26 February 2021
Sob o tema “Que política para a língua portuguesa?”, realizou-se ontem a conferência inaugural do 1º Ciclo de Conferências do Observatório da Língua Portuguesa.

Conferência inaugural do 1º Ciclo de Conferências do Observatório da Língua Portuguesa

Intervieram nesta sessão, e na presença do Eng. Álvaro Pinto Ribeiro, presidente da Fundação Cidade de Lisboa,  o Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, como presidente e moderador, o Prof.Carlos Reis, conferencista,  e o jornalista José Carlos de Vasconcelos, como comentador.

Eugénio Anacoreta Correia, explicitando os objetivos deste Ciclo de Conferências e fazendo a apresentação dos intervenientes, disse:

Quero começar por agradecer a presença de todos nesta sessão de abertura do 1º Ciclo de Conferências promovido pelo Observatório da Língua Portuguesa.

Na vossa participação encontramos, o Conselho de Administração do Observatório e eu próprio, uma gratificante e animadora resposta para as interrogações que nos assaltaram quando decidimos assumir esta acção.

Com efeito, não ignoramos que são muito numerosas as realizações que, de uma forma ou de outra, constituem momentos de enriquecimento da reflexão sobre a nossa língua e o seu futuro, e que, por esse motivo, a nossa iniciativa poderia correr o risco de ser apenas mais uma igual a tantas outras.

Porém e, não obstante o receio decorrente dessa constatação, decidimos avançar com a organização deste Ciclo motivados por três  considerações  fundamentais:

A primeira decorre do desejo de ampliarmos o debate que iniciámos há precisamente um ano com a apresentação do nosso Sítio na internet. Sendo crescente a internacionalização da actividade do Observatório, afigura-se-nos que os desafios e responsabilidades que ela impõe só serão consistentemente abordados e correspondidos se fundarmos a nossa acção num alargado universo de parcerias e apoios. Este Ciclo tem em vista esse objectivo.

A segunda razão advém da nossa actuação de observatório que verificando o estatuto e a projecção da Língua Portuguesa no Mundo, conclui que eles (projecção e estatuto) são – e são cada vez mais – tributários da existência de uma política da Língua, que promova a sua internacionalização e potencie seu valor económico. Exactamente os temas das três conferências deste Ciclo que pretendemos fossem abordados em perspectivas complementares por quem se ocupa destas matérias na Universidade, na política, em empresa e na comunicação social.

Finalmente, a terceira motivação está associada à convicção de que a sociedade civil não pode ficar à margem da II Conferência Internacional sobre a Língua Portuguesa no Sistema Mundial que decorrerá em Lisboa daqui a um ano.

Mais que outro, esse será o momento indicado para contribuirmos para a avaliação do grau de implementação já alcançado do Plano de Acção de Brasília, do empenhamento de cada um dos nossos Países, da CPLP e principalmente do IILP na concretização dos compromissos assumidos e nas tarefas que a cada um foram cometidas em 2010. Essa é, igualmente, a ocasião para sugerir novas abordagens e novas estratégias visando uma afirmação que tarda a ser realidade.

E para que tudo isso suceda, é necessário iniciar, desde já, a preparação dessa participação da sociedade civil que se pretende seja substantiva.

Estas três intenções induziram a nossa decisão que encontrou no entusiasmo do Dr. José Carlos Vasconcelos, na sua aceitação de comissionar este Ciclo e de comentar a sessão de hoje, um estímulo muito determinante.

Idêntico ânimo recebemos da parte dos restantes intervenientes (conferencistas, moderadores e comentadores das diferentes temas) que, de imediato, aderiram ao desafio que o Observatório lhes propôs.

A todos quero manifestar, de forma muito reconhecida, gratidão pelo valioso contributo que dão a este Ciclo,  partilhando connosco a sua reflexão, a sua experiência e as suas expectativas sobre a crescente afirmação universal da Língua Portuguesa.

Desejo também agradecer à Fundação Cidade de Lisboa, na pessoa do seu Presidente, Eng.º Álvaro Pinto Correia, a disponibilização destas magníficas instalações para a realização de mais uma das nossas actividades. Permitam-me que refira que me é muito grato que o Observatório desenvolva a sua acção a partir desta Casa idealizada e levantada por Nuno Abecassis para ser, tal como a UCCLA o tem sido, uma   instituição que participa diariamente, de forma relevante e empenhada, na construção da Lusofonia.

Pretendo, ainda manifestar o melhor reconhecimento ao Banco BIC que patrocina este Ciclo, à Promethean, ao Jornal de Letras e ao Sapo.pt que connosco se associaram em parceria nesta realização.

A sessão desta tarde tem como conferencista o Professor Carlos Reis que deu à sua intervenção o título seguinte: “Para uma política de língua articulada. Agentes, instrumentos e cenários”.

Associado ao pensamento e à proposta de novas abordagens que contribuam para consagrar o Português como uma língua estratégica de comunicação internacional, é muito justamente reconhecido como uma das mais eminentes autoridades nesta matéria, sendo frequentemente citado em seminários e conferências dedicados a esse tema.

Desde a sua fundação em 2009, o Observatório da Língua Portuguesa tem recebido do Professor Carlos Reis uma relevante colaboração que fica hoje enriquecida com o facto de se ter deslocado do Brasil – de onde chegou esta manhã – para inaugurar este nosso Ciclo de Conferências. Não tenho outras palavras para lhe agradecer esta amiga disponibilidade que não seja com um sentido e muito português Bem haja!

É preciso transformar o poder da Língua em língua de poder


O Prof. Carlos Reis (ver nota curricular), na que foi a intervenção principal desta sessão, refletiu acerca de orientações estratégicas, de intervenientes qualificados e de obstáculos que se levantam a uma política de internacionalização da língua portuguesa.

Referiu a importância da ação do Estado como dinamizador da política de língua, com base em princípios fundamentais: o da relativa coesão de um idioma compartilhado por vários países e povos, cuja diversidade deve ser respeitada; o da solidariedade estratégica entre esses países, tendo em atenção que a todos interessa uma língua com vigor  internacional; o da afirmação da língua como poder transnacional que dinamiza outros poderes, que não apenas o linguístico.

No caso português, considerou o conferencista que o Instituto Camões deveria ser dirigido por personalidade sem vinculação partidária.

Falando do documento “Plano de Ação de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projeção da Língua Portuguesa” que a VIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa reunida em Luanda, a 23 de julho de 2010, decidiu implementar, disse que se tratava de um texto muito genérico e pouco vinculativo de entidades e prazos de execução. Rematou, dizendo que é necessário haver um comprometimento dos objetivos com as realizações.

Referindo-o ao IILP fez notar que, sendo cientifica e socialmente louvável o interesse pelas línguas maternas e pelo estudo da diversidade linguistica nos países da CPLP , este Instituto devia, no entanto, centrar a sua atividade e energia na promoção internacional da Língua Portuguesa. O IILP é o Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

Por fim, analisou temas potencialmente melindrosos,   que condicionam muito do que se quiser fazer em matéria de política de internacionalização da língua portuguesa: a vontade política, a imagem do Brasil e a lusofonia (termo e conceito).

Concluiu, dizendo que era preciso transformar o poder da Língua em Língua de poder.

Seguiu-se a intervenção do comentador José Carlos de Vasconcelos (ver nota curricular) que, em síntese, se referiu à importância da Língua Portuguesa como património de enorme valor, tendo considerado que deveria ser criada uma entidade, transversal aos organismos de poder, que congregue pessoas e instituições para refletir e propor medidas com vista à valorização do estatuto da Língua Portuguesa no mundo. Referiu também o papel de serviço que a RTP Internacional e RTP África exercem em favor da imagem do português.

Os subsequentes comentários deste jornalista e poeta constituiram, então, um magnífico ponto de partida para o diálogo que se estabeleceu com a plateia, tendo-se registado diversas intervenções sobre questões relevantes relacionadas com o anteriormente exposto.

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