5 March 2021
Professora Inocência Mata, Inocência Mata, que nasceu em São Tomé e Príncipe e passou a infância e adolescência em Angola

CPLP/20 anos: Aproximação cultural entre países não aconteceu

Lisboa, 17 jul (Lusa) – Personalidades ligadas à cultura lamentam que as trocas culturais entre os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sejam hoje tão incipientes como há 20 anos, quando a organização foi criada.

“Não vejo que tenha havido qualquer incremento do ponto de vista da aproximação [cultural] entre os países e entre os agentes que trabalham” a cultura, disse a professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Inocência Mata, numa entrevista à Lusa a propósito dos 20 anos da organização lusófona, que se assinalam hoje.

Prevista nos estatutos da organização como um dos seus objetivos gerais, a cooperação cultural entre os Estados-membros até pode ter aumentado a nível institucional, admite a especialista em estudos pós-coloniais, mas não “do ponto de vista do cidadão que lida com a cultura”.

Em questões “tão importantes e tão básicas” como a circulação de agentes culturais e de bens culturais, “continua tudo na mesma: Um desconhecimento, uma dificuldade em se conseguir que aquilo que é publicado num país” chegue aos restantes, lamentou a professora, nascida em São Tomé e Príncipe.

O poeta, historiador e diplomata brasileiro Alberto da Costa e Silva, de 85 anos, recorda que durante “muitas décadas”, havia uma aproximação literária maior entre, pelo menos, Portugal e Brasil, dando o exemplo do crítico literário português João Gaspar Simões, que fazia críticas de livros brasileiros nos jornais do Brasil” nos anos a seguir ao final da II Guerra Mundial.

Ressalvando que não tem acompanhado as atividades da CPLP na área da cultura, descreveu uma história das relações entre Portugal e Brasil marcada por ciclos de “grande intimidade” intercalados com “momentos de relativo afastamento”.

Se no passado um livro que “era publicado no Brasil tinha ressonância dos dois lados do Atlântico”, hoje é necessário publicá-lo também em Portugal para que tal aconteça, diagnosticou o também historiador, que se tem dedicado sobretudo à história de África.

Alberto da Costa e Silva fez um paralelo com a relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido, que têm uma longa aliança, que “não precisa de texto escrito, que é a aliança da mesma língua”, e na qual os britânicos se julgam em casa nos Estados Unidos e vice-versa.

Ainda hoje, descreveu, quase metade dos trabalhos publicados em jornais de cultura dos dois países anglófonos se referem a temas de outros países de língua inglesa.

O escritor e fundador da associação cultural angolana Chá de Caxinde, Jacques dos Santos, lamentou que os “fenómenos culturais interessantes” que Angola viveu nos últimos anos não se tenham “disseminado pelos restantes países de língua portuguesa”.

Reconheceu que a música angolana fez sucesso em Portugal e noutros países da CPLP, mas afirmou que “há outras áreas, como as artes plásticas ou o teatro, em que o sucesso poderia ser mais ativo e a troca de experiências muito mais ativa e mais constante”.

Na literatura, por exemplo, lamentou que a divulgação se circunscreva “a meia dúzia de autores”.

“São quase sempre as mesmas figuras que, ao longo dos anos, surgem no patamar mais elevado e pouco conhecimento se tem dos outros autores dos outros países da lusofonia”, disse o fundador da editora Edições CC – Chá de Caxinde.

Para Jacques dos Santos, as trocas culturais que existem são feitas com base no “amiguismo” porque existem impedimentos ou constrangimentos que impedem a divulgação cultural entre os países.

Inocência Mata exemplificou com as limitações alfandegárias e com as restrições à circulação de pessoas.

“Permitam que eu possa comprar, vivendo em Portugal, um livro em Angola e não depender da generosidade e da boa vontade de amigos ou familiares”, disse a investigadora.

Acrescentou que há pessoas que não conseguem participar em eventos culturais devido às políticas de vistos: “É compreensível que uma pessoa que seja convidada para um evento científico seja obrigada a declarar quanto dinheiro tem no banco?”.

Questionados sobre as medidas que a CPLP pode tomar para melhorar a cooperação cultural entre os Estados-membros, Inocência Mata pediu políticas que permitam a circulação de bens culturais e de agentes culturais.

Jacques dos Santos foi mais longe e pediu um mecenas da cultura dos países de língua portuguesa: “O mecenas tem de ser a CPLP. Ela própria tem de estar munida dos argumentos económicos e financeiros necessários para que possamos, num futuro próximo dizer que ‘estamos juntos’ (…) na cultura”.

FPA/ANYN // VM- Lusa/Fim

 

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