6 March 2021
Um guarda-presidencial junto do Palácio Presidencial com bandeiras de paises de lingua portuguesa, em Dili, Timor-Leste, 22 de julho de 2014. Dili recebe a X conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP. PAULO NOVAIS/LUSA

CPLP/20 anos: É preciso sair do papel e chegar aos cidadãos

Luanda, 12 jul (Lusa) – A jornalista e analista angolana Luísa Rogério defendeu que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) “precisa de sair do papel” para “se impor como uma comunidade de povos” com algo mais em comum do que a língua.

Em entrevista à Lusa, a propósito dos 20 anos de existência da CPLP, a antiga secretária-geral do Sindicato de Jornalistas Angolanos considerou que aquela organização terá ficado “um pouco aquém” dos objetivos iniciais.

Mesmo ao nível da divulgação, Luísa Rogério frisou que são poucas as pessoas informadas sobre a CPLP e com perceção do seu significado.

“E não estamos a falar de pessoas que não têm informação”, afirmou.

A analista angolana e também vice-presidente da Federação Africana de Jornalistas, recorda que a CPLP persegue diferentes fins, mas tem-se manifestado maioritariamente a nível político, com a realização das cimeiras de chefes de Estado e reuniões a nível da área jurídica.

Defendeu que a questão da livre circulação entre os Estados-membros é um dos exemplos do fraco impacto das políticas da organização para o cidadão comum.

“Não consigo compreender como é que eu, cidadã angolana, faço parte de um bloco da CPLP, para ir a Portugal preciso fazer muita ginástica para poder obter um visto e vice-versa. Em contrapartida, Portugal vai à África do Sul e nem sequer precisa de visto”, assinalou.

A jornalista disse só ver benefícios eventualmente a nível dos Estados e dos Governos, em termos de cooperação efetiva, que não passam para o cidadão comum.

Numa analogia, exemplificou a integração na Comunidade Económica dos Estados na África Ocidental (CEDEAO), em que o cidadão cabo-verdiano vai ao Senegal, à Nigéria sem visto nem passaporte, apenas com o bilhete de identidade.

“Estamos no mesmo continente, mas em contrapartida para um cabo-verdiano vir a Angola tem imensos problemas, eu lembro-me que há uns dois anos fizemos uma reunião em Maputo, no âmbito da federação dos jornalistas da língua portuguesa, e que o colega de Cabo Verde não foi porque simplesmente ele que tinha que passar por Luanda e não conseguiu um visto de trânsito em tempo útil”, citou.

“De que CPLP estamos a falar? De que políticas estamos a falar, quando não há entrosamento, integração, circulação, não vou dizer em termos de supressão de visto, mas em encontrar mecanismos viáveis”, criticou a jornalista.

“Para ver que não é um bloco tão homogéneo, nem sequer temos acordo relativamente à própria língua, o Acordo Ortográfico”, realçou.

A maior circulação de produtos culturais nos últimos anos entre os Estados-membros, nomeadamente de Angola para Portugal e vice-versa, pode ser, disse Luísa Rogério, um resultado positivo, mesmo que de forma indireta, da comunidade lusófona.

Já sobre a adesão da Guiné Equatorial à CPLP, admitiu ter sido “um bocadinho esquisita”, defendendo que deveria ter sido explicada devidamente aos membros, aos cidadãos.

A CPLP foi criada a 17 de julho de 1996, com vista ao reforço dos laços de amizade e de cooperação dos Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

NME // VM – Lusa/Fim

 

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