São Tomé, 15 jul (Lusa) – O antigo Presidente de São Tomé e Príncipe Miguel Trovoada considera que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) nasceu no movimento global de luta de libertação contra Portugal e agora beneficia do modelo de colonização existente.

A criação da CPLP, há 20 anos, “é uma dinâmica que vem desde a luta de libertação. Os movimentos de libertação nacional, talvez inspirados naquele conceito global do português, entenderam também globalizar a luta de libertação”, recorda Miguel Trovoada, considerando que a génese da organização é a reunião em Casablanca, em 1961, da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesa.

Essa “dinâmica de colaboração fraterna traduziu-se na criação dos PALOP” (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), após a independência, seguindo-se depois a abertura a países como Brasil ou Portugal.

“A construção da CPLP faz-se todos os dias e aquilo que podemos considerar menos positivo deve constituir experiência de incentivo para que melhoremos tendo em conta os objetivos que almejamos”, afirma Trovoada, que era chefe de Estado quando a CPLP foi fundada, a 17 de julho de 1996.

Então, “não havia uma ideia muito consensual sobre que objetivos principais deveriam ser os da CPLP: Para uns era a defesa e a promoção da língua portuguesa, para outros era estreitar relações no sentido de promover o desenvolvimento de cada um dos países”, recorda.

“A tónica tem sido posta no setor empresarial”, mas o mais importante é que a “tónica da CPLP chegue ao cidadão comum”, com “iniciativas concretas” que envolvam as populações.

Miguel Trovoada compara a CPLP com outras organizações transnacionais como a Francofonia ou a Commonwealth, e reconhece que, nalguns casos, há “algum paternalismo” das antigas potências colonizadoras, enquanto na CPLP “há maior equilíbrio”.

“Creio que a especificidade da CPLP é haver essa comunhão de afetos, um passado que foi longo. A experiência da França em África não se compara com Portugal. Portugal esteve cinco séculos cá”, criando uma “cultura comum” e “elementos que são uma mais-valia e que são uma especificidade da lusofonia”.

A recente adesão da Guiné Equatorial foi criticada por muitas organizações da sociedade civil, que acusam o Presidente daquele país, Teodoro Obiang, de ser um ditador, suspeito de várias violações dos direitos humanos e democráticos.

No entanto, Miguel Trovoada minimiza as críticas: “Creio que essa rejeição, entre aspas, prende-se muito com alguma ideia que se tem do regime da Guiné Equatorial e acusa-se de não defender determinados valores da CPLP”.

Ora, defende, “esses valores existem na CPLP mas não são cumpridos de forma linear por todos os países” da organização.

“A questão dos direitos do homem, a questão da boa governação, se formos a escrutinar os países da CPLP há muito que se diga”, acrescentou, considerando que a inclusão política da Guiné Equatorial na organização pode ajudar a resolver alguns problemas.

“O que se pretende é que nesse convívio haja uma melhoria no conjunto. Que aqueles que hoje pertencem à CPLP possam beneficiar dessa dinâmica de nova promoção de valores democráticos, respeito dos direitos do homem no seu conjunto. Há diferenças entre regimes, mas a ostracização não é o melhor método”, concluiu.

Integram a CPLP Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

 

PJA // VM

Lusa/Fim

 

close
Subscreva as nossas informações
Partilhar