Luanda, 03 nov (Lusa) – O kimbundu é uma das sete línguas nacionais angolanas, que numa escola dos arredores de Luanda, as crianças vêm aprendendo, mas a peso histórico do português, língua oficial em Angola, não tem facilitado a tarefa aos professores.

O projeto é do Ministério da Educação e está em fase experimental, tendo o objetivo de inserir as línguas nacionais entre a primeira e a terceira classes do ensino primário, bem como a formar docentes.

Em Angola, há uma multiplicidade de línguas nacionais, que com a chegada dos colonizadores portugueses, no século XV, foram proibidas, sendo imposto o português como língua de civilização.

Bernardo Neto, natural do município de Calandula, província de Malanje, é um dos professores “emprestados” a esta empreitada no início deste ano letivo, numa escola do município de Viana.

Em declarações à agência Lusa, o professor explicou que não é linguista, mas tem o kimbundu como língua materna.

“Como não há professores estou a dar esta língua. Fizemos dois dias de seminário no magistério primário. E temos aqui um material muito interessante, que através dele vamos dando as nossas aulas”, explicou Bernardo Neto.

O professor não esconde as dificuldades para ensinar aos alunos o kimbundu. “Porque a geração de hoje dificilmente utiliza as línguas nacionais no seio familiar, mas com a nossa experiência e também por ser a minha língua materna tenho ultrapassado as dificuldades”, disse.

O fator ‘novidade’ para os alunos, explicou Bernardo Neto, também tem ajudado no aprendizado, igualmente facilitado pelos manuais existentes.

“No primeiro dia de aulas, elas [as crianças] aprenderam a frase ‘o aluno vai para a escola’, aquilo lhes cativou, e até no intervalo já não falavam mais a língua corrente, o português, repetiam isso várias vezes, todos encantados”, referiu.

Sublinhou que as aulas estão a ser dadas com autorização dos encarregados de educação, embora uns tivessem mostrado uma pequena resistência no início.

“Uns não queriam, alegando que eram da região umbundo, e os filhos tinham que aprender o umbundu. Mas conseguimos levá-los à razão. Enquanto estiver nesta região de Luanda tem que praticar o kimbundu e se um dia for para o Huambo também aí tinha que praticar o umbundu, se fosse para o Uíge o kikongo”, contou.

Sobre o assunto, o diretor do Instituto de Línguas Nacionais, José Pedro, recordou que Angola é um país plurilingue, onde coexistem várias línguas nacionais, maternas para a maioria da população e o português, adotado como língua oficial e de escolaridade após a independência a 11 de novembro de 1975.

Para o diretor, a independência trouxe muitas mudanças para as línguas nacionais, como o seu estatuto, por exemplo.

“Passaram de línguas indígenas para línguas nacionais. Tratou-se praticamente de uma libertação cultural. Mal se tornou independente, Angola, os angolanos e o seu Governo liderado pelo MPLA começou logo a pensar na alfabetização em línguas nacionais”, disse o responsável.

Em 1979, foi criado o Instituto Nacional de Línguas, a quem foi confiado o estudo aplicado das seis línguas nacionais de maior difusão, e, em 1980, foram criados os primeiros seis alfabetos em línguas nacionais.

Para José Pedro, Angola necessita de uma política linguística clara, que tenha em conta a sua realidade sociolinguística e ponha termo ao desequilíbrio linguístico.

“Há necessidade de se formular estratégias linguísticas que tenham em conta a necessária complementaridade entre a língua portuguesa e as línguas nacionais”, defendeu José Pedro.

NME // PJA

Lusa/Fim

Augusto Katyopololo, 97 anos, o soba dos sobas, já era rei no tempo colonial, continuou a sê-lo durante a guerra civil, fugiu de Savimbi e abraçou o MPLA, que o apresenta em posição elegível às próximas legislativas, Bailundo, Angola, 28 de agosto de 2008. HENRIQUE BOTEQUILHA/LUSA

Augusto Katyopololo, 97 anos, o soba dos sobas, já era rei no tempo colonial, continuou a sê-lo durante a guerra civil, fugiu de Savimbi e abraçou o MPLA, que o apresenta em posição elegível às próximas legislativas, Bailundo, Angola, 28 de agosto de 2008. HENRIQUE BOTEQUILHA/LUSA

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