Gravura de 1888 com uma alegoria à visão medieval da máquina do Mundo.

A busca das fontes que Camões terá usado na composição de “Os Lusíadas” tem apaixonado várias gerações de camonianos. Julga-se ter identificado com alguma segurança a História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda, e o chamado Roteiro da Viagem de Vasco da Gama. Mas ficam de fora as fontes que o poeta possa ter consultado para estudar os fenómenos naturais e astronómicos que refere com tanta precisão ao longo do poema.

 

É bem conhecida, por exemplo, a referência ao fogo-de-santelmo no Canto V,

Vi, claramente visto, o lume vivo

Que a marítima gente tem por santo» (V, 18)

É bem conhecida também, a descrição da tromba de água,

Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava): levantar-se
No ar um vaporzinho e sutil fumo (V, 19)

e sabe-se, por comparação de conteúdos, que poderia ter sido baseada no Roteiro de Lisboa a Goa de D. João de Castro, só mais tarde publicado, mas de que devem ter corrido cópias manuscritas nos tempos de Camões. E é verdade que o poeta, tendo singrado os mares, pode ter usado directamente a sua experiência e observação, como aliás o dá repetidamente a entender.

Visão geocêntrica, herdada de Ptolomeu, numa gravura da «Crónica de Nuremberga» de 1493

Quando descreve alguns fenómenos astronómicos, Camões não pode, contudo, ter-se baseado apenas na sua experiência nem em leituras secundárias. «Nem me falta na vida honesto estudo», diz quase no fim do Poema, «com longa esperiencia misturado» (X, 154). A precisão com que fala da «grande máquina do Mundo» (X, 80) e se refere repetidamente a difíceis conceitos astronómicos indica ter-se baseado no «honesto estudo» da cosmologia da época.

Luciano Pereira da Silva (1864–1926) foi o primeiro a analisar sistematicamente as referências astronómicas do Poema. Num trabalho clássico, publicado primeiramente entre 1913 e 1915 na Revista da Universidade de Coimbra e depois editado em separata com o título A Astronomia de ‘Os Lusíadas’, em 1915, este professor de matemática de Coimbra mostra que «Camões tinha um conhecimento claro e seguro dos princípios fundamentais da astronomia, como ela se professava no seu tempo». E conclui que o Poeta deve ter estudado as “Theoricae novae planetarum de Jorge Purbáquio (1423–1461), obra que veio a lume em 1460 e teve larga difusão pela Europa. Em Portugal, a obra de Purbáquio chegou, nomeadamente, através de tradução e comentário que Pedro Nunes (1502–1578) fez incluir no seu Tratado da Sphera de 1537.

O estudo de Luciano Pereira da Silva esteve esgotado durante muitos anos. Foi reeditado em 1972, mas essa edição também se esgotou. Encontra-se integralmente reproduzido no sítio do Centro Virtual Camões.

Ao referir a cosmologia de Camões, é frequente perguntar-se qual seria a sua posição sobre Nicolau Copérnico (1473–1543), uma vez que a polémica entre os partidários do sistema heliocêntrico proposto por este astrónomo polaco e os defensores do sistema geocêntrico então aceite viria a marcar toda a cosmologia da época seguinte. A verdade, contudo, é que o trabalho de Copérnico veio a lume em 1543 e apenas meia dúzia de astrónomos da época o leram e discutiram. Pedro Nunes, por exemplo, refere-se-lhe marginalmente em algumas passagens das suas obras, mas sempre como hipótese geométrica explicativa do movimento dos astros. A polémica só se iniciaria no século seguinte. Em 1600 Giordano Bruno (1548–1600), que tinha abraçado a tese de Copérnico na sua defesa da pluralidade e infinidade dos mundos, é condenado pela Igreja e queimado na fogueira. Em 1610 Galileu Galilei (1564–1642) inventa o telescópio e mostra pelas suas observações que a teoria geocêntrica de Ptolomeu não era compatível com as fases de Vénus que então observa. A verdadeira polémica entre o velho e o novo sistema do mundo só se inicia depois destes eventos e, sobretudo, depois do julgamento e condenação de Galileu pela Igreja, em 1633.

Gravura do «Atlas Coelestis» de Andreas Cellarius, Amesterdão 1661

Nos tempos de Camões, Copérnico não aparecia tão ideologicamente marcado como o veio posteriormente a estar. É provável que o poeta não tivesse conhecimento da sua teoria e, mesmo que o tivesse, é quase certo que não a visse como algo que pusesse em causa a imobilidade da Terra, mas apenas, tal como tantos cosmógrafos da altura, como um mecanismo geométrico alternativo para cálculo das posições dos astros.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a cosmografia ptolomaica não é simples e defrontou-se, ao longo dos séculos, com problemas para que foram encontradas soluções progressivamente mais sofisticadas. A interpretação de Purbáquio representa um culminar da cosmologia geocêntrica e atinge uma complexidade que poucos podiam dominar. É pois surpreendente que, na descrição da «grande máquina do Mundo», Camões revele um conhecimento tão aprofundado desta cosmologia.

Não é só no Canto X, com a descrição da «vários orbes», que Camões revela o seu domínio da astronomia. “Os Lusíadas”, estão salpicados de referências eruditas, mas saborosas. Somos convidados a observar as constelações, a ver «de Cassiopeia a fermosura» e «do Orionte o gesto turbulento» (X, 88). Vemos a Lua, «o Planeta que no céu primeiro / Habita», marcar com rigor o tempo da viagem de Vasco da Gama através das suas fases: «agora meio rosto, agora inteiro» (V, 24). Ouvimos falar do «novo instrumento do astrolábio» (V, 25) e sabemos ter a armada abandonado os trópicos por «ter de todo já passado / Do semicapro Pexe a grande meta» (V, 27), ou seja, por ter chegado a sul do Trópico de Capricórnio.

É impossível ler e compreender as múltiplas referências celestes de Camões sem perceber um pouco de astronomia antiga. E seria impossível a Camões escrever o que escreveu se não tivesse um domínio muito completo da difícil cosmologia da época.

Nuno Crato, Ciência em Portugal

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