O tesouro, localmente conhecido pela palavra portuguesa ‘regalia’, é composto por um capacete, dois colares com esferas, um cetro, entre outras peças, e encontra-se guardado numa caixa na casa da família de Miguel da Silva.

No século XVII, o rei de Sica, Dom Alexius Ximenes da Silva, desolado com a violência e o número de mortes na sua terra, viajou até Malaca, na Malásia, em busca da vida eterna, mas lá foi-lhe dito pelos governantes portugueses: “O lugar que procuras não existe neste mundo. Existe apenas no céu”.

Então, foi oferecido à família um tesouro, que conferiu à família um estatuto de hegemonia parcial em Sica e arredores e, mesmo durante a ocupação holandesa, a bandeira portuguesa foi ali hasteada.

Para ver o tesouro – prémio para a lealdade do rei de Sica a Portugal – a tradição obriga a um ritual que envolve mascar folhas de bétel, embora hoje em dia a prática seja oferecer dinheiro à família.

Óscar Pareira, cuja esposa é neta do rei de Sica, foi eleito presidente da recém-criada Congregação dos Familiares dos Reis das Flores, e é nessa qualidade que diz pretender solicitar apoio a Portugal para construir o museu.

“Eles têm de fazer um museu de família e não do governo”, até porque “o governo e a regência [de Sica] não têm dinheiro” para tal, acrescenta Óscar Pareira, que faz parte de uma cultura onde ser ‘branco’ ainda é sinónimo de posse de dinheiro, daí que muitos indonésios evitem o sol e a praia.

Na primeira reunião da Congregação dos Familiares dos Reis das Flores, há cerca de três meses, os participantes decidiram “fazer uma organização para instar o governo da Indonésia a ajudar as famílias” a preservar o património real, mas até agora não encontraram nenhum doador, lamenta.

Segundo o presidente da congregação, o projeto envolve a restauração de antigas casas dos reis das Flores e a proteção de “todas as regalias”, bem como a preservação da herança imaterial, através da organização de eventos culturais.

Óscar Pareira adianta que os planos incluem a construção de um “pequeno monumento” em frente à igreja da aldeia da Sica para lembrar o padre Le Cocq D’Armandville, que chegou às Flores no âmbito da evangelização portuguesa e que construiu aquela igreja em 1880.

Óscar Pareira, que descende de um soldado português, mostra-se empenhado em promover a herança lusa, em especial em “fazer uma festa mais bonita” em Sica na Semana Santa, à semelhança da de Larantuca, que atrai milhares de pessoas na Páscoa.

Em 1512 o capitão Francisco Serrão chegou às ilhas Molucas, ricas em especiarias, o ‘petróleo’ da altura, mas a procura de refúgio nas águas de Solor trouxe os mercadores e os missionários católicos portugueses também para a região das Flores.

Apesar de os portugueses terem sido os primeiros europeus na Indonésia – uma herança visível no património cultural, linguístico e religioso do país, em especial nas Flores, única ilha maioritariamente católica do arquipélago -, foram os holandeses que colonizaram o país.

Em 1851, o novo governador de Timor, Solor e Flores, Lima Lopes, com uma administração pobre, aceitou vender as Flores e as ilhas próximas por 200.000 florins (antiga moeda holandesa), sem consultar Lisboa, tendo sido demitido por isso, mas a decisão foi irrevogável.

AYN // PJA – Lusa/Fim

Foto: O livro sobre a tradição da vila, onde existem dados sobre a história dos portugueses nas Flores e fotografias de caravelas e do folclore luso, e ainda sobre o Toja Bobu, na ilha das Flores, Indonésia, 30 de dezembro de 2013. A Toja Bobu, que para além de dança, inclui canções, com recurso a flautas e tambores, é uma representação teatral inspirada nos autos medievais portugueses que no Natal percorre a aldeia de Sica, numa espécie de Carnaval, desde a casa abandonada do rei até à casa do padre. ANDREIA NOGUEIRA / LUSA

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