Macau, China, 16 out (Lusa) – O novo diretor do departamento de Português da Universidade de Macau, Yao Jingming, promete várias novidades, desde um centro de formação de professores, produção de material didático, planos de leitura a um centro de tradução.
“Estamos a trabalhar muito para tentar trazer algumas mudanças ao departamento de Português”, disse à Lusa o também poeta e tradutor, que assumiu o novo cargo em meados de agosto.
A lista de projetos acaba por se revelar extensa. O académico espera em breve pôr em funcionamento um centro de ensino e formação de professores, que trabalha em parceria com o Fórum Macau e com outras faculdades da Universidade de Macau (UM); uniformizou os manuais utilizados e está a trabalhar na criação, pela primeira vez, de materiais didáticos próprios; quer criar um centro de tradução que funcione com entidades externas à UM; e vai avançar com um plano de leitura lusófona que visa ser obrigatória aos alunos, entre outros projetos.
Yao explicou que o Centro de Ensino e Formação em Língua Chinesa e Portuguesa, além de pensado para servir os alunos do departamento, pretende oferecer formação a professores de Português locais e da China. “Muitos professores são jovens, não têm suficiente experiência, por isso precisam de formação”, disse.
O centro, que Yao espera que esteja a funcionar em 2017, será também vocacionado para o “apoio linguístico” a cursos profissionalizantes ou intensivos para alunos ou quadros de países lusófonos, quer de outras faculdades da UM, quer os ministrados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, conhecido como Fórum Macau.
Em relação aos materiais de ensino, já fez arrancar a produção de uma gramática de língua portuguesa, “tendo em conta as características dos alunos locais”, e um livro sobre cultura dos países lusófonos, sendo esta a primeira vez que o departamento o faz.
Tal é “muito importante”, já que os alunos “querem ter materiais sistemáticos, correntes, para estudar passo-a-passo”. Enquanto esta produção não é finalizada, foram já uniformizados os materiais didáticos, para quebrar com o padrão de “cada um ensina à sua maneira”.
Este é um dos pontos em que Yao concede que o facto de ser chinês – o primeiro a dirigir o departamento – pode ser uma mais-valia: “Se calhar, como chinês, conheço melhor as características dos alunos, a maneira de ser deles, as dificuldades que encontram. Para nós não é uma língua fácil de aprender. Por isso estamos a fazer algumas mudanças, a uniformização de programas, de materiais, porque assim os chineses conseguem estudar de forma mais sistemática. Tudo tem de estar claro, em vez de ‘Olha uma fotocópia, amanhã é outra fotocópia’. Isso causava alguma confusão”.
Em elaboração está também um plano de leitura que “se calhar vai ser uma coisa obrigatória” e inserida na avaliação contínua. “Cada aluno tem de ler um número determinado de títulos”, explica, indicando que a lista de obras está agora a ser elaborada.
Um autor que constará dalista é Eduardo Lourenço, que Yao já recomenda aos seus alunos de mestrado. “Através de qualquer livro dele vão ficar a conhecer muito mais, não só sobre a história, mas o pensamento e a maneira de ser dos portugueses”, disse.
O departamento de Português da UM tem atualmente 28 docentes e cerca de 500 alunos, e se a maioria ingressa tendo em vista um emprego na Função Pública, alguns tornam-se professores (alguns em universidades chinesas) e outros revelam “grande sensibilidade para a palavra”.
É a pensar nestes, mas não só, que Yao propõe ainda a criação de um núcleo de tradução. A ideia surgiu no seguimento de um projeto em que está envolvido, de tradução de clássicos da literatura em chinês e português, apoiado pelo Governo central da China.
As obras portuguesas, entre 16 ou 18, vão ser as primeiras a ser traduzidas, de autores como Camões, e Fernando Pessoa, mas também contemporâneos como António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto.
“Queria que o meu departamento ficasse envolvido neste projeto porque temos alunos de qualidade, com sensibilidade literária”, indica, considerando que esse seria um bom arranque para o centro de tradução.
Numa fase posterior, serão traduzidas obras chinesas para português, um “desafio ainda maior” já que “quase não há sinólogos em Portugal que possam assumir esse trabalho de tradução”.