainda não ter ratificado o Acordo para reforçar as suas campanhas contra o mesmo, considerando isso uma “manipulação” dos factos.

A diretora executiva do IILP, Marisa Mendonça, disse que a questão da implementação do Acordo Ortográfico está a ser tratada “a nível nacional” e que “não há mais nada a falar sobre isso”.

Em relação ao Acordo Ortográfico, Murade Murargy, secretário executivo da CPLP, referiu que “tem de encontrar o seu espaço”, “respeitando a vontade dos seus povos”.

Murargy afirmou ainda que a Língua Portuguesa “é dinâmica” e “não estática”, e que não pode ser um elemento condicionante para a aproximação de outros países à CPLP, pois não se deve impor o português, mas este deve sim ser aceite pelo seu valor e beleza.

Durante as comemorações na sede da CPLP, também foi anunciado o vencedor do “Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa”, que foi entregue ao escritor português João Nuno Rodrigues Pacheco Guimarães Azambuja, com a obra “Era uma vez um Homem”.

CSR // EL – Lusa/fim
Foto de João Melo (África 21)
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