– Está de regresso a Portugal. Durante a semana passada, ficou a saber-se que o país vai recorrer à ajuda externa. Até que ponto é que os seus planos para o Instituto Camões (IC) podem ser colocados em causa?

Ana Paula Laborinho – Pode não ser completamente evidente, mas há uma grande continuidade ao nível da política externa, porque funciona uma triangulação entre o Governo, que tem essa responsabilidade, a Assembleia da República (AR), com a sua comissão dos Negócios Estrangeiros, e até a Presidência da República. Por isso, os negócios estrangeiros são algo de bastante articulado e dialogado com todos os parceiros. As propostas que são apresentadas inserem-se nos grandes eixos da política externa portuguesa. O que importa dizer, independentemente de ser eu ou outra pessoa, é que há uma generalizada consciência de que a língua portuguesa é um dos principais activos da estratégia nacional. Vários comentadores e investigadores têm indicado esse importante activo. Nesse sentido, há uma consciência generalizada de que importa reforçá-lo e sobretudo inseri-lo em grandes blocos de orientação da nossa política externa.

– E em que é que isso se traduz?

A.P.L. – Nós hoje em dia temos uma definição dos grandes blocos regionais de intervenção – à cabeça, naturalmente, está a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O plano de acção de Brasília foi subscrito e trabalhado em Março do ano passado, mas depois foi assinado pelos chefes de Estado em Julho, o que mostra como alguma coisa que foi primeiro negociada ao nível técnico-político tem também o aval dos chefes de Estado. O sentido fundamental é o de ser uma estratégia de intervenção comum. Por exemplo, os centros culturais e de línguas do IC estão abertos também como centro CPLP e isto tem um valor económico, porque temos consciência – e há muita investigação nesse sentido – de que os negócios na mesma língua tendem a ser mais fortes. Por isso, a língua portuguesa é um activo também importante no desenvolvimento das economias. O que é muito relevante é que essa consciência, que já existia naturalmente do lado de Portugal e do Brasil, Angola e todos os outros países também já a têm, daí que uma estratégia de língua não seja independente de uma estratégia económica. Desse ponto de vista, julgo que o que se está a passar em Portugal ainda vem reforçar mais a necessidade de uma intervenção a este nível.

– Mas em época de contenção, não teme reflexos na actividade do IC, até em termos de dotação orçamental?

A.P.L. – Vejo sempre estas coisas como desafios. Nós já tínhamos tido uma redução no início do ano – tivemos de nos adaptar –, mas isso também obrigou o próprio IC a ser mais rigoroso na definição das suas prioridades. Tivemos de fazer uma rigorosa avaliação de tudo o que tínhamos pelo mundo. Neste momento, temos cerca de 650 professores directamente do IC, temos depois mais 300 protocolos com instituições e coordenações em várias partes do mundo, o que dá uma rede total de cerca de 1500 professores. Naturalmente que temos de fazer uma avaliação muito rigorosa em cada um dos locais, qual foi a mais-valia que trouxe o curso, quais foram os resultados. Tenho apostado muito em duas vertentes: o planeamento e a avaliação. Por um lado, temos o nível das estratégias regionais. Como disse a primeira é a CPLP e há uma segunda, da maior importância para nós, que é o espaço ibero-americano numa conjugação de interesses com Espanha e abrangendo o espaço que também é muito tutelado pelo Brasil, aí numa intervenção conjunta com o Brasil. Depois, conhecendo esta zona, julgo que desse ponto de vista Portugal despertou relativamente tarde, mas neste momento tem bem consciência do que significa toda esta região da Ásia, em particular, a China, e do valor acrescentado que é Macau. Quando saí daqui, em 2002, havia três universidades na China onde se ensinava português – hoje há 17. Temos cada vez mais pedidos para envolvimento em projectos. Aquilo que nos é pedido é essencialmente o aconselhamento técnico. Não temos meios para responder a todas estas necessidades, colocando os professores todos que são necessários, mas quer a China quer Macau têm manifestado um grande interesse em que nós nos envolvamos através da avaliação da qualidade do ensino, da certificação, da selecção de professores, dos próprios programas de ensino. Há todo um trabalho técnico que dominamos enquanto IC e em que, de alguma maneira, não nos é pedido um contributo financeiro. Por outro lado, e isso satisfaz-me bastante, julgo que não somos o único actor no domínio da língua portuguesa: as próprias universidades portuguesas estão cada vez mais atentas à necessidade de cooperação. Há neste momento, por exemplo, várias pós-graduações conjuntas, a Universidade do Minho e a universidade de Xangai estão a desenvolver doutoramentos conjuntos, e isso é muitíssimo importante. No domínio da língua, conseguirmos desenvolver diplomas conjuntos com a China, é um passo muito grande para o desenvolvimento do português. Claro que sabemos que o interesse da China no português é um interesse muito económico, mas isso não nos deve desviar de contribuir também para que esse processo de aumento na China – e usando esta importantíssima plataforma de Macau – possa desenvolver-se. Por isso, quando me fala das dificuldades em Portugal, não as vou esconder, mas não deixo de considerar que muitas vezes podem transformar-se em desafio, no sentido de sermos ainda mais rigorosos na avaliação daquilo que são os nossos recursos e do que é a nossa presença em muitas universidades e escolas.

– E Macau?

A.P.L. – No caso concreto de Macau, e referindo-me até à minha passagem por aqui, os projectos que têm surgido, aquilo que nos é pedido do ponto de vista técnico, é efectivamente um grande desafio para as nossas competências e julgo que temos de avançar por aí, até em benefício da própria situação em Portugal.

– Disse – e parece-me ser consensual – que Portugal acordou tarde para Macau. Nota também uma diferença no sentido inverso, um maior interesse comparativamente com o que havia em 2002?

A.P.L. – Muitíssimo. Talvez seja esse o aspecto mais relevante que levo daqui. Tenho vindo cá praticamente todos os anos. E também porque a própria China deu indicações muito claras daquilo que significa a língua portuguesa.

– Mas já as deu em 2003.

A.P.L. – Acho que há neste momento uma consciência acrescida da importância e de como pode ser também uma mais-valia para Macau. Desse ponto de vista, estamos no momento certo para desenvolvermos projectos. Mas temos de ter a consciência de que entre a vontade e a realização pode haver um tempo. Há uma vontade, mas conseguirmos chegar a consensos quanto ao modo de a concretizar pode ser mais complexo – não tenhamos ilusões quanto a isso. Agora, a manifestação de interesse relativamente à oferta do português – que não seja apenas o cumprimento daquilo que está na Declaração Conjunta e na Lei Básica mas seja muito mais, de modo a que possa significar uma competência acrescida para a população de Macau –, é muito positiva, porque é completamente diferente pensar ‘estamos a cumprir porque temos de cumprir’ ou pensar ‘isto é uma mais-valia que pode servir a todos aqueles que aqui estiverem e que, ao terem esta competência, podem encontrar mais oportunidades de emprego, em termos de educação ter de facto uma possibilidade mais lata de formação’. Esse outro estádio é uma mudança imensa relativamente ao português.

– Fez referência ao facto de Macau poder ter um papel importante nestes tempos de crise em Portugal. A iniciativa privada portuguesa tem dado novos sinais por aqui nos últimos tempos. Como é que isto se deverá conjugar com a dimensão institucional?

A.P.L. – Parece que estou a falar muito de economia, mas cada vez mais as questões da língua estão ligadas à economia e essa consciência faz parte daqueles consensos generalizados de que a diplomacia económica e a diplomacia cultural devem articular-se, até ao nível do que são as tais intervenções nos blocos regionais. O caso particular de Macau insere-se muito nesta lógica de diversificação dos nossos mercados. Nós temos, por exemplo, um diálogo muito próximo com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal e fui podendo acompanhar quais eram os seus mercados de maior interesse. Às vezes, não é fácil para os empresários portugueses virem até Macau – é longe, não conhecem as modalidades de negócio, significa um investimento acrescido e muitas vezes uma escala a que não estão habituados. Mas, tendo em conta as dificuldades que têm, tem havido um crescimento. Nós sabíamos que a relação económica com a China era quase insignificante e a verdade é que cresceu muitíssimo nos últimos anos – para percentagens que ainda não são significativas, mas que já começam a indiciar que este é um mercado importante. Desse ponto de vista, a relação cultural e a relação através da língua são relevantes. Em Portugal, não temos infelizmente uma forma de trabalho que outros países têm, mas que julgo que a pouco e pouco se irá desenvolvendo. Muita da acção externa francesa é suportada por empresas. O Estado não tem meios para suportar grandes iniciativas, sobretudo ao nível da acção cultural.

– Mas não devia ser esse o caminho? É o modelo que a Alliance Française usa há já bastante tempo.

A.P.L. – Tem de ser. Não há outras soluções. Tem de se criar essa cultura junto das empresas de maneira a que elas percebam que há interesses mútuos. Noutros lugares isso já acontece, como o caso do nosso centro cultural em Luanda, que é a grande sala de visitas da capital angolana. A nossa programação é praticamente toda ela suportada por empresas portuguesas.

– E em Macau existe essa possibilidade?

A.P.L. – Acho que temos de a desenvolver, por isso sempre apostei muito no modelo do Instituto Português do Oriente (IPOR) enquanto participação também de empresas, e tive oportunidade de sublinhar isso na assembleia-geral. Aliás, houve uma recomendação para que fizéssemos em Lisboa um encontro com as empresas que participam no projecto do IPOR, para que não estejam ali apenas na perspectiva do contribuinte que faz porque está obrigado a isso, mas no sentido de como é também possível elas se enraizarem mais e terem uma imagem institucional, que é aquilo que noutros lugares se faz. Este é um trabalho a que nós vamos estando habituados, aqui talvez não acontecesse tanto, mas noutros lugares o IC é assim que já trabalha – é com a colaboração das empresas que nós conseguimos levar alguns grandes eventos a partes do mundo. O Estado deve ser essencialmente o organizador, aquele que põe em rede um conjunto de contactos para que depois as coisas possam acontecer. Mas é de todo impossível que seja o Estado a pagar grandes eventos.

– Quando esteve cá em Julho do ano passado, e falando agora sobre o IPOR, colocou a tónica sobretudo no ensino da língua. Por aquilo que já disse nesta sua estadia em Macau, noto agora uma adição da vertente cultural. Estou enganada?

A.P.L. – Não, não está, embora na altura eu já o pensasse e também acho que o sublinhei. O que disse, e continuarei a dizer, é que não queria pôr em termos percentuais… E até por estas oportunidades que foram agora abertas, o IPOR vai ter responsabilidades acrescidas, naturalmente sempre em colaboração estreita e por orientação do IC. Queria dizer que os professores do IPOR são avaliados como avaliamos os da nossa rede, a coordenação também já está ligada à nossa coordenação em Portugal. Houve aqui um trabalho que se desenvolveu ao longo dos últimos meses de inserção do IPOR no que respeita à língua na nossa rede de acompanhamento e de coordenação, de maneira a que aquilo que oferece possa ser futuramente sancionado pelo IC. Quanto à área cultural, não deixo de dizer que grande parte, a parte substancial da acção do IPOR tem de continuar a ser aí, até porque há muitos pedidos nesse domínio, mas o IC também é acção cultural. E para nós estarmos aqui representados pelo IPOR, então o IPOR tem de assumir essas duas vertentes. Muitas vezes, a vertente da acção cultural é mais a de pôr em rede agentes ou de proporcionar acções – não quer dizer que o IPOR venha a ter um orçamento acrescido para a acção cultural. O que quer dizer é que há um conjunto de iniciativas, como espero que venha a acontecer já este ano com a exposição do património de origem portuguesa que vamos trazer aqui a Macau, e naturalmente que quem tem de se ocupar da logística de tudo isto tem de ser o IPOR.

– Durante a sua estadia, disse que há um interesse do Governo de Macau em relação ao que pode ser o contributo do IC para as indústrias criativas. Na prática, no que é que poderá resultar?

A.P.L. – Em Lisboa, o IC também é um facilitador dos outros ministérios, nomeadamente do Ministério da Cultura (MC). Nós temos algumas acções próprias, mas as que podem ser mais importantes vêm do MC. Nos termos da sua lei orgânica, o IC tem um conselho estratégico, de que fazem parte vários ministérios, e o da Cultura tem assento. É um pouco nesse contexto que se prepara e sanciona o plano de actividades, no qual desenhamos acções que o MC quer levar a alguns lugares. Envolvemo-nos até financeiramente, mas são propostas do MC em que envolvemos a nossa rede local. E é um pouco isso que tem de se passar aqui. Há um conjunto de propostas e as indústrias culturais e criativas (ICC), neste momento, também têm um significado importante para Portugal. O estudo do Prof. Augusto Mateus veio demonstrar que já significam mais de três por cento do PIB, ou seja, mais do que a indústria têxtil. Até também do ponto de vista económico, cultura e economia começam a ter aqui uma ligação. Na medida em que é um tema muito caro a Macau, tanto quanto nos foi transmitido, temos alguma experiência e projectos inovadores – por exemplo, o Norte Criativo, as Incubadoras de Serralves… Há uma experiência que é também europeia. Acabou de ser publicado o livro verde das ICC na Europa e julgo que há aqui um espaço em que já temos alguma experiência nacional e internacional, mas que é um espaço também de cooperação em termos de projectos que podemos desenvolver. Temos de ter aqui os nossos agentes locais e o IPOR é esse agente para fazer esta ligação com as instituições em Portugal – não apenas com as do Governo, nós cada vez mais trabalhamos também com as instituições privadas. O projecto da exposição do património de origem portuguesa é da Fundação Calouste Gulbenkian, a que nos associámos, que vai ser inaugurada em Banguecoque, depois vai a Jacarta e a seguir virá para Macau. O que importa é que o IPOR possa também ser do ponto de vista cultural aquilo que temos noutros lugares do mundo, em que temos esse elemento que faz a ponte com diversas instituições de Portugal, sempre através do IC.

– Em Julho salientou uma maior necessidade de articulação com o IPOR. É um objectivo cumprido?

A.P.L. – Vamos aprofundar, mas julgo que foi conseguido. Neste momento, no IPOR os professores estão inseridos na nossa plataforma, têm de entregar os mesmos relatórios que todos os outros professores. Conseguimos ao longo deste ano uma maior articulação. E têm sido feitas recomendações, nomeadamente para que seja aqui usado o quadro de avaliação e responsabilidade, que é o que nós utilizamos, e que permite uma monitorização muito cerrada daquilo que são os objectivos. Por isso, estamos a aproximar-nos dessa capacidade de o IPOR usar as mesmas metodologias e que permitem um diálogo muito mais próximo. Queria sublinhar que, em sede de assembleia-geral, a Fundação Oriente referiu como benéfica esta aproximação entre o IPOR e o IC. Compreendo que, de alguma forma, era também uma falta do IC essa escassez de acompanhamento que existia e que agora progressivamente tem vindo a ser aumentado. Há uma comunicação que é quase diária, semanal, com o IPOR, sabendo quais são as suas dificuldades e procurando, em conjunto, responder a elas.

Isabel Castro

FONTE: Ponte Final Macau

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