Desde o primeiro encontro civilizacional luso-timorense, cinco séculos atrás, com meio-milénio de interação e convivência cultural, o idioma de Camões consolidou-se parceiro inseparável do tétum no babel peculiar de Timor, estando ambos, hoje, consignados de bilinguidade oficial na primeira Constituição da RDTL, de maio de 2002.

Não exige especial reflexão afirmar o português como elemento nacionalitário e identitário do povo timorense. Trata-se de um espontâneo reconhecimento dessa realidade inegável que a cada instante salta aos nossos olhos – na expressão de todos os grupos etários, desde os mais pequeninos, os adolescentes, os jovens adultos, até aos mais velhos. Estamos perante uma cumplicidade que envolve o elo geracional perfeito por uma causa comum – a preservação dos valores primordiais da identidade e soberania nacionais.

Após a sua marginalização sistemática durante um quarto de século, a língua portuguesa está a ressurgir no seio do povo, entranhando irrevogavelmente na consciência nacionalista e patriótica dos timorenses. Nessa realidade, é preciso outro tipo de estatísticas, não a habitual numeração superficial que não vem da alma do povo. Esta estatística deturpa e engana. É preciso ir mais ao fundo da questão e sondar a alma timorense, o seu sentido de pertença e o seu sentido de unicidade.

Assim como, no nosso mundo atual, se urge a defesa da ecologia e suas espécies em risco, contra o expansionismo urbanista e os raciocínios de lucro material, querendo minimizar os amplos efeitos das já extintas espécies animais e florais; assim também, a bilinguidade oficial timorense em que o português joga um papel enriquecedor e modernizador do tétum – ao contrário do que costuma a acontecer em outros contextos nacionais com as suas línguas locais perante uma língua colonial –, constitui uma espécie única na ecologia linguística mundial.

Assim, urge não só aos timorenses mas por toda a humanidade através de instituições concernentes à diversidade cultural e linguística, acarinhar, proteger e promover uma tal espécie linguística. Nem é demais, pois, mesmo por isso, reclamarmos às autoridades soberanas de Timor-Leste que proponham à UNESCO o reconhecimento do estatuto de Património Imaterial da Humanidade à parceria linguística tétum-português e à sua bilinguidade oficial.

Que a CPLP, que celebra no próximo dia 17 de julho de 2021 o seu 25º aniversário, faça desse movimento também causa sua!

Benjamim de Araújo Corte-Real / 29 de junho de 2021

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Benjamim de Araújo Corte-Real

Benjamim de Araújo e Corte-Real, doutorado em Linguística pela Macquarie University em abril de 2000. Foi Reitor da UNTL (decénio 2001-2011); é Diretor do Instituto Nacional de Linguística (INL da UNTL) desde julho de 2001, Professor Auxiliar e docente permanente nas Faculdades de Direito e da Educação, Artes e Humanidades, e ainda no Mestrado de Ensino em Língua Portuguesa.

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