O Século de Joanesburgo, semanário de maior difusão de língua Portuguesa em África e um dos mais antigos jornais totalmente em Português do Mundo, sentou-se com o atual coordenador do Ensino de Língua Portuguesa para a África Austral. Rui Azevedo, recebeu-nos amavelmente no seu gabinete na Embaixada de Portugal em Pretória, com a hospitalidade e abertura própria de um Português.

Num gabinete repleto de papéis, manuais, pastas e arquivos – um aspeto próprio de um local de muito trabalho – Rui Azevedo elucidou os leitores do Século de Joanesburgo sobre as certificações de Português, o custo ao Estado Português e outras questões relativas ao ensino da Língua de Camões não só na África do Sul, mas nos países vizinhos também.

Porque o Português é um trunfo e um tesouro, o Século interessou-se em saber o ponto da situação no ensino local daquela que é a quarta língua mais falada no Mundo. Isto, foi o que nos contou…

MG: O que é que um coordenador de ensino faz na África do Sul?

Rui Azevedo: Ora bem, o coordenador de ensino, em geral – eu falo de uma forma geral e depois particularizo – gere uma rede de professores, horários, escolas que têm. Essa é a sua função. E nessa gestão que o coordenador tem, está a colocação de professores nas escolas onde são necessários, a gestão anual de uma rede que se adequa sempre às realidades onde está inserida, ou seja, não é estanque. Está sempre a ser alterada em função das necessidades que vão surgindo.

Portanto, o coordenador de ensino tem essa responsabilidade. Obviamente por detrás de tudo isto, está uma parte administrativa pesada que é preciso gerir, a contabilidade mensal e anual, as coordenações de ensino têm que prestar contas ao Tribunal de Contas em Portugal, temos que inserir todas as contas numa plataforma que existe na Internet. É a parte burocrática.

A gestão da rede, essencialmente, não só do ensino primário e secundário, mas também superior. Nós neste momento temos na África do Sul 18 professores do básico e secundário e seis leitores. Só na África do Sul, o coordenador gere esse trabalho, é o interlocutor entre o Instituto Camões e os professores que estão aqui, é o interlocutor entre o Camões e as instituições de ensino e temos de gerir toda a rede.

Isto, de uma forma geral, é o que o coordenador de ensino faz aqui na África do Sul. Uma vez que não é um centro cultural e que não há um adido cultural na Embaixada, o coordenador de ensino acumula essa pasta da Cultura e por isso é que me veem organizar os eventos culturais da Embaixada e, na verdade, também da rede de ensino do Instituto Camões. Há, portanto, uma rede de atividades culturais a qual está sediada aqui na Embaixada, isso reflete a articulação que existe não só para as atividades culturais. Tudo é articulado com os nossos cônsules e a Embaixada.

MG: A Namíbia também faz parte?

RA: Sim. Esta coordenação de África abrange quatro paí-ses. Por uma questão de ordem prática, a coordenação está na África do Sul porque é onde existem mais professores, na Namíbia temos três professores da rede.

A minha coordenação abrange África do Sul, Namíbia, Suazilândia e o Zimbabwé. Inclui também o Botswana, onde não há professores da rede mas onde temos um leitor. O Botswana pertence geograficamente a esta Embaixada e faz parte da coordenação. Se bem que, legalmente, não faz parte desta rede, faz parte da coordenação de ensino por inerência de funções e pertencer à jurisdição desta Embaixada.

Na Namíbia, há três professores da rede e te mos… deixe-me ver, [levanta-se para ir à secretária buscar uma pasta] celebrámos um memorando de entendimento em 2011, efetivo em 2012, com o Ministério da Educação da Namíbia e, neste momento, temos 1850 alunos ao abrigo desse memorando de entendimento e 26 professores. Ou seja, para além dos três professores que existem da rede, temos 26 que são namibianos ou angolanos, que têm o nosso apoio, do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Pretória.

É preciso frisar, que temos uma Embaixada na Namíbia, que gere toda essa questão do memorando de entendimento e na verdade todos os países que coordeno, todos têm embaixadas ou uma representação diplomática.

O Zimbabwé tem um encarregado de negócios, a Namíbia tem uma embaixadora, a Suazilândia pertence a Maputo onde há um embaixador e eu tenho que gerir tudo isto e articular com todos estes diplomatas o meu trabalho. Tenho alguma autonomia mas há questões prévias que têm que ser discutidas com todos esses diplomatas.

Na Suazilândia temos dois professores e no Zimbabwé temos um. Todos estes países fazem parte da coordenação da África Austral e são países anglófonos, nos países lusófonos temos outras estruturas que não as coordenações.

MG: O seu tempo por cá está definido?

RA: Sim, tal como os professores e diplomatas aqui colocados, os coordenadores de ensino também estão em comissão de serviço. Estou na segunda comissão de serviço, em que cada uma tem três anos de duração, estou na segunda e terminarei a 31 de agosto de 2016 a segunda comissão e posso sempre ficar mais dois anos, de acordo com a lei. Pode-se ficar até oito anos em cada coordenação de ensino. Para já estou cá, a terminar a segunda comissão e não ponho de parte ficar mais dois anos.

MG: E está satisfeito?

RA: Estou! Gosto do que faço. Temos muitos desafios pela frente, todos os dias há desafios e questões ultrapassadas. Tirar um professor de uma escola e colocar noutra, porque vimos que há mais alunos não só lusodescendentes mas interessados no Português, então, isso dá trabalho mas também dá muito prazer. Eu gosto de gerir pessoas e todo esta “mecânica”. Eu próprio sou professor, estou no Instituto Camões desde 1997, portanto há 18 anos que estou no Camões e conheço muito bem o campo de trabalho.

MG: Dê-nos uma luz sobre o seu historial de trabalho.

RA: Estive em Portugal, onde dei aulas até 1997. Depois fui para Buenos Aires, na Argentina, onde fui leitor de Português e onde estava a formar professores de Português. E noutras províncias, porque o leitor daquela capital desloca-se a outras províncias do país e lá estive cinco anos.

Em seguida, fui para a Beira, em Moçambique, onde estive seis anos e meio, como leitor e coordenador do centro cultural de um polo de Maputo que existe na Beira. Estava também a formar professores na Universidade Pedagógica da Beira e a orientar estágios pedagógicos do ensino Secundário na Beira, Chimoio, Dondo. De 2004 a 2010, quando depois vim para a África do Sul.

O meu passado liga-se sempre ao Instituto Camões, ensino e na formação de professores de Português.

Para também elucidar, neste momento temos na África do Sul quatro Majors a funcionar que permitem a formação de profissionais da educação ou da tradução.

Na Wits temos a formação de tradutores e intérpretes, em Pretória a formação de professores, na Universidade da Cidade do Cabo temos um protocolo assinado este ano e que coloca a partir de janeiro 2016 um leitor no Major de Estudos Portugueses e na Durban University of Technology temos um professor do Camões e para o ano começamos o curso de Tradução Português-Inglês.

Obviamente, tudo isto tem uma sequência lógica, temos alunos no ensino básico e secundário para depois termos alunos no ensino superior.

MG: E ao todo, qual o universo docente?

RA: Ora…[pondera um pouco enquanto faz contas em voz alta] 24 professores, do Ensino Básico e Secundário. E ao todo temos oito leitores nesta região, porque aqui na África do Sul são seis leitores e um leitor no Botswana e outra na Namíbia.

MG: E qual é o universo discente?

RA: Ora alunos? [olha para cima e calcula] nós aqui na África do Sul temos no Ensino Básico e Secundário 2.200 alunos.

Estamos em 47 escolas, mas temos a particularidade de recebermos alunos de 171 escolas. Quisemos criar polos de ensino de Português onde há alunos lusodescendentes e onde há, claro, mais interesse na aprendizagem do idioma.

Do nosso universo de alunos apenas 48% são lusodescendentes, 52% não lusos. No entanto, desses 52%, 12% são lusófonos de Angola, Moçambique e alguns brasileiros. Portanto, se somar os 12 aos 48% dá 60%. O que significa que apenas 40% dos nossos alunos é que são não-lusófonos, o que é um número muito bom, não só para a região, mas fala também da importância do Português no Mundo.

Há também a particularidade de termos começado este ano um curso para o Ensino Secundário no Lesoto. Temos 50 alunos lá. Projeto piloto, mas para o ano temos a garantia da escola para duas vezes por semana e, portanto, mais carga horária o que possibilitará mais alunos.

E também 50 alunos na Protea Glen High School no Soweto.

No Ensino Superior, temos 350 alunos nas quatros Universidades onde estamos,  Wits, Cidade do Cabo, Pretória e Durban.

São cerca de 20 alunos da SADEC no Botswana, 60 alunos na Universidade.

Na Namíbia temos 120 alunos no Ensino Superior e lá já se formam professores de Português e, segundo dados que temos de lá, apontam para 1.600 alunos de Português neste momento e temos 277 alunos da rede Camões.

MG: Explique-nos em termos de certificações, quais são as opções dos alunos?

RA: Temos dois tipos de certificações. Na verdade três, porque estamos a esquecer na nossa conversa o público adulto.

Como sabe, celebrámos protocolos com as Aliance Française de Joanesburgo e de Harare, Zimbabwé.

A certificação para os adultos é dada pelo Centro Avaliação de Português Língua Estrangeira (CAPLE), da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O Camões criou há dois anos, uma certificação própria, coordenada pelos Ministérios da Educação e dos Negócios Estrangeiros, em Portugal e os nossos alunos da rede EPE (Ensino Português no Estrangeiro) podem fazer essa certificação.

Para além disso, a própria do país. Aqui, na África do Sul, os alunos que queiram fazer o exame da Matric, têm a certificação própria desse exame, que é reconhecida, tanto é que podem fazer cursos superiores em Portugal só com a certificação da Matric.

Na Namíbia temos um grupo de trabalho, que faz as certificações próprias que foram criadas de raiz e já estamos a preparar toda a documentação para os alunos do 12º ano namibianos realizarem os seus exames nacionais de Português.

Foto LUSA. 7 de outubro de 2004 EPA/JON HRUSA

Foto LUSA. 7 de outubro de 2004 EPA/JON HRUSA

MG: Em termos de manuais, como é que os alunos têm acesso a eles? Compram pela Internet, o Camões dá os manuais… explique-nos esse aspeto por favor.

RA: Há nalgumas coordenações, nomeadamente na Europa, o pagamento de propinas anuais. Aqui, há um regime de exceção. Nas coordenações com propinas, os manuais estão incluídos nela. E ao mesmo tempo, 100 euros incluem o manual e a certificação, o que significa que o valor da propina é muito simbólico.

Aqui, como não há pagamento de propinas, somos nós que encomendamos os manuais e que depois são entregues aos alunos. Os manuais são pagos pelos alunos e vêm de Portugal.

Português Língua Estrangeira para o Mundo, são duas editoras que são a Lidel e a Porto Editora.

MG: Há dificuldades ou problemas em lecionar com o novo Acordo Ortográfico?

RA: Não, nenhum. Os nossos manuais já vêm com o novo Acordo e os professores estão aptos e treinados em lecionar já mediante o novo Acordo Ortográfico.

MG: Os professores debatem-se com dificuldades que em casa o Português não é falado.

RA: Sim, veja a maioria dos alunos apenas fala Português nas escolas e na sala de aula, o que é muito pouco.

O Português é a língua de herança, seria suposto que um dos pais ou encarregado de educação falasse em casa, mesmo que o outro fale Inglês. Se desde início começar a ter esse contacto e o hábito de falar e ouvir, torna-se bilingue. Na maioria dos casos, os pais já não falam e depois o problema agrava-se.

Mas devo dizer, que hoje em dia, os encarregados de educação lusodescendentes estão mais atentos à necessidade que os alunos falem. É uma língua muito importante na região, porque é a quarta mais falada no Mundo, a terceira mais utilizada na Internet, enfim… [suspira e afirma] aprender Português só tem vantagens!

Este ano novo, 2016, a nossa prioridade é dar atenção à zona Sul de Joanesburgo e reestruturarmos essa área onde tínhamos escolas. Não só para chegarmos melhor à Comunidade Portuguesa mas também às outras Comunidades que querem aprender o Português.

Quando falo em reestruturação, é ver em que escolas têm mais alunos, onde vivem mais os portugueses e consoante as estatísticas adaptar as necessidades de ensino com o maior número de alunos. Exemplo: se numa escola há cinco alunos e noutra escola a 10 quilómetros há 25, tentamos falar com os alunos e pais, para migrar esses cinco para a outra escola. Para uma melhor eficiência e utilização dos recursos.

MG: Há muitas desistências?

RA: Temos sim, mas depende. Temos o Português integrado nas escolas e aí não há desistências, salvo raras exceções. Mas a maior parte dos cursos são opcionais, extra horários, aquilo que na África do Sul se designa por “extra murals” e então, temos que competir com o desporto essencialmente e outras atividades.

O nosso maior competidor são as outras disciplinas opcionais, especialmente as de cariz desportivo. Isso para lhe dizer que sim, começamos no terceiro período escolar a ter desistentes e no secundário, chega altura dos exames da Matric e muitos desistem, caso não façam o exame de Português da Matric.

Se também houvesse o pagamento de uma propina, um compromisso financeiro por parte dos encarregados de educação, se calhar não desistiam tanto também.

MG: Qual é o contributo do Estado Português para o Instituto Camões? Em termos de investimento anual?

RA: O Instituto Camões, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Governo, gastam um milhão de euros com a rede de ensino aqui na África do Sul, com esta coordenação para a África Austral. Orçamentos de coordenação, salários de professores – a fatia maior do orçamento, pagamento de ações de formação…

MG: Os professores, são pagos em euros? Moeda local?

RA: Os professores são pagos como quiserem. Se quiserem ser pagos em Portugal, de onde vem a maioria, são pagos lá porque mantêm a conta e a Caixa Geral de Depósitos – passo a publicidade – tem um sistema de cartões que não cobra taxas de levantamento. Há outros que preferem receber em moeda local, o ordenado é transferido para moeda local ao câmbio daquele dia.

MG: Tem algum problema em termos de recursos humanos? Desistências de professores?

RA: Temos sempre problemas desses. Nenhuma situação é estável, é eterna, tudo é efémero. Há professores que vêm com uma finalidade e resolvem voltar para Portugal. Neste momento, temos para 2016 quatro vagas. Duas para a África do Sul, uma na Suazilândia e outra no Zimbabwé.

MG: É tangível o sucesso do Camões? Os alunos têm proficiência? Para si, qual é e como define o sucesso do Camões?

RA: Sou muito exigente, mas também sou muito otimista e ao mesmo tempo realista. Por conseguinte, temos alunos muito bons. Recebi há dias um email da Embaixada da Dinamarca a felicitar-nos pela nossa aluna da Park Town Girls, Teresa dos Santos, ter completado lá um estágio curricular com sucesso.

São esses que nos orgulham e mostram resultados. Depois, os nossos leitores veem nas Universidades que os alunos que chegam para um nível avançado de Português, têm proficiência de língua, se não, não estariam lá!

Eu como sou muito exigente, ainda não consegui ter mais alunos de Português a falar mais e melhor, isto porque ainda temos poucos alunos a fazerem os exames de certificação. Mas porquê? Com as desistências, não estão preparados, mas de ano para ano, temos aumentado os exames de proficiência e são sempre animadores esses números.

MG: Em termos de desafios e dificuldades, o que é que um professor de português enfrenta na África do Sul?

RA: [responde prontamente] Nível de vida! Os professores não ganham assim tão bem quanto pensam. Está tudo tabelado e publicitado, é tudo transparente, portanto quem quiser consultar, esteja à vontade. Mas não chega! Um professor sozinho, consegue sobreviver. Por sorte, temos professores que são casais e esses sim, conseguem ter uma vida mais ou menos desafogada. Não é um “el dorado” trabalhar para fora, ganha-se para viver e não para guardar dinheiro ou fazer poupança. Do ponto de vista profissional, é muito gratificante e interessante. Ter várias realidades ao mesmo tempo, várias experiências que claro, enriquecem as pessoas.

MG: Em termos de apoio, os alunos têm leitura de Português? Como o Século de Joanesburgo?

RA: Claro que sim. Incentivamos os alunos a ler a imprensa periódica escrita portuguesa, não só local mas também de Portugal.

Mas durante o ano, o programa contempla leitura de obras e todos os anos concorremos ao concurso internacional de leitura, promovido em Portugal. Há dois anos, uma aluna nossa foi à final a Lisboa.

A partir do sexto ano de escolaridade até ao 12º ano, têm leituras no programa e são como que “obrigados” a ler obras em Português. Há um plano de leitura nas escolas e temos bibliotecas escolares que o Instituto Camões forneceu e itinerantes também.

MG: Sente o peso e a importância do Português no Mundo?

RA: Sim. Exemplo disso é a Namíbia. Que muito rapidamente, desde 2012, formou já professores e ao todo são já 26 namibianos a dar aulas, portanto há interesse!

Na África do Sul, nas empresas e para adultos há interesse crescente. Há memorandos de entendimento a serem negociados e na Suazilândia, em 2016, será aberto um leitorado de Português.

MG: Que conselho é que dá aos lusodescendentes e a quem quer aprender Português?

RA: Essencialmente aos pais e aos encarregados de educação, reservem um tempo das atividades escolares dos seus filhos, dos seus educandos para a Língua Portuguesa. Não sabem o bem que lhes estão a fazer. Porque o Português é uma língua de Futuro e está a ser já, concretamente aqui na região.

A minha palavra é para os encarregados de educação, já deixámos e já passou o tempo em que o Português era segregado e tinha menos importância e neste momento não. Não há que ter receios, pelo contrário. Tirem um tempinho a outra coisa qualquer, mas ponham os filhos e os educandos nas aulas de Português.

Para os alunos, que se esforcem e pensem sempre que o Português abre muitas, muitas portas. Principalmente, para aqueles a que o Português é uma língua de herança, é quase uma obrigação e por isso é que estamos todos empenhados, Embaixada, Coordenação e professores, para dar o nosso melhor a todos.

Rui Azevedo falou ao Século de Joanesburgo de forma simples, elucidativa e não se escusou a responder a nenhuma questão.

Mostrou dados e divulgou valores sem qualquer problema, para que a Comunidade Portuguesa possa estar a par do estado do ensino do Português neste país e na região. Afável e de fácil trato, Rui Azevedo transparece paixão não só pelo ensino e pelo seu trabalho, mas em particular pelo Português.

Fonte: Século de Joanesburgo
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