“A melhor evidência de que a política que se tem seguido até agora é a correta está nas escolas de referência”, disse o ex-presidente timorense, recordando o projeto que ele próprio impulsionou em 2008 e 2009.

“Este projeto deve ser ampliado aos subdistritos. As escolas de referências estão cheias, com filas à espera. E as crianças aprendem porque quem lá está são professores de qualidade, formados”, sublinhou.

Para Ramos-Horta, este é o modelo a adotar para o ensino paralelo do português e do tétum, as duas línguas oficiais, apostando na “qualidade do ensino” e na formação e capacitação crescente dos professores timorenses.

“Investindo-se mais nas escolas de referência, expandindo para os subdistritos, em mais 10 anos o português estará pelo menos em 50% da população, igual a Moçambique hoje. Em 1975, menos de 10% falavam portugueses em moçambique”, afirmou.

“E Moçambique está rodeado de países de língua inglesa, no entanto o inglês não dominou. E o português cresceu, resultado dos esforços de um Moçambique independente e soberano”, acrescentou.

Ramos-Horta recordou que esta foi uma decisão das autoridades moçambicanas, tomadas sem sequer o apoio de Portugal.

“E nunca houve sequer um debate em Moçambique sobre a vantagem do português ou não. Para eles era natural. É a língua neutral para todas as tribos e grupos étnicos. Por isso aprovaram e implementaram isso sem hesitação”, afirmou.

O ex-chefe de Estado falava à Lusa nas vésperas de o parlamento Nacional retomar, na segunda-feira, o debate da Apreciação Parlamentar sobre dois polémicos decretos curriculares do Governo, para o ensino pré-escolar e do ensino básico.

A Apreciação Parlamentar pretende cessar a vigência de dois diplomas que colocam o português como língua principal apenas no 3.º ciclo e introduzem o uso de outras línguas maternas timorenses, não oficiais, no ensino.

“Eu não concordo com os que dizem que o português não progrediu. Pelo contrário, se compararmos com 1999 ou 2000 em que provavelmente nem sequer um por cento dos timorenses falavam português, as estatísticas de 2010 apontavam a que 23% falavam português”, disse Ramos-Horta.

“A Guiné-Bissau, onde não houve qualquer interrupção (do ensino do português), a estimativa é que 30% falam português. E Timor-Leste em pouco menos de 10 anos já tem 20%”, disse.

Ramos Horta acrescentou que, mais do que em estatísticas, o progresso do português se pode ver pelo uso cada vez mais de palavras portuguesas – quando há equivalentes em tétum – em textos, documentos ou outras produções linguísticas, como cartazes.

“São frases supostamente em tétum, mas em que cada vez mais nenhuma palavra é tétum, é portuguesa. Ficou um português ‘timorizado’, o que revela que as pessoas que fazem estes cartazes, estes textos, já começam a pensar em português”, argumentou, considerando, por isso, que há uma infiltração muito grande do português no “dia a dia do vocabulário timorense”.

ASP // VM – Lusa/Fim

Fotos:

– Escola de referência em Dili, Timor Leste, 25 de julho de 2014. PAULO NOVAISLUSA

– Criancas da escola primaria de Lodudo assistem a uma aula de portugues. 08/08/2006. FOTO TIAGO PETINGA/LUSA

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