1 March 2021
O Théâtre Traversière, em Paris, acolheu ontem Carmen Souza, a cantora que a revista francesa "Les Inrocks" etiquetou como "uma Ella Fitzgerald de Cabo Verde".

Carmen Souza levou “jazz crioulo” a Paris

Carmen Souza é filha de cabo-verdianos e canta em crioulo, mas nasceu em Lisboa, vive em Londres e foi fora de Cabo Verde que se tornou numa das vozes do que ela própria admite poder chamar-se de “jazz crioulo”.

Para o concerto de Paris, integrado na digressão do sexto álbum “Live at Lagny Jazz Festival”, a cantora levou um universo de jazz contemporâneo misturado com os ritmos tradicionais cabo-verdianos, como o batuque, a morna, o Colá San Jon e o funaná.

“É interessante ver a evolução da nova música de Cabo Verde que é feita pelos filhos da diáspora. Isso traz outras influências porque todos crescemos fora de Cabo Verde, mas sempre com Cabo Verde em mente. Então, a música cabo-verdiana tem estado a evoluir para o jazz crioulo, para o bossa crioulo mas, ao mesmo tempo, está tudo dentro da lusofonia”, disse a cantora à Lusa, no final do concerto.

O disco “Live at Lagny Jazz Festival” foi gravado em outubro do ano passado, no festival de jazz de Lagny sur Marne, nos arredores de Paris, retomando temas dos discos anteriores como “Afri Ka”, um hino às suas raízes, “Donna Lee”, tema original de Charlie Parker revisitado em crioulo, “My Favorite Things”, a canção do filme “Música no Coração”, levada para o jazz por John Coltrane, ou o famoso “Sodade” de Cesária Évora.

“É um ‘Sodade’ quase com influências jazz. É como se eu tivesse agarrado no ‘Sodade’ e o tivesse levado para Nova Iorque, para um ‘club’ tipo ‘Village Vanguard’ e, se calhar, tivesse um Brad Mehldau a tocar, ou um trio de jazz”, descreveu.

A digressão de “Live at Lagny Jazz Festival”, que começou em janeiro e termina em dezembro, já levou Carmen Souza aos Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Espanha, Turquia e França, estando ainda previstos concertos na Suécia, Alemanha, Estónia, Malásia e um regresso a Paris a 14 e 15 de outubro.

“O público francês é muito quente, leva-nos quase ao colo, tenho tido concertos espetaculares”, contou Carmen, que ofereceu ao público parisiense uma nova versão do clássico francês popularizado por Édith Piaff “Sous le Ciel de Paris”.

Carmen cresceu em Almada, no seio de uma família cabo-verdiana, começou a cantar num grupo de gospel aos 17 anos e conheceu o músico Theo Pas’cal, com quem iniciou uma colaboração que se alinhou ao longo dos seis discos.

O primeiro disco, “Esse ê nha Cabo Verde” (2005), anunciava o encontro do jazz com os ritmos de Cabo Verde, tando-se seguido “Verdade” (2008), “Protegid” (2008), “Kachupada” (2012) e “London Acoustic set” (2011/2012), o primeiro disco gravado ao vivo em duo com Theo Pas’cal. O próximo álbum é lançado em 2015.

“Chama-se “Carmen Souza e Theo Pas’cal”, é o assumir de algo que já acontece há 13 anos porque estas composições são todas nossas. É um novo passo porque vou estar a assumir os pianos todos e vou estar muito mais como instrumentista, claro que utilizando sempre a voz e a voz é outro instrumento para voar”, completou.

CAYB // SO – Lusa/fim

Foto LUSA: Carmen Souza a atuar no 22º Festival Feminino de Cáceres. 10 de maio de 2013. EPA/ESTEBAN MARTINENA

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