Aos 76 anos, Fernando Silva continua a ser o responsável pelo bamboar e pelo repicar dos sinos do Mosteiro de Tibães, em Braga, teimando em manter viva uma tradição que está a morrer aos poucos, vítima da automatização das igrejas.

“Isto tocado à mão tem outro som, outro paladar. Não há nada como ser à mão”, refere, com orgulho, Fernando Silva, confessando-se desgostoso com a crescente opção pelos sinos eletrónicos.

Músico profissional, Giovani Goulart também partilha da ideia de que o toque manual do sino “é outra música”.

“O toque automatizado tem lá o número de batidas e nada mais. No toque manual, há emoção, há expressão, há motivação, há sentimentos”, refere.

Preocupado com a morte lenta dos sineiros, está no terreno para gravar em vídeo e áudio o trabalho dos que ainda resistem, um registo que depois passará para as pautas.

No futuro, os interessados terão ao seu dispor documentos sobre os vários toques manuais dos sinos, podendo assim replicá-los, com fidelidade, avivando ou recuperando a tradição.

A Arquidiocese de Braga tem cerca de meio milhar de igrejas, mas, pelas contas de Goulart, serão pouco mais de 50 as que ainda mantêm o toque manual dos sinos.

É o caso do Mosteiro de Tibães, onde Fernando Silva é, há décadas, o tocador oficial dos sinos.

Depois de subir mais de 70 degraus, chega à torre do templo, um “palco” onde se sente um “verdadeiro artista” e onde chegou a ter muito “público”.

“As pessoas queriam ver e subiam até aqui, mas muitas vezes acabavam por atrapalhar, porque o espaço é pouco e é preciso ter muito cuidado. É que temos aqui um sino que deve pesar umas duas toneladas e qualquer distração pode ser a morte do artista”, conta.

Fernando já apanhou “alguns sustos”, já teve mesmo de se deitar no chão para não ser apanhado pelo sino “grandalhão”, mas nada que o faça esmorecer.

Até porque também já viveu episódios engraçados, como aconteceu numa noite em que estavam a consertar o sino e a população de imediato apareceu “em massa” junto ao mosteiro, pensando que havia fogo na freguesia.

Diz que sente “alegria” quando está a tocar e garante que vai continuar até que as forças o traiam.

Os seus instrumentos são quatro sinos, que faz tocar com as mãos e com os pés, manuseando cordas e um cabo de aço.

Não tem dúvidas de que os sinos “falam” e que transmitem notícias, nem sempre agradáveis.

“Se estou a tocar a defunto e o badalo do sino deixar um ronco, um rasto, um ‘ohhhhhhhh’ que não quer parar, é sinal de que morreu ou está para morrer outra pessoa na freguesia. É certinho, não falha”, atira.

Mas toques há-os para quase todas as ocasiões, mesmo para as mais improváveis, como um parto difícil ou casamento de gémeos.

“É qualquer coisa de inimaginável, de uma riqueza ímpar e que não pode de forma nenhuma perder-se”, exulta Giovani Goulart, para quem os sinos, antigamente, chegaram a funcionar como uma espécie de Internet, já que eram eles quem transmitiam as principais novidades de uma freguesia.

VCP // JGJ – Lusa/fim


Fotos:

– Os sinos da Torre da Universidade de Coimbra, um dos principais ícones da instituição e da cidade. PAULO NOVAIS/LUSA

– José Rolo, de 38 anos, o único que ainda sobe à torre e toca os sinos, aprendeu há 20 anos como se fazem os diferentes toques que estão a ser registado em formato digital, em Alcaíde, 13 de Novembro 2009. ANTONIO JOSE / LUSA

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