No caso dos ingleses, quando “o uso do francês nas transações oficiais entrou em franco declínio” (JOHNSON) com a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), e no caso dos portugueses com o surgimento do idioma específico ao espaço do território entrecruzado de reconquistadores e reconquistados. Dirigentes, diplomatas e eruditos continuaram a escrever em latim, mas paulatinamente se consolidou o idioma nacional falado e escrito pelos plebeus, para o que contribuiu o escritor medieval Chaucer que “acrescentou mais de mil palavras ao inglês” (Ibid.) manejando a linguagem popular e erudita.

Historicamente, mais relevante do que a norma culta – praticada por vezes na língua estrangeira ou condicionada pela relatinização renascentista – estabeleceu-se como demanda inescapável da formação das nacionalidades uma “`norma lingüística ideal´, que a todos se impõe e se torna importantíssimo instrumento de coesão social” (MELO). A partir do refinamento humanista no século XVI, a sofisticação estética verificada nas grandes obras literárias repercutiu normativamente na língua, cujo melhor exemplo é o de Camões, “o plasmador da língua portuguesa literária” (Ibid.).

É impossível falar nos dias de hoje no emprego idiomático corrente de uma norma culta, circunscrita à excelência e excepcionalidade de escritos que servem de referência ao emprego da língua. Porém, a vida social moderna se dá em torno da comunicação baseada na “norma lingüística ideal”, comum, uni ou multilíngüe conforme o país, desafiada por uma expansão do conhecimento que lhe exige, em contrapartida, precisão, concisão e objetividade, mesmo nos “dialetos” modernos das diversas áreas de atividade.

A norma lingüística se confunde com a educação, de onde decorre o preparo dos cidadãos para viverem em sociedade, cuja prosperidade depende da capacidade deles produzirem e consumirem bens, para o quê é necessário conhecimento, o qual precisa ser produzido por meio da pesquisa, que se remete novamente à educação, para fechar o círculo no ponto inicial da linguagem compreensível por todos, portanto comum e inevitavelmente correta na funcionalidade que dela se espera.

Não parece caber numa perspectiva admissível de vida em sociedade a aceitação sistêmica do erro, que no caso da língua implicaria na abdicação do dever de ensinar e do direito de aprender a “norma lingüística ideal”, comum, portanto, que assegura igualdade de oportunidades e participação a todos os indivíduos. Não é possível levar a sério a defesa desse erro, a menos que não estejamos tratando da perpetuação dos dialetos da deseducação por leniência, mas sim de uma dialética que oponha “cultos” e “incultos”, inverta-os no certo e errado a partir da responsabilidade de uns pelo não saber de outros e coloque todos na nova síntese de um nirvana ideológico hospedado no governo.

Em dias de novos significados para termos antigos, cabe perguntar se isso é republicano.

 

Sérgio Paulo Muniz Costa, *Historiador,  membro do CPE da UFJF, pesquisador de Segurança e Defesa do CEBRI e responsável pela Clio Consultoria Histórica. Foi Delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.

 

FONTE: Jornal do Brasil

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