6 March 2021
Afonso Camões (D) troca impressões com José Pacheco Pereira momentos antes do debate " A língua Portuguesa na comunicação social" no âmbito da Conferência "A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília" na Academia das Ciências de Lisboa, em Lisboa, 31 de janeiro de 2013. JOAO RELVAS/LUSA

Desinvestimento na promoção do português no mundo

Macau, China, 07 mar (Lusa) – O historiador José Pacheco Pereira considerou hoje que é na língua e na literatura que a influência portuguesa “vai mais longe” e não pode ser substituída pela “diplomacia económica”, lamentando os “desinvestimentos” dos últimos anos.

“Desinvestimos no instituto Camões, desinvestiu-se nos leitorados das universidades. Substitui-se isso por uma certa ideia de que a diplomacia económica resolvia o problema da influência cultural. Não resolve, perdeu-se por um lado e perdeu-se por outro. É evidente que a diplomacia económica é importante, mas depende muito das conjunturas externas”, afirmou, dando como exemplo a crise em Angola, que é “gravíssima para Portugal”.

Para Pacheco Pereira, “Portugal, durante algum tempo, tentou (…) usar a língua como instrumento de influência económica, social, cultural”, impulsionando a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e tentando afirmar-se, por exemplo, como ponte entre a União Europeia e essas nações.

No entanto, a crise e “um certo desprezo pelas questões culturais nos últimos anos” levaram o país a “virar-se mais sobre si próprio” e a aceitar “a perda de importância do português em muitos países onde a língua portuguesa tinha cátedras” nas universidades ou onde era ensinado como primeiro idioma ou como língua estrangeira, considerou.

A “influência cultural é um fator muito relevante” para Portugal e a presença da língua e da literatura portuguesa no mundo é “um património que devia ser defendido de forma ativa”, insistiu.

Pacheco Pereira, que respondia a perguntas de jornalistas em Macau, considerou que a presença portuguesa neste território, como em outras partes do mundo, é “anacrónica num certo sentido”, o que “não tem mal nenhum” e “não é pejorativo”.

“Está presa a um momento histórico e sobrevive apenas pelo seu valor cultural e histórico”, afirmou, considerando que tem hoje “valor económico” e “a utilidade da diferença” e de “dar mundo”, do ponto de vista de Macau, que é desde 1999 uma região administrativa especial da China.

Sobre a China, considerou que “é uma experiência única”, por ser “um capitalismo com sucesso dirigido por um Partido Comunista”.

No entanto, a economia “necessariamente irá gerar tensões sobre o sistema político” e “mais cedo ou mais tarde esta solução não é sustentável”.

Para Pacheco Pereira, surgirão na China, a par do crescimento económico e do aumento da população urbana, reivindicações de direitos laborais e políticos por parte da classe média nascente.

“O crescimento económico não pode continuar indefinidamente sem mudar o modelo da sociedade”, sublinhou, considerando que ou a China encontra mecanismos (a nível sindical ou partidário, por exemplo) para canalizar a “conflitualidade social” que vai surgir ou, a prazo, nascerá uma “contradição entre o poder fechado e uma sociedade que à medida que cresce e se desenvolve precisa de ser aberta”.

Pacheco Pereira participa por estes dias no Festival Literário de Macau e deu hoje uma conferência na Universidade de Macau sobre a Europa.

A este respeito, disse aos jornalistas que a crise europeia levou a uma “degradação dos mecanismos democráticos” e a concentrar uma “parte importante dos poderes nacionais na burocracia de Bruxelas” e nos governos “que hoje mandam”, como é o caso do Governo alemão.

Mas a crise e a sua gestão levou também a “um tipo novo de contestação”, com os partidos “do poder” a perderem votos e a surgirem soluções de governo como a portuguesa ou o atual impasse espanhol.

As mudanças a este nível são “ainda muito iniciais”, mas não devem ser subestimadas, considerou.

“Começa a haver mudança no espetro político e essa mudança não se sabe para onde vai, mas que existem fatores de mudança, existem”, afirmou.

Pacheco Pereira considerou, por outro lado, “gravíssima” a crise dos refugiados e sublinhou “a responsabilidade” da Europa na sua origem, por ter “incentivado a guerra civil” em países como a Líbia ou a Síria “e depois saiu-lhe o Daesh” [o Estado Islâmico].

MP // VM – Lusa/Fim
Intervenção de Pacheco Pereira no painel "A língua Portuguesa na comunicação social" no âmbito da Conferência "A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília" na Academia das Ciências de Lisboa, em Lisboa, 31 de janeiro de 2013.

Intervenção de Pacheco Pereira no painel “A língua Portuguesa na comunicação social” no âmbito da Conferência “A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília” na Academia das Ciências de Lisboa, em Lisboa, 31 de janeiro de 2013.

 

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