9 March 2021
Uma secção de voto no bairro do Lonundo, província do Huambo, onde toda a população vive da produção e comercialização de mel artesanal, a poucos dias da realização das eleições gerais que irão decorrer no próximo dia 23 de agosto, Cachiungo, Angola, 15 de agosto de 2017. MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Angola/Eleições: Aldeia no centro de Angola entre o mel no topo da árvore e o pano da CNE

Cachiungo, Angola, 15 ago (Lusa) – Em frente à aldeia do Lonundo, na estrada que liga as capitais do Huambo e do Bié, em pleno centro do país, um pano assinala aquela que será a assembleia de voto angolana n.º 4.475.

Aqui todos dependem do mel e contam-se os dias para as eleições de 23 de agosto.

A aldeia, no município de Cachiungo, província do Huambo, tem cerca de 350 pessoas, mas apenas 138 vão votar nas eleições gerais, como atesta a lista afixada pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE) numa árvore, do outro lado da estrada, a mesma utilizada para segurar o pano que assinala o número da assembleia de voto.

“A gente aqui está atenta à bandeira, para não levarem, para ficar bem”, explica, à conversa com a Lusa, Agostinho Simão, 25 anos, que se ocupa das lavras que rodeiam e alimentam a aldeia.

No terreno em frente da pequena povoação, utilizado como campo de futebol pelos mais novos, será instalada no dia das eleições gerais, pela CNE, uma tenda para assembleia de voto.

Serão as quartas eleições em Angola e as primeiras para Virgílio Fiel da Graça. Aos 19 anos estreia-se a votar e confessa-se emocionado ao ver o nome na lista, com os nomes dos eleitores, colocada em frente à aldeia.

“Sinto-me feliz com o voto, porque é a primeira vez”, conta, numa pausa do trabalho, que faz desde os 16 anos.

Numa aldeia com 88 apicultores artesanais, sustento de todas as famílias, Virgílio tem a tarefa de subir ao topo das árvores do bairro, para retirar o mel das colmeias, a vários metros de altura.

Com a escola primária feita, diz que bem mais simples do que subir à árvore será votar: “Já me ensinaram e desejo mesmo um bom dia 23 porque será um dia feliz para todos”.

Depois de vários casos, em todo o país, de vandalização das marcas colocadas pela CNE, Virgílio, como outros rapazes da aldeia, garante a “segurança”, sobretudo à noite, do pano que sinaliza a assembleia de voto 4.475.

A Comissão Nacional Eleitoral de Angola constituiu 12.512 assembleias de voto, que incluem 25.873 mesas de voto, algumas a serem instaladas em escolas e em tendas por todo o país, com o escrutínio centralizado nas capitais de província e em Luanda, estando 9.317.294 eleitores em condições de votar.

“É o nosso dever, preparar um dia tão importante. Não podemos deixar que aconteça alguma coisa”, afirma Virgílio, convicto da importância de guardar o pano deixado no local.

“Disseram que no bairro não, tem que ser [colocado o pano] aqui fora. Mas nós estamos atentos”, garante, por sua vez, Maria Ilda, 30 anos, moradora do bairro e que vota pela segunda vez.

Sem eletricidade, água garantida por um poço e lavras à volta da aldeia, por ali garante-se que a vida é boa: “Temos o que precisamos”.

No Lonundo, cada apicultor tem entre 100 e 400 colmeias, as chamadas “londe”, feitas de cordas, capim e madeira, colocadas no topo da árvore e que a cada 15 dias garantem entre cinco a sete quilos de mel, o sustento da aldeia.

“Vendemos aqui na estrada, a 1.500 kwanzas [sete euros] cada litro. Mas se tivéssemos uma loja era melhor, fazia-se mais negócio”, explica Domingos Jamba, que tem 280 colmeias espalhadas pelas mais altas árvores da aldeia, mas apenas 100 atualmente com abelhas.

“Somos muitos apicultores e abelhas não chegam para todos”, conta.

Estas colmeias tradicionais garantem o sustento para todo o ano também da família de Domingos, que aos 51 anos conta 19 filhos com as duas mulheres com quem vive na aldeia.

“Com o negócio do mel e a lavra não falta nada. Só de milho tirei 37 sacos de 150 quilos, que dá para alimentar até ao próximo ano”, conta ainda Domingos Jamba, que lidera os apicultores do bairro do Lonundo e a praça rural de venda de mel “Ombalá Catota”.

Por esta altura, quem mora na aldeia vive dias de olhos postos no mel da árvore e na tarja colocada pela CNE para as eleições gerais.

“Vai correr bem, estamos prontos”, atira Domingos.

Angola vai realizar eleições gerais a 23 de agosto deste ano, às quais concorrem o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE), Partido de Renovação Social (PRS), Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e Aliança Patriótica Nacional (APN).

A Constituição angolana aprovada em 2010 prevê a realização de eleições gerais a cada cinco anos, elegendo 130 deputados pelo círculo nacional e mais cinco deputados pelos círculos eleitorais de cada uma das 18 províncias do país (total de 90).

O cabeça-de-lista pelo círculo nacional do partido ou coligação de partidos mais votado é automaticamente eleito Presidente da República e chefe do executivo, conforme define a Constituição, moldes em que já decorreram as eleições gerais de 2012.

PVJ // EL

Lusa/Fim

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