“Neste filme, e só para os amigos, Carlos do Carmo revela-se, o que me permitiu, como realizador, poder mostrar este mundo que ele não pôde a mostrar ao grande público, e só mostrava aos amigos”, disse Ivan Dias.

“É um filme de afetos, de amizades, quase lhe chamava um filme de Natal, porque é um filme da família, um filme de amor – eu diria que este é um filme de amor”, rematou o cineasta que realizou, entre outros, um documentário sobre o músico Joel Pina.

O filme é apresentado no domingo, às 18:00, como obra ainda não concluída, na homenagem ao fadista, no Cinema S. Jorge, em Lisboa.

O realizador disse, em declarações à Lusa, que “este era o momento mais brilhante, o momento de consagração” do cantor, pois “poucos artistas chegam aos 50 anos de carreira e também aos 50 anos de casamento com Judite”, de quem tem três filhos e vários netos.

Para Ivan Dias, esta é uma questão “essencial” e, à Lusa, afirmou que procurou “passar a ideia do afeto com que o Carlos vive com Judite e com os amigos”.

“Quando estávamos a mostrar o filme”, Carlos contou “17 beijos que dá a Judite”. “Eu não contabilizei. Agora, de facto, é um ritual que ele cumpre sempre antes de entrar em placo, antes de fazer qualquer coisa importante: olha para ver onde está Judite, dá-lhe um beijo na boca e sobe ao palco”, contou Ivan Dias.

Entre as descobertas deste filme, há uma gravação de “Carlos do Carmo aos 11 anos a cantar, com uma voz de cana rachada, baiões de Luiz Gonzaga, mas já com toda a ‘artistice’, e depois percebemos como esse rapaz vai estudar para a Suíça, volta para Portugal, o pai morre, ele fica com a gestão da casa de fados [o Faia] nas mãos – casa que tinha a grande Lucília do Carmo à frente -, e é uma sucessão de coisas que lhe aconteceram, que, de certeza, ele não teria pensado, nem os pais tinham pensado para a vida dele. Ele é levado quase pelo ADN para cantar o fado”, disse o cineasta.

A meio das filmagens surgiu a notícia do Grammy Latino de carreira, o que, para Ivan Dias, “de alguma maneira, ainda se tornou mais relevante”, o que o obrigou “a alterar a narrativa e incluir este prémio”.

Carlos do Carmo, criador de êxitos como “Canoas do Tejo” e “Os Putos”, disse à Lusa que Ivan Dias lhe quis oferecer este filme.

“O Ivan quis oferecer-me este filme. Há ano e meio ele disse-me: ‘Vou fazer o filme da sua vida, andou atrás de mim, foi a Toronto, a Madrid, ao Brasil, e foi filmando, filmando e fazendo uma retrospetiva, e fez este documentário que é muito cheio de afetividade – o que ele tem sobretudo é afetividade”, disse o fadista, que referiu que o realizador “andou a bater de porta em porta”, para conseguir os necessários apoios financeiros.

Embaixador da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, Carlos do Carmo realçou a importância deste tipo de documentários, que não foi possível fazer no passado.

“É indispensável, para a memória do futuro, para as pessoas saberem quem nós éramos, ao que andávamos, como era o nosso feitio, e depois têm os discos para ouvir”, rematou.

A estreia do documentário estava prevista para o dia de Natal, mas foi adiada para o próximo ano, por “questões levantadas pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) sobre direitos autorais”, disse à Lusa o representante da distribuidora cinematográfica NOS Saul Rafael.

O adiamento da estreia deve-se a questões de pagamento de direitos de autor, solicitados pela SPA, e que “são muito superiores ao somatório das receitas previstas de exploração”, prosseguiu.

Em causa estão músicas reproduzidas no documentário, interpretadas por Carlos do Carmo, e cuja inclusão implica o pagamento de direitos de autor aos seus criadores e, em alguns casos, aos seus herdeiros, explicou.

NL // MAG – Lusa/Fim

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