28 February 2021
Sobre o rio Cacheu, ergue-se uma nova ponte, mesmo ao lado da jangada que vai transportando carros e pessoas entre as duas margens. 12 de novembro de 2008. TIAGO PETINGA/LUSA

As marcas africanas da língua portuguesa

1. Sabemos que o profundo contacto do português com as línguas de África não se tem limitado a este continente. Em Portugal são numerosos os africanismos de diferente proveniência, e hoje, por exemplo, a expressão bué parece estar consagrada na oralidade. Mas, no Brasil, a colonização acarretou a deslocação em massa de africanos para trabalhar como escravos, e o resultado de todo este (doloroso) processo teve, naturalmente, impacto na língua atualmente falada pelos brasileiros. Justifica-se, portanto, aqui assinalar a entrevista que a etnolinguista brasileira Yeda Pessoa de Castro, professora da Universidade do Estado da Bahia, deu à publicação em linha Revista de História, a respeito dos vários traços do português do Brasil que testemunham o encontro histórico dos falantes de iorubalínguas bantas com os falantes de língua portuguesa.

Sublinha a investigadora baiana: «[…] [A] língua portuguesa que [nós, brasileiros] falamos […] é culturalmente negra.

Ela é resultado de três grandes famílias linguísticas: a família indo-europeia, com a participação dos falantes portugueses, a família tupi, com a participação dos falantes indígenas, e a família níger-congo, com a participação dos falantes da região subsariana da África.» Refira-se que um dos traços atribuíveis à influência banta é a marcação incompleta do plural em expressões nominais, como acontece com «as criança», em lugar de «as crianças».

Trata-se de uma característica também presente no português de Angola, como o programa Mambos da Língua – O tu-cá-tu-lá do português de Angola, emitido pela Rádio Nacional de Angola, com a colaboração do Ciberdúvidas, já teve ocasião de assinalar, por exemplo, nos episódios 22.º, «”Vão escrever as memórias”, não “vão escrever ‘as memória'”», 49.º, «A diferença dos plurais em português e nas línguas bantas», e 85.º, «“Jornadas Culturais e Patrióticas”, e não “Jornadas Culturais e ‘Patriótica'”».

2. Ainda acompanhando as tendências do português de Angola, o Nosso Idioma disponibiliza  mais uma crónica do professor e jornalista angolano Edno Pimentel, publicada no semanário luandense Nova Gazeta, desta vez, sobre um problema de concordância: será gramatical uma frase como «ela é o cantor mais bem pago de Angola»? Na mesma rubrica,  Gonçalo Neves aborda as possibilidades de tradução do termo inglês membership, a propósito de uma questão formulada por outro nosso consultor, Luciano Eduardo de Oliveira. No consultório, ficam em linha respostas sobre os vocábulos «paz de alma»,  amola-tesouras e garrano, além de um parecer sobre a adequação estilística de «sem si».

3. No discurso à volta da crise política que se vive em Portugal, verifica-se que o termoprecariedade continua recorrentemente dito “precaridade”, precisamente por quantos tinham mais que razões de já ter tomado em devida conta que não é assim que se pronuncia a palavra – os líderes das duas centrais sindicais portuguesas… Por exemplo, num debate transmitido neste dia pela Antena 1.

Fonte: Ciberdúvidas02_TONGA_Centenas de mulheres, aguardam em fila a sua vez de votar, na localidade negra de Mabvuko, arredores de Harare, para as eleicoes no Zimbabue. FOTO ANTONIO MATEUSLUSA

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