Macau, China, 06 mar (Lusa) – Quando Benjamin Moser leu Clarice Lispector estaria longe de imaginar um amor para sempre, que deu a conhecer ao mundo com uma extensa biografia, mas só vai “parar quanto tiver publicado em inglês toda a sua obra”.

“Fiz 40 anos em setembro e tenho certeza que se me forem dados a viver mais 40 vou continuar a falar de Clarice até à minha morte, porque não se esgotam os grandes assuntos”, diz Benjamin Moser, norte-americano, fluente em português, entre outras línguas, conhecido como o primeiro biógrafo internacional de Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Com essa biografia (“Clarice Lispector – Uma Vida”, na edição portuguesa da Civilização), Benjamin Moser considera que fez a sua parte ao nível da escrita, dando a conhecer ao mundo Clarice – como a trata, não tivesse uma ‘ligação’ com ela de mais de 20 anos –, mas sente uma espécie de “obrigação” a cumprir.

“Tenho uma obrigação que é como uma filha minha”, diz, ainda que veja tal como “engraçado” e “esquisito” ao mesmo tempo, dado que em 2017 se cumprem 40 anos da morte da autora, afirmou em entrevista à agência Lusa à margem de um tributo à autora inserido no festival literário de Macau, Rota das Letras.

“Cuido da Clarice como se fosse uma criança minha porque a achei conhecida e respeitada no Brasil, mas em Portugal muito pouco conhecida – para não falar da China ou da Alemanha”, exemplificou.

Nesse sentido, Benjamim Moser, que “nunca” se cansa de falar sobre Clarice ou de ler a sua obra, promete manter viva essa longa relação, ainda que de outra forma: “Vou parar quando tiver publicado em inglês toda a obra dela. A gente já publicou cinco dos nove romances, os contos e ainda ficam quatro romances e uma parte dessa correspondência e essas coisas assim”.

Na China, pela primeira vez e precisamente para falar de Clarice, Benjamin Moser não esconde o brio: “O meu grande orgulho na vida profissional, até agora, é ter colocado Clarice, por exemplo, na capa do New York Times – foi o primeiro brasileiro a chegar lá” ou “ver Clarice publicada na Grécia, que agora está no número três na lista de ficção dos ‘best-sellers’ lá”.

Benjamin Moser, que tem na mão um exemplar recém-adquirido de uma obra de Clarice traduzida para chinês, também coordena as edições noutras línguas, incluindo a portuguesa.

Foi o que aconteceu com “Todos os Contos” (Relógio de Água, 2016) que conta com edição, introdução e notas de Benjamin Moser.

Essa coletânea marca, aliás, outra façanha do norte-americano: “Foi primeiro publicada nos Estados Unidos, uma coisa muito rara. Até agora, que eu saiba, foi a primeira vez na história [que] um livro brasileiro foi publicado em inglês antes de ser publicado no Brasil e em Portugal”.

O primeiro ‘encontro’ com Clarice foi fruto de um acaso que até acaba por estar ligado à China, o que não deixa de ser “engraçado”, realça.

Tudo começou quando regressou aos Estados Unidos para fazer a faculdade, após ter cumprido o ensino secundário em França. Habituado ao velho continente queria algo “diferente” e decidiu estudar chinês – por ser “um pouco o oposto da Europa”. Foi “horrível” logo desde o início, mas tornou-se “desesperante” quando o professor alertou que iam demorar anos para conseguir ler um jornal por inteiro.

Tinha que fazer uma língua na faculdade e a única vaga que havia na altura era o português: “Como já falava espanhol e francês não era muito difícil e logo começamos a ler no curso obras pequenas de literatura brasileira portuguesa e foi aí que descobri ‘A Hora da Estrela'”.

Depois, partiu para o Brasil, para onde foi “oficialmente” estudar: “Eu quase não ia [ao curso]. Ficava em casa lendo Clarice, na praia de Ipanema lendo Clarice”, conta, descrevendo os tempos que andava de autocarro pelo Rio de Janeiro à procura da presença da autora.

Para Benjamin Moser, “o leitor de Clarice não é um leitor de qualquer coisa”.

“Sinto uma força poética e mística que vem dessas páginas (…). É um estímulo à vida, à leitura, ao que nos faz humanos, de como somos, [de] como é o mundo, como sentimos e como morremos. Eu pelo menos nunca descobri isso em nenhum outro autor”.

DM // TDI – Lusa/Fim

 

RELACIONADAS