Redação, 16 jul (Lusa) – Artistas lusófonos saúdam a ideia de Cabo Verde de criar um mercado comum de arte e cultura lusófono, mas alertam para algumas barreiras, como a questão dos vistos.

José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e vice-presidente do Grupo Europeu de Sociedades de Autores e Compositores (GESAC), apontou como “muito positivo” o anúncio feito pelo primeiro-ministro cabo-verdiano.

Ulisses Correia e Silva anunciou em outubro do ano passado a ideia de criar um mercado de arte e cultura lusófono, que “assegure a mobilidade de pessoas e a criação de efetivos espaços de mercado” na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

“Saudamos a declaração do primeiro-ministro de Cabo Verde e tudo iremos fazer (…) no sentido que o trabalho criativo lusófono tenha crescente e merecido reconhecimento internacional e capacidade de atrair novos públicos para a constatação do que somos e valemos também em português”, garantiu o responsável.

José Jorge Letria acrescentou que a SPA está “empenhada na criação da Confederação Lusófona de Sociedades de Autores” e assegurou que “tudo tem feito tudo e continuará a fazer no sentido de que os criadores do espaço lusófono vejam alargadas as suas possibilidades de trabalho e de cooperação, o que é fundamental para sua subsistência e para a afirmação do seu potencial criativo neste mundo complexo e global”.

Por seu lado, o presidente da Sociedade Cabo-verdiana de Autores (SOCA), Daniel Spínola, disse que tem “enorme expetativa” em relação à ideia, mas lembrou que há muito tempo que vem falando nisso, tendo apresentado uma proposta idêntica numa conferência sobre a lusofonia, realizada no Brasil, em 2008.

Em declarações à Lusa, o líder associativo cabo-verdiano considerou que é preciso a realização de mais atividades, como feiras de livros e encontros de escritores, para a divulgação de livros e escritores e melhorar o relacionamento entre artistas de todos os países lusófonos.

O presidente da SOCA propôs ainda a criação de condições para que os livros e escritores da comunidade tenham o mesmo tratamento e divulgação, bem como a criação de redes de distribuição de produtos culturais, através do media.

Outra ideia que Dany Spínola gostaria de ser concretizada no seio da CPLP é a criação de bolsas de estudo para levar os membros a conhecerem a realidade das comunidades.

“Já fizemos estas propostas há muito tempo. Esperamos que se concretizem agora e com Cabo Verde na presidência [da CPLP] e ponto de partida para essas e outras propostas”, perspetivou, defendendo que deve haver equidade na CPLP na área cultural.

Os artistas angolanos queixam-se da falta de intercâmbio e solidariedade no domínio da cultura na CPLP e defendem “frente única”, sobretudo no domínio das sociedades de direitos de autor.

Em declarações à Lusa, o presidente da União Nacional dos Artistas e Compositores – Sociedade de Autores (UNAC-SA) de Angola, Massano Júnior, referiu que “gostaria ter maior solidariedade com os países da CPLP” e defendeu “maior eficácia” no domínio da ação cultural da organização.

“A frente única que a que me refiro era encontrar a maior solidariedade possível dos países de língua portuguesa junto da CPLP para que houvesse uma intervenção junto da sociedade de autores”, disse.

Por seu lado, o académico e musico moçambicano do grupo K10, Rufus Maculuve, referiu que para a ideia do mercado comum funcionar “primeiro teria de ultrapassar algumas barreiras político-administrativas, principalmente a questão do visto”.

“Talvez se existisse um visto especial para os artistas. Tem de haver um mecanismo que torne a circulação mais fácil. Mas também devem ser criadas estruturas para dar valência aos mercados menos fortes, porque se estamos a falar da CPLP há países que por alguma razão ou outra poderão ficar com alguma hegemonia em relação aos outros”, defendeu.

O também músico moçambicano Stewart Sukuma saudou a iniciativa, mas alertou que “irão surgir desafios ao longo deste processo”.

“Sempre achei a cultura uma garantia para o desenvolvimento socioeconómico, não só por si, mas também através de outras áreas como o turismo, disse, considerando que “esse recurso, aliado à mobilidade cultural nos países membros da CPLP, só pode criar vantagens no futuro”.

O cineasta guineense Flora Gomes considerou que “a ideia é boa e é de louvar e apoiar, visto que é das raras vezes que as autoridades” dos países lusófonos estão a dar apoio a esta área “que é tão marginal, mas que é a alma de todos os povos do mundo”.

“É uma ideia extraordinária. Os criadores têm grande dificuldade em movimentar-se. Os mais novos, músicos e pintores, têm dificuldade em ir a um país tão próximo como, por exemplo, Cabo Verde, sem falar de Portugal e Brasil”, considerou.

Flora Gomes defendeu que a criação deste mercado comum “poderia ajudar um país frágil” como a Guiné-Bissau, nomeadamente na ‘exportação’ da sua cultura.

Cabo Verde acolhe, na terça e na quarta-feira, na ilha do Sal, a XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, cimeira que marca o arranque da presidência cabo-verdiana da organização nos próximos dois anos, que terá como lema “Cultura, pessoas e oceanos”.

NL/RYPE/DYAS/EYAC/MB/VM // VM – Lusa/Fim

Foto: “A jovem cantora cabo-verdiana Sara Alhinho, 17 setembro 2013, Cidade da Praia, Cabo Verde. JOSE SOUSA DIAS/LUSA

close
Subscreva as nossas informações
Partilhar