“Acho que Macau também tem de adoptar o novo Acordo Ortográfico. A adopção é irreversível.” É assim, de modo cabal, que o linguista Malaca Casteleiro, o mais importante académico português na adopção do novo Acordo, se refere à posição que o território deve tomar. “A questão tem estado um pouco numa certa incerteza, porque Portugal não adoptou [a norma] ao mesmo tempo que o Brasil. Deviam ter adoptado simultaneamente e procurado, pela via política, convencer os outros países a adoptarem, porque é em prol da língua portuguesa”, defende Malaca Casteleiro em entrevista ao PONTO FINAL, depois de mais uma palestra da 15ª edição dos Colóquios da Lusofonia, que decorrem até sexta-feira no Instituto Politécnico de Macau.
O académico dá o exemplo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que nas actas das reuniões tinha de usar “dois textos, um conforme uma ortografia e outro conforme a outra”. “Tenho sempre o cuidado, quando falo dos países de língua portuguesa, de referir também a RAEM, na qual a língua portuguesa é língua oficial”, refere Malaca Casteleiro, presença habitual na RAEM desde a década de 1980.
O linguista destaca a importância da nova norma para a aprendizagem do idioma, também em Macau: “Se pensarmos bem, do ponto de vista da aprendizagem a nível da iniciação, é muito mais fácil para um aluno aprender a escrever ‘director’ sem ‘c’ e ‘óptimo’ sem ‘p’, porque são consoantes que ele não articula, porque estão longe da realidade fonética, da realidade da pronúncia”. Explica Malaca que “um aluno, tanto mais estrangeiro, não tem presente a origem da palavra, nem os alunos portugueses”. E recorre mesmo ao seu exemplo de aluno para exemplificar aquilo que vê como uma dificuldade. “No primeiro ano do primeiro ciclo, começam a aprender português e vem a palavra ‘óptimo’. Lembro-me muito bem quando aprendi porque é que ‘óptimo’ se escrevia com ‘p’: porque no latim tinha ‘p’. Mas a criança não sabe latim, é um contra-senso”.
Malaca Casteleiro adita que “a nossa ortografia é muito próxima da pronúncia, ao contrário do inglês” e que já foram suprimidas ao longo da história da língua portuguesa muitas consoantes mudas. “Já escrevemos ‘fructo’, escrevemos ‘victoria’, escrevemos ‘anecdota’. Depois temos ‘contrato’. ‘Contrato’ no latim tinha ‘c’ e já se eliminou. Mas ainda há muita oscilação. Uma palavra como ‘prática’: se formos à Internet por ‘práctica’, há milhares de entradas escritas com ‘c’. Isso gera confusão”, refere.
Por isso Malaca Casteleiro vê a supressão das consoantes não articuladas como “uma medida que vai no sentido de facilitar a aprendizagem do português”.
Evanildo Beshara falou aos presentes para dizer que “uma reforma ortográfica nunca é para a geração que a faz” e referiu que 2011 é um ano marcante, já que assinala o centenário da primeira reforma ortográfica em Portugal, pouco depois da implantação da República.

Galiza ali perto

Concha Rousio, da Academia Galega de Língua Portuguesa, falou da proximidade do galego com a língua portuguesa e do “erro” que foi o afastamento que se deu durante o século passado. A académica analisou vários discursos que mostram uma vontade de reaproximar as duas partes.
Desde as centrais sindicais da Galiza que defendem a oferta do português nos currículos escolares da Galiza, à abertura do primeiro centro de ensino da língua de Camões da Universidade Aberta na Galiza, Concha Rousio analisou este como “o momento mais importante da mudança linguística na Galiza”, com uma nova consciencialização da proximidade que existe entre o idioma galego e o português.
Hoje os Colóquios da Lusofonia prosseguem, com uma sessão de poesia no Jardim de Camões e um passeio pela cidade, percorrendo o roteiro do escritor Henrique de Senna Fernandes, cravado nos seus livros.

“Instituições devem avançar”

Já é sabido que o Instituto Português do Oriente e a Escola Portuguesa de Macau estão a preparar a adopção da nova norma ortográfica para este ano. Agora, uma conferência que terá lugar no Instituto Politécnico de Macau, na próxima terça-feira, pelas 17h, vai debater a questão de como implementar o Acordo. “Acho que as instituições deviam realmente tomar a iniciativa de adoptar o novo Acordo Ortográfico. O Governo não tem implicações de maior”, defende Malaca Casteleiro, que estará presente na sessão. “O Acordo prevê respeitar o que está escrito. Nas ruas, nos nomes das empresas, não se prevê a necessidade de alterar. Só os manuais ligados ao ensino da língua portuguesa é que naturalmente hão-de ser alterados com o término da validade da edição”, acrescenta. Até porque, refere o académico, a literatura e outras obras publicadas “poderão ser lidas mesmo com ortografia não actualizada”. “Tal como agora lemos autores dos século XVIII e XIX que não estão segundo a nossa ortografia. Lemo-los sem problemas”, remata.

Hélder Beja

FONTE: Ponto Final

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