Estávamos as três sentadas à mesa de um concorrido restaurante do centro de São Paulo e conversávamos animadamente com a natural alegria de amigas que se reencontram após algum tempo sem se verem, quando de repente a nossa atenção foi atirada para um inusitado friso a nossa frente: cinco mesas ao lado umas das outras ocupadas cada uma por uma pessoa, todas sentadas na mesma direcção, exactamente um homem, uma mulher, um homem, uma mulher, um homem, todos almoçando sozinhos, cada um acompanhado de um livro, que ia lendo enquanto saboreava a refeição.

Instintivamente começamos a falar do estilo de vida moderno, das relações entre as pessoas, do casamento, de ter filhos, que é bom ter, e também de não os ter em determinadas circunstâncias, quando uma das minhas amigas, cujo marido parece estar a atravessar uma crise da meia idade, afirmou categoricamente que era o complexo 46. Estranhei, pois ele já passava dos cinquenta e, perante a minha surpresa, a minha amiga explicou que não, 46 não era a idade dele, é sim um óptimo remédio para a prisão de ventre, assunto que, entretanto, atravessara a nossa conversa. O complexo 46 é um remédio para a obstipação, diz a minha amiga que é casada com um médico e tem o prontuário na ponta da língua: risotomia percutânea óptima para a hérnia discal com um pós operatório rápido e sucesso garantido; gingobiloba, para problemas de memória; complexo 46, para obstipação; e para cada doença a que fazíamos referência (reumatismo, diabete, osteoporoso), lá debitava ela com a certeza e a rapidez de um raio o remédio mais apropriado.

Entretanto, no friso de mesas à nossa frente já não havia ninguém e os restantes comensais começavam a abandonar a sala, enquanto nós continuávamos a tagarelar e a rir animadamente, sendo que na nossa conversa as crises de meia idade misturavam-se alegremente com gingobiloba e a obstipação com as múltiplas frentes que a mulher tem hoje em dia de fazer face.

Quando constatamos que não havia mais ninguém na sala, resolvemos debandar: as duas para uma reunião de trabalho, e eu em direção à farmácia mais próxima para comprar… o complexo 46, obviamente!

São Paulo, abril de 2012

 

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Vera Duarte

Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina nasceu em Mindelo, S. Vicente, Cabo Verde. É Juíza Desembargadora, poeta e escritora, formada em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Membro das Academias Cabo-verdiana de Letras, de Ciências de Lisboa, Gloriense de Letras. Foi Ministra de Educação Ensino Superior, Presidente Comissão Nacional Direitos Humanos e Cidadania, Conselheira do Presidente da República e Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça. Integrou organizações como Centro Norte-Sul Conselho d`Europa, Comissão Internacional Juristas, Comissão Africana Direitos do Homem e Povos, Associação Mulheres Juristas e Federação Internacional de Mulheres de Carreira Jurídica. Recebeu várias condecorações É poeta e autora de vários romances.
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