7 March 2021
Toda língua tem seus heróis e seus períodos heróicos, a Idade Média, por exemplo, na Inglaterra e Portugal, quando se afirmaram os respectivos vernáculos em processos históricos peculiares.

Dialeto ou dialética?

No caso dos ingleses, quando “o uso do francês nas transações oficiais entrou em franco declínio” (JOHNSON) com a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), e no caso dos portugueses com o surgimento do idioma específico ao espaço do território entrecruzado de reconquistadores e reconquistados. Dirigentes, diplomatas e eruditos continuaram a escrever em latim, mas paulatinamente se consolidou o idioma nacional falado e escrito pelos plebeus, para o que contribuiu o escritor medieval Chaucer que “acrescentou mais de mil palavras ao inglês” (Ibid.) manejando a linguagem popular e erudita.

Historicamente, mais relevante do que a norma culta – praticada por vezes na língua estrangeira ou condicionada pela relatinização renascentista – estabeleceu-se como demanda inescapável da formação das nacionalidades uma “`norma lingüística ideal´, que a todos se impõe e se torna importantíssimo instrumento de coesão social” (MELO). A partir do refinamento humanista no século XVI, a sofisticação estética verificada nas grandes obras literárias repercutiu normativamente na língua, cujo melhor exemplo é o de Camões, “o plasmador da língua portuguesa literária” (Ibid.).

É impossível falar nos dias de hoje no emprego idiomático corrente de uma norma culta, circunscrita à excelência e excepcionalidade de escritos que servem de referência ao emprego da língua. Porém, a vida social moderna se dá em torno da comunicação baseada na “norma lingüística ideal”, comum, uni ou multilíngüe conforme o país, desafiada por uma expansão do conhecimento que lhe exige, em contrapartida, precisão, concisão e objetividade, mesmo nos “dialetos” modernos das diversas áreas de atividade.

A norma lingüística se confunde com a educação, de onde decorre o preparo dos cidadãos para viverem em sociedade, cuja prosperidade depende da capacidade deles produzirem e consumirem bens, para o quê é necessário conhecimento, o qual precisa ser produzido por meio da pesquisa, que se remete novamente à educação, para fechar o círculo no ponto inicial da linguagem compreensível por todos, portanto comum e inevitavelmente correta na funcionalidade que dela se espera.

Não parece caber numa perspectiva admissível de vida em sociedade a aceitação sistêmica do erro, que no caso da língua implicaria na abdicação do dever de ensinar e do direito de aprender a “norma lingüística ideal”, comum, portanto, que assegura igualdade de oportunidades e participação a todos os indivíduos. Não é possível levar a sério a defesa desse erro, a menos que não estejamos tratando da perpetuação dos dialetos da deseducação por leniência, mas sim de uma dialética que oponha “cultos” e “incultos”, inverta-os no certo e errado a partir da responsabilidade de uns pelo não saber de outros e coloque todos na nova síntese de um nirvana ideológico hospedado no governo.

Em dias de novos significados para termos antigos, cabe perguntar se isso é republicano.

 

Sérgio Paulo Muniz Costa, *Historiador,  membro do CPE da UFJF, pesquisador de Segurança e Defesa do CEBRI e responsável pela Clio Consultoria Histórica. Foi Delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.

 

FONTE: Jornal do Brasil

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