Lisboa, 13 dez (Lusa) – O não-pagamento das respetivas contribuições por parte de alguns Estados-membros da CPLP “atrasou a realização do orçamento” nos últimos dois anos, admitiu hoje à Lusa a secretária executiva da organização, Maria do Carmo Silveira.

Numa entrevista de balanço do seu mandato de dois anos à frente da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que termina em 31 de dezembro, sendo substituída pelo embaixador Francisco Ribeiro Telles, a secretária executiva disse que este “foi um período com algumas dificuldades, porque alguns Estados-membros enfrentam dificuldades financeiras e isto também se refletiu ao nível do funcionamento” da organização.

Maria do Carmo Silveira garantiu que o orçamento da CPLP não sofreu reduções ao longo destes dois últimos anos, mas “a sua realização é que conheceu alguns atrasos”.

Porém, disse acreditar que a situação é provisória e será superada em breve, “até porque é normal que um Estado que não tem condições de liquidar a sua contribuição num exercício económico possa fazê-lo no exercício seguinte. Não é a primeira vez que isto acontece”, afirmou, escusando-se, no entanto, a identificar os países em questão.

“Naturalmente que a escassez de recursos é uma realidade, hoje em dia, transversal a quase todas as organizações. Este não é um problema só da CPLP. Mas procurámos fazer omeletes com os ovos que tínhamos. E claro que no nosso caso as nossas atividades conheceram alguma limitação”, disse.

O orçamento da CPLP é composto essencialmente pelas contribuições dos seus Estados-membros e alguns não cumpriram o pagamento das suas contribuições, admitiu, não querendo, contudo referir quais os países em questão.

“A verdade é que fizemos aquilo que foi possível fazer e, no final, o balanço de tudo isso pode ser considerado positivo”, afirmou.

Por isso, disse, continua a afirmar que “a CPLP tem um enorme potencial”.

“Mas a CPLP é, em primeiro lugar, um espaço de concertação política e diplomática. Um fórum em que os nove Estados-membros podem, devem e têm-se concertado sobre as grandes questões da agenda internacional. E ao falarmos a uma só voz nos fóruns internacionais, fazemos valer a nossa voz coletiva e também engrandecemos cada um dos Estados-membros”, referiu.

O início do mandato de Maria do Carmo Silveira coincidiu com a adoção, na cimeira de chefes de estado da CPLP, de uma nova visão estratégica para a organização e também com a presidência rotativa do Brasil, que trouxe a agenda 2030 para o desenvolvimento e os objetivos do desenvolvimento sustentável.

“Portanto ao longo de dois anos fomos trabalhando um pouco nesta perspetiva de incorporar na agenda dos Estados-membros a questão da agenda 2030 para o desenvolvimento, por forma a que eles possam refleti-la nos seus programas de desenvolvimento”, acrescentou a responsável.

“Gostaria de ter feito mais e não fiz (…) em relação à cooperação económica e empresarial. Eu não escondo a minha insatisfação relativamente ao facto de não termos ido mais além, mas creio que o processo foi desencadeado, a confederação empresarial representativa do empresariado ao nível da CPLP, assumiu o desafio e creio que os governos vão ter de olhar para essas propostas”, referiu.

Nesta área, foram apresentadas medidas aos Estados-membros. “Esperemos que olhem para elas com toda a objetividade e criem essas condições para que o setor privado possa exercer o seu papel”, afirmou.

“Gostaria que ao longo do meu mandato que essas propostas (…) pudessem ter sido adotadas pelos Estados-membros. Infelizmente, não foram, mas estou convencida que vamos dar o tempo necessário para que os governos analisem as propostas e que possam encontrar as melhores soluções”, acrescentou.

A responsável disse que sai também com a convicção de que a CPLP é pouco conhecida e que precisa de fazer mais para se aproximar das pessoas e dar-se a conhecer.

No entanto, considerou que a CPLP entrou num novo ciclo, após a segunda década de existência.

“Temos uma nova visão estratégica que orienta para o reforço da cooperação nos três pilares da organização, alargando a sua atuação a outras áreas, designadamente a cooperação económico empresarial, a cooperação no domínio da energia, novas tecnologias”, referiu.

Após o fim do mandato, Maria do Carmo Silveira disse que regressa ao seu país, mas ainda não quis revelar para onde vai, dizendo apenas que está “disponível para continuar a participar no processo de desenvolvimento” de São Tomé e Príncipe.

A CPLP é composta por nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

ATR // VM – Lusa Fim
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