Gostaria que aceitassem que as minhas primeiras palavras fossem ditadas pela recordação e pela afectividade e que possa, assim, confessar quanto me apraz voltar a Santiago, terra a que me prendem tantas, tão antigas e tão gratas recordações.

Vim aqui, pela primeira vez, com o Orfeon Académico de Coimbra quando ainda era estudante universitário, e logo fiquei fascinado por esta cidade que se desenvolveu em torno da sua majestosa catedral românica que, como singular farol, atrai e guia há mais de mil anos, por caminhos pontuados de igrejas e capelas, os povos da Europa que na “finisterra” buscam como meta do seu peregrinar, Compostela, este “campo de estrelas” que é uma referência universal de ecumenismo, de cultura e de encontro.

Mais tarde, docente da Faculdade de Engenharia da Universidade de Luanda, em Angola, trouxe a Santiago alunos meus a quem procurei comprovar quanto lhes dizia nas aulas acerca da beleza, do mistério e da espiritualidade que ressaltam das ruas e praças medievais com arcadas contínuas que protegem da morrinha, bordejadas de casas com varandas em pedra ou em ferro que permitem ver sem se ser visto e são encimadas por telhados de onde parece que se desprendem gárgulas de animais fantásticos.

Continuei, com frequência, a vir a Santiago e, em cada regresso, descubro marcas da profunda comunhão entre galegos e portugueses. Por isso, cumpro sempre alguns rituais que incluem o percorrer da vizinha rua da Rainha que recorda Isabel de Aragão, a Rainha Santa, padroeira da minha Coimbra natal, que por Celanova peregrinou até aqui chegar e com a sua generosidade dotar o tesouro da Catedral.

E visitar também o Hostal e a sua capela de decoração manuelina da autoria de artistas portugueses feita, tal como a Universidade de Coimbra, com pedra arrancada das canteiras de Ançã, ali tão próximas. Coimbra que é, aliás, uma das 4 cidades com quem Santiago firmou acordos de geminação.

Mais recentemente, não prescindo de passar pelo Centro Galego  de Arte  Contemporânea nascido do traço luminoso e simples de Siza Vieira.

E, hoje, aqui estou de novo, com o grato encargo de contribuir, através da assinatura de um protocolo de cooperação com a Academia Galega da Língua Portuguesa para o reforço da nossa fraternidade, através da Língua que partilhamos.

 

Minhas Senhoras e meus Senhores

Constituído em Junho de 2008 e tendo iniciado a sua actividade no ano seguinte, o Observatório da Língua Portuguesa é uma associação sem fins lucrativos que assumiu três objectivos essenciais.

Em primeiro lugar, concorrer para o conhecimento e divulgação do estatuto e projecção da Língua Portuguesa no Mundo, depois, colaborar no estabelecimento de redes de parcerias visando a afirmação, defesa e promoção da Língua Portuguesa e, finalmente, contribuir para a formulação de políticas e decisões que favoreçam o reconhecimento da Língua Portuguesa como língua estratégica de comunicação internacional.

Para a consecução do primeiro objectivo – ser um observatório – o OLP apoia-se na cooperação que mantém com os Institutos de Estatística dos Países da CPLP no intuito de conhecer com rigor dados relativos às populações residentes em cada um deles, suas línguas de comunicação e de ensino, dimensão das respectivas diásporas, proficiência no uso do Português, etc.

Trata-se de uma complexa tarefa da mais elevada importância ditada pelo propósito de, crescentemente, se poderem ir substituindo estimativas por valores mais exactos. Com efeito, não é razoável que, quinze anos após a constituição da CPLP, se continue a afirmar que a Língua Portuguesa é falada por cerca de 240 a 250 milhões de pessoas, não se saiba com precisão onde vivem esses falantes e a utilização que fazem do nosso idioma comum, o que se passa com as segundas e terceiras gerações das diásporas, etc. Da mesma forma não é aceitável que persistam interpretações não convergentes sobre as causas e o ritmo de aumento do número de falantes, em resultado quer do crescimento demográfico quer de outras razões. O conhecimento destas realidades é indispensável para a formulação de políticas da Língua, para a correcta localização e dimensionamento de escolas, centros culturais, centros de formação de professores e/ou de tradutores, leitorados, cátedras e de outros meios de apoio ao fomento do ensino do Português e à sua crescente projecção como língua global. É igualmente necessário saber com alguma certeza qual o valor económico da Língua e as motivações, as regiões e os países que mais relevantemente o suportam.

É uma acção que exige constantes revisões e actualizações e que, por isso, nunca estará concluída. Mas com o apoio dos Institutos de Estatística dos Países da CPLP, de organizações, como o Instituto Camões, o Departamento Cultural do Itamaraty e o Museu da Língua Portuguesa já pudemos apurar e validar institucionalmente os elementos que apresentamos do nosso Sítio na Internet.

A esta actuação de observatório, associamos a da afirmação, defesa e promoção da Língua Portuguesa.

Fazemo-lo por iniciativa própria ou em associação com outras entidades, através de conferências, seminários, publicações, intervenções na comunicação social, etc. Entendemos tratar-se de uma acção que mais eficazmente atinge as metas pretendidas se o trabalho for feito em rede e por isso o Observatório assume-se como uma plataforma de diálogo e cooperação entre instituições com idênticos objectivos, procurando estimular e patrocinar a coordenação de programas e projectos com vista a potenciar a complementaridade das diferentes intervenções e a acrescida coerência dos resultados finais. Com esse propósito estabelecemos parcerias com diversas universidades, a Academia das Ciências de Lisboa, Associações de Professores, empresas empenhadas na criação de recursos e conteúdos destinados ao ensino do Português, etc.

Temos uma cooperação com o Plano Nacional de Leitura do Ministério português da Educação que visa a ampliação do número de voluntários que participam em iniciativas organizadas por escolas, autarquias, hospitais, etc., em prol de “ler mais” em Português. Pensamos estender este programa a Goa numa acção que envolve, igualmente, a Fundação Cidade de Lisboa e a Anglo – Portuguese Friendship Society.

Criaremos, ainda este ano, delegações do Observatório na Cidade da Praia (em parceria com a Universidade de Cabo Verde) e em Macau (com o Instituto Internacional de Macau) e preparamos o lançamento de cursos de Português a distância a serem utilizados, designadamente, em Goa, Angola e Timor.

O Observatório mantém uma relação privilegiada coma CPLP, através, nomeadamente, do seu Secretariado Executivo e do IILP, aguardando que lhe seja reconhecido o estatuto de Observador Consultivo.

Para o desenvolvimento deste conjunto de actividades, o Observatório elegeu como meio instrumental as novas Tecnologias de Informação e Comunicação com utilização de um Sítio Web e, dentro em breve de um Portal. Pretendemos que o Sítio que lançámos em Novembro transacto com o apoio da PT -Comunicações, seja um ponto de encontro, de debate e de colaboração entre todos quantos, independentemente do País a que pertençam, se interessam pela temática da Língua Portuguesa.

 

Minhas Senhoras e meus Senhores

O protocolo que agora assinámos insere-se no objectivo geral de nos associarmos a quem, melhor e há mais tempo que nós, se empenha na afirmação, defesa e promoção da Língua Portuguesa. Mas este acto que aqui nos congrega, inclui um outro propósito, que por ser singular – e por isso irrepetível – encerra um significado que não posso deixar de enfatizar. Sendo o primeiro protocolo que o Observatório subscreve fora das fronteiras políticas de Portugal, concretiza o desejo de que fosse celebrado onde a nossa língua nasceu. Por isso aqui estamos, no coração da Galiza, para selar este compromisso de juntar as mãos em prol de uma crescente afirmação e projecção da Língua Portuguesa na cena internacional.

Quero, em nome do Observatório, agradecer à Academia a distinção de ter providenciado para que a formalização do início da nossa parceria fosse estabelecida no quadro de uma cerimónia de homenagem a Ernesto Guerra Da Cal, poeta, estudioso, crítico, professor e filólogo a quem todos tanto devemos, quer pelo labor que ao longo de mais de 40 anos de professor universitário desenvolveu a favor da dignificação da Língua Portuguesa, quer pelo contributo que, com rara sensibilidade, lucidez e profundidade, deu para o melhor conhecimento e compreensão da obra literária de Eça de Queiroz, que ele firmemente sustentava deveria ser considerado um escritor galego.

Permitam-me que, uma vez mais, revisite lembranças da minha juventude e revele quanto me marcou o que, a esse propósito, li em “La casa de la Troya”, quando Casimiro Barcala, em ceia que rematava uma noite de bem sucedida serenata, se referia “à imensidade do maior novelista do século, o enorme Eça de Queiroz” e assegurava que ele era “Galego e bem galego! Galego pela sua virilidade, galego pela sua ternura, galegas são as suas personagens, galega a sua ironia, galego o seu amor à terra”, concluindo com arrebatamento e convicção: “É a terceira pessoa da trindade galega: Rosalia, Curros, Eça de Queiroz”.

Creio, assim, que não haveria ocasião mais ajustada e honrosa para a celebração do nosso protocolo de cooperação que esta cerimónia evocativa do centenário do nascimento de Ernesto Guerra Da Cal que, como que em auto-definição, tanto gostava de confessar: “sinto-me galego de nascimento e galaico-português de vocação”.

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