Porto, 31 out 2021 (Lusa) – A cantora Lúcia de Carvalho é uma planta com “raiz angolana, caule português, flor brasileira”, assente em terra francesa. Do cruzamento de tudo isto, da sua “mestiçagem cultural”, nasce uma música que quer trazer luz.

“Acho que a minha música cruza várias coisas porque ela reflete quem eu sou, porque eu nasci em Angola, fiquei lá até aos seis anos, depois morei em Portugal até aos 12 e, de lá, fui adotada por uma mãe francesa. Desde então, vivo em França, onde fui introduzida à cultura brasileira desde os 16 anos, primeiro com a dança, percussão, depois o canto”, explicou a cantora à Lusa, durante a feira internacional de música Womex, que encerra hoje, no Porto.

O espaço da música na sua vida foi uma coisa que foi “descobrindo”, como tudo o resto.

Depois do EP “Ao Descobrir o Mundo”, lançado em 2011, veio o álbum de afirmação, “Kuzola”, em 2016.

“Kuzola”, que significa amor, em quimbundo, língua falada no noroeste de Angola, surgiu dessa busca.

Foi lançado com um documentário que retratava o regresso da cantora ao país onde nasceu, cerca de 30 anos depois de ter saído.

“Quando fui, depois de 30 anos, a Angola, estava muito entusiasmada de voltar para África, à espera que alguma coisa mudasse em mim, à procura de algo importante. Foi muito bom porque voltei a conectar-me com a minha terra, com família, com o meu pai, que já não via há muito tempo, mas, quando voltei, tinha a impressão que não tinha mudado nada de especial”, conta.

A resposta viria mais tarde: “Duas semanas depois, acordei com a imagem de uma flor. Uma flor com a raiz angolana, o caule era Portugal, a flor o Brasil, e a França é o chão que permitiu que tudo isso crescesse”.

“Só isso foi uma imagem muito importante, porque permite perceber e aceitar a mestiçagem que eu sou, aceitar que eu não sou 100% angolana, não sou francesa, não sou brasileira, a minha cultura é, realmente, uma mestiçagem”.

Agora, prepara-se para lançar “Pwanga”, o seu segundo álbum, para o qual contou com o apoio da produtora francesa Zamora.

“Neste novo álbum, há uma coisa que mudou bastante na minha vida: é que eu agora sou mãe de dois meninos – e ‘tem’ uma canção que fala dessa descoberta, da gravidez, das perguntas que surgem: de onde você vem, o que é que vai fazer de você, como é que a gente vai ser felizes juntos?”

Escreveu o texto durante a gravidez e pediu a um poeta angolano para traduzir e fazer uma versão em quimbundo, que resultou no tema “Saeli”.

Outra das histórias que entra neste novo projeto é uma demonstração de força de mulheres agricultoras de Mumanga, em Angola, que escreveram “um texto tão lindo, que deu vontade de colocar em música”.

O tema chama-se “Phowo”, que significa mulher, e nasceu de um projeto de uma amiga que foi a Angola trabalhar a autoestima dessas mulheres.

“Gostei desse texto. Tem uma força, tem uma doçura, tem uma afirmação natural de ser. Gostei dessa intensidade, dessa poderosa intensidade, mas suave”.

Para a composição, abdicou de algum do controlo que tinha tido no primeiro álbum.

O guitarrista, Edouard Heilbronn, que é também o seu companheiro, trata “da parte das guitarras, o baixo, as melodias”, enquanto Lúcia concebe “as ideias em torno da percussão”.

“Depois a gente fala junto, temos de negociar”, ri-se, antes de acrescentar “na vida, como no trabalho”.

“A sorte é que a gente consegue ter muito respeito e consegue acabar por deixar ir. Estamos ao serviço da música e quem influencia muito a música são os músicos que vão tocar. Nós tocamos o que sabemos, mas os músicos também colocam uma grande parte de criação”.

E foram vários, começando pelo percussionista brasileiro José Luís Nascimento, “que trabalhou com a Mayra Andrade, com o Tito Paris”.

Vieram também a Lisboa em busca de “uma influência mais angolana, tocada por angolanos”, razão pela qual contactaram Betinho Feijó, guitarrista do Bonga, que participou em duas canções, e trouxe consigo o percussionista Galiano Neto.

Do Brasil chegaram ainda as colaborações com a cantora Anna Tréa e com Chico César.

Em França, encontraram um grupo de música gospel e africana, que trouxe uma dimensão “importante” de coro.

“Acho que a voz, e a emoção que veicula a voz, é muito importante. Não é fácil achar, porque a minha música é muito rítmica. Esse pessoal aí fez um trabalho a nível da voz incrível”.

Com este álbum, “o objetivo primeiro, como alma que está morando neste corpo, é que muitas almas, muita gente, possa escutar e sentir a conexão, porque o álbum chama-se “Pwanga”, que significa luz”.

O nome do álbum veio de uma história da amiga que trabalhou com as mulheres de Mumanga, que, no final da viagem, “queria tirar uma fotografia com todo o mundo, mas, como ninguém sorria, ela perguntou ao tradutor o que tinha de fazer para as pessoas sorrirem”.

“Ele disse que tem de perguntar ‘pwanga ni pui?’, isso significa ‘luz ou escuridão?’”.

Lúcia de Carvalho esteve presente na feira internacional de música do mundo Womex, que termina hoje, mas teve, durante cinco dias, no Porto, mais de 200 stands e 60 artistas, com delegados de cerca de 100 países.

A edição deste ano, de acordo com a organização, mobilizou no Porto cerca de 2.600 profissionais. A próxima edição, em 2022, realizar-se-á em Lisboa.

ILYD // MAG – Lusa/Fim

Ver também:

Viagem musical lusófona de Lúcia de Carvalho apresentada em Paris

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