No meu programa no Portuguese Channel de New Bedford, entrevistei hoje o Jacob Mukand. Deveria ter escrito “reentrevistei” porque foi também meu convidado há uma década. Tinha então 16 anos e eu conhecera-o numa mesa-redonda que moderei na Brown com o querido Luís Fernando Veríssimo, fabuloso cronista brasileiro. Impressionou-me a sua intervenção de fedelho quase imberbe usando um português impressionante. Vim a saber que era autodidata na nossa língua desde os 12 anos. Fascinado pela música Bossa Nova, pôs-se a aprender português para entender as letras e aproveitou o facto de os pais (um indiano-americano e uma judia também americana) terem uma empregada portuguesa para praticar a sua aprendizagem livresca, sem ainda ter a menor noção das abissais diferenças fonéticas e linguísticas em que se estava a envolver pois a senhora era… micaelense.

Mas não vou por-me aqui a repetir uma nota que nessa altura partilhei.

Saltarei uma década. O Jacob, depois de formado na Brown (foi meu aluno), recebeu uma bolsa para um mestrado em Cambridge, no Reino Unido. Mas isso foi apenas uma. Outra bolsa levou-o a Paris, onde na Sorbonne melhorou o seu francês (contou-me uma história do seu encontro com Alain Finkielkraut), e ainda outra plantou-o em Marrocos a fim de aperfeiçoar o seu árabe. Fala também espanhol, mas não me recordo se viveu em algum país hispânico. Ah! E também fala hebraico, mas não passou muito tempo em Israel. Aprendeu a língua sobretudo com o avô, que era rabino. A família tem a árvore genealógica meticulosamente recuperada e sabe que remonta a judeus portugueses refugiados em Amesterdão, expulsos por D. Manuel I. O avô era especialista em línguas semitas e por isso conhecia também o árabe, tendo transmitido ao neto uma grande admiração por essa cultura, de que o Jacob me falou com entusiasmo. Dissertou largamente sobre as tensões entre os filósofos e juristas árabes e os teólogos islâmicos e recitou, em árabe, odes ao vinho e às mulheres de celebrados poetas (também declamou Pessoa em português, porém sobre nenhum desses temas).

Poema de Daniel de Sá

A propósito, falei-lhe dos poemas medievais do género da autoria de frades alemães do século XIII, os famosos Carmina Burana que Carl Orff musicou esplendidamente. Graças ao iPhone, em segundos pus esta versão altissonante a tocar no carro  pois ele desconhecia esse exemplo do que me contava do mundo árabe. E também lhe prometi emprestar o livro As Rosas de Granada, de Ahmed Ben Kassim, um heterónimo do saudoso Daniel de Sá, que era especialista em imitar vozes de outros e dedicou à mulher esse seu belo livro de poemas decalcado na poesia árabe.

E foi assim uma troca constante, uma aprendizagem para ambos os lados. Até nas últimas semanas adquirimos os mesmos livros – The Dawn of Everything, de David Graeber e David Wengrown, e a biografia de Pessoa do Richard Zennith. É que o Jacob lê imenso. Não quis um emprego a tempo inteiro para poder continuar a dedicar-se à leitura e ao seu amado violão. Trabalha apenas quatro horas por dia. Em casa dos pais (onde está só porque os progenitores vivem aposentados na Florida), recebe da instituição para que trabalha dois artigos (de jornal) por dia, que tem de por vezes reescrever inteiramente para os tornar legíveis. Quer ser jornalista e acha que esse trabalho lhe vai permitir utilizar aquilo que aprendeu na Brown: escrever claramente. Uma prática assim intensa e diária vai treiná-lo a dominar a expressão de ideias enquanto aprende mais e aprofunda os conhecimentos adquiridos. Sobre a cultura árabe e islâmica, acrescente-se. O instituto para que trabalha é financiado pela Arábia Saudita. Sim, continua judeu. Mas ganhou do avô a vontade de contribuir para amenizar um pouco as diferenças entre os dois povos semitas.

É uma utopia, mas isso não o incomoda. Vai mudar-se para o Cairo daqui a três meses. Com o salário que recebe viverá muito mais desafogadamente e disporá de imenso tempo livre para prosseguir os seus estudos.

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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providemce, Rhode Island (EUA). Nessa mesma universidade é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, e O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão, na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown, Pessoa Plural e e-Journal of Portuguese History bem como a uma série de livros sobre temática lusófona na Sussex Academic Press, no Reino Unido. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.

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